Crtica, A nova gerao, 1879

A nova gerao

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
de Janeiro: Nova Aguilar, vol. III, 1994.

Publicado
originalmente na Revista Brasileira, vol. II, dezembro de 1879.

I

H entre
ns uma nova gerao potica, gerao viosa e galharda, e, cheia de fervor e
convico. Mas haver tambm uma poesia nova, uma tentativa, ao menos? Fora
absurdo neg-lo; h uma tentativa de poesia nova,  uma expresso incompleta,
difusa, transitiva, alguma coisa que, se ainda no  o futuro, no  j o
passado. Nem tudo  ouro nessa produo recente; e o mesmo ouro nem sempre se
revela de bom quilate; no h um flego igual e constante; mas o essencial 
que um esprito novo parece animar a gerao que alvorece, o essencial  que
esta gerao no se quer dar ao trabalho de prolongar o ocaso de um dia que
verdadeiramente acabou.

J 
alguma coisa. Esse dia, que foi o romantismo, teve as suas horas de
arrebatamento, de cansao e por fim de sonolncia, at que sobreveio a tarde e
negrejou a noite. A nova gerao chasqueia s vezes do romantismo. No se pode
exigir da extrema juventude a exata ponderao das coisas; no h impor a
reflexo ao entusiasmo. De outra sorte, essa gerao teria advertido que a
extino de um grande movimento literrio no importa a condenao formal e
absoluta de tudo o que ele afirmou; alguma coisa entra e fica no peclio do
esprito humano. Mais do que ningum, estava ela obrigada a no ver no
romantismo um simples interregno, um brilhante pesadelo, um efeito sem causa,
mas alguma coisa mais que, se no deu tudo o que prometia, deixa quanto basta
para legitim-lo. Morre porque  mortal. 'As teorias passam, mas as
verdades necessrias devem subsistir'. Isto que Renan dizia h poucos
meses da religio e da cincia, podemos aplic-lo  poesia e  arte. A poesia
no , no pode ser eterna repetio; est dito e redito que ao perodo espontneo
e original sucede a fase da conveno e do processo tcnico, e  ento que a
poesia, necessidade virtual do homem, forceja por quebrar o molde e
substitu-lo. Tal  o destino da musa romntica. Mas no h s inadvertncia
naquele desdm dos moos; vejo a tambm um pouco de ingratido. A alguns
deles, se  a musa nova que o amamenta, foi aquela grande moribunda que os
gerou; e at os h que ainda cheiram ao puro leite romntico.

Contudo
acho legtima explicao ao desdm dos novos poetas. Eles abriram os olhos ao
som de um lirismo pessoal, que salvas as excees, era a mais enervadora msica
possvel, a mais trivial e chocha. A poesia subjetiva chegara efetivamente aos
derradeiros limites da conveno, descera ao brinco pueril, a uma enfiada de
coisas piegas e vulgares; os grandes dias de outrora tinham positivamente
acabado; e se de longe em longe, algum raio de luz vinha aquecer a poesia
transida e debilitada, era talvez uma estrela, no era o sol. De envolta com
isto, ocorreu uma circunstncia grave, o desenvolvimento das cincias modernas,
que despovoaram o cu dos rapazes, que lhe deram diferente noo das coisas, e
um sentimento que de nenhuma maneira podia ser o da gerao que os precedeu. Os
naturalistas, refazendo a histria das coisas, vinham chamar para o mundo
externo todas as atenes de uma juventude, que j no podia entender as
imprecaes do varo de Hus; ao contrrio, parece que um dos caracteres da nova
direo intelectual ter de ser um otimismo, no s tranqilo, mas triunfante.
J o  s vezes; a nossa mocidade manifesta certamente o desejo de ver alguma
coisa por terra, uma instituio, um credo, algum uso, algum abuso; mas a ordem
geral do universo parece-lhe a perfeio mesma. A humanidade que ela canta em
seus versos est bem longe de ser aquele monde avort de Vigny   mais
sublime,  um deus, como lhe chama um poeta ultramarino, o Sr. Teixeira Bastos.
A justia, cujo advento nos  anunciado em versos subidos de entusiasmo, a
justia quase no chega a ser um complemento, mas um suplemento; e assim como a
teoria da seleo natural d a vitria aos mais aptos, assim outra lei, a que
se poder chamar seleo social, entregar a palma aos mais puros.  o inverso
da tradio bblica;  o paraso no fim. De quando em quando aparece a nota aflitiva
ou melanclica, a nota pessimista, a nota de Hartmann; mas  rara, e tende a
diminuir; o sentimento geral inclina-se  apoteose; e isto no somente 
natural, mas at necessrio; a vida no pode ser um desespero perptuo, e fica
bem  mocidade um pouco de orgulho.

Qual ,
entretanto, a teoria e o ideal da poesia nova? Esta pergunta  tanto mais
cabida quanto que uma das preocupaes da recente gerao  achar uma definio
e um ttulo. A, porm, flutuam as opinies, afirmam-se divergncias, domina a
contradio e o vago; no h, enfim, um verdadeiro prefcio de Cromwell.
Por exemplo, um escritor, e no pouco competente, tratando de um opsculo, uma
poesia do Sr. Fontoura Xavier (prefcio do Rgio Saltimbanco), afirma
que este poeta 'tem as caracterizaes acentuadas da nova escola, lgica
fuso do realismo e do romantismo, porque rene a fiel observao de Baudelaire
e as surpreendentes dedues do velho mestre Vtor Hugo'. Aqui temos uma
definio assaz afirmativa e clara, e se inexata em parte, admiravelmente
justa, como objeo. Digo que em parte  inexata porque os termos Baudelaire e
realismo no se correspondem to inteiramente como ao escritor lhe parece. Ao
prprio Baudelaire repugnava a classificao de realista  cette grossire
pithte, escreveu ele em uma nota. Como objeo, e alis no foi esse o
intuito do autor, a definio  excelente, o que veremos mais abaixo.

No falta
quem conjugue o ideal potico e o ideal poltico, e faa de ambos um s
intuito, a saber, a nova musa ter de cantar o Estado republicano. No  isto,
porm, uma definio, nem implica um corpo de doutrina literria. De teorias ou
preocupaes filosficas haver algum vestgio, mas nada bem claramente
exposto, e um dos poetas, o Sr. Mariano de Oliveira, conquanto confesse estar
no terceiro perodo de Comte, todavia pondera que um livro de versos no 
compndio de filosofia nem de propaganda,  meramente livro de versos; opinio
que me parece geral. Outro poeta  creio que o mais recente,  o Sr. Valentim
Magalhes, descreve-nos (Cantos e Lutas, p. 12) um quadro delicioso: a
escola e a oficina cantam alegremente; o gnio enterra o mal; Deus habita a
conscincia; o corao abre-se aos sculos do bem; aproxima-se a liberdade, e
conclui que  isto a idia nova. Isto qu? pergunta-lhe um crtico (Economista
Brasileiro, de 11 de outubro de 1879); e protesta contra a definio, acha
o quadro inexato; a idia nova no  isso;  o que ela  e pretende ser est
dez pginas adiante; e cita uns versos em que o poeta clama imperativamente que
se esmaguem os broquis, que se partam as lanas, que dos canhes se faam
esttuas, dos templos escolas, que se cale a voz das metralhas, que se erga a
voz do direito; e remata com um pressentimento da ventura universal:

Quando
pairar por sobre a Humanidade

A bno
sacrossanta da Justia.

A
diferena, como se v,  puramente cronolgica ou sinttica; d-se num ponto
como realidade acabada o que noutro ponto parece ser apenas um prenncio;
questo de indicativo e imperativo; e esta simples diferena, que nada entende
com o ideal potico, divide o autor e o crtico. A justia anunciada pelo Sr.
V. Magalhes, ach-la-emos em outros, por exemplo, no Sr. Tefilo Dias (Cantos
Tropicais, p. 139);  idia comum aos nossos e aos modernos poetas portugueses.
Um destes, chefe de escola, o Sr. Guerra Junqueiro, no acha melhor definio
para sua musa: Reta como a justia, diz ele em uns belos versos da Musa
 em frias. Outro, o Sr. Guilherme de Azevedo, um de seus melhores companheiros,
escreveu numa carta com que abre o livro da Alma nova:
'Sorrindo ou combatendo fala (o livro) da humanidade e da Justia'.
Outro, o Sr. Teixeira Bastos, nos Rumores vulcnicos, diz que os seus
versos cantam um deus sagrado  a Humanidade  e o 'coruscante vulto da
Justia'. Mas essa aspirao ao reinado da Justia (que  afinal uma
simples transcrio de Proudhon) no pode ser uma doutrina literria;  uma
aspirao e nada mais. Pode ser tambm uma cruzada, e no me desagradam as
cruzadas em verso. Garrett, ingnuo s vezes, como um grande poeta que era,
atribui aos versos uma poro de grandes coisas sociais que eles no fizeram,
os pobres versos; mas em suma, venham eles e cantem alguma coisa nova,  essa
justia, por exemplo, que oxal desminta algum dia o conceito de Pascal. Mas
entre uma aspirao social e um conceito esttico vai diferena; o que se
precisa  uma definio esttica.

Ach-la-emos
no prefcio que o Sr. Slvio Romero ps aos seus Cantos do fim do sculo?
'Os que tm procurado dar nova direo  arte,  diz ele,  no se acham
de acordo. A bandeira de uns  a revoluo, de outros o positivismo; o
socialismo e o romantismo transformado tm tambm os seus adeptos. So
doutrinas que se exageram, ao lado da metafsica idealista. Nada disto 
verdade'. No se contentando em apontar a divergncia, o Sr. Slvio Romero
examina uma por uma as bandeiras hasteadas, e prontamente as derruba; nenhuma
pode satisfazer as aspiraes novas. A revoluo foi parca de idias, o
positivismo est acabado como sistema, o socialismo no tem sequer o sentido
altamente filosfico do Positivismo, o romantismo transformado  uma frmula
v, finalmente o idealismo metafsico equivale aos sonhos de um histrico; eis
a o extrato de trs pginas. Convm acrescentar que este autor, ao invs dos
outros, ressalva com boas palavras o lirismo, confundido geralmente com a
'melancolia romntica'. Perfeitamente dito e integralmente aceito.
Entretanto, o lirismo no pode satisfazer as necessidades modernas da poesia,
ou como diz o autor,  'no pode por si s encher todo o ambiente
literrio; h mister uma nova intuio mais vasta e mais segura'. Qual?
No  outro o ponto controverso, e depois de ter refutado todas as teorias, o
Sr. Slvio Romero conclui que a nova intuio literria nada conter dogmtico,
 ser um resultado do esprito geral de crtica contempornea. Esta
definio, que tem a desvantagem de no ser uma definio esttica, traz em si
uma idia compreensvel, assaz vasta, flexvel, e adaptvel a um tempo em que o
esprito recua os seus horizontes. Mas no basta  poesia ser o resultado geral
da crtica do tempo; e sem cair no dogmatismo, era justo afirmar alguma coisa
mais. Dizer que a poesia h de corresponder ao tempo em que se desenvolve 
somente afirmar uma verdade comum a todos os fenmenos artsticos. Ao demais,
h um perigo na definio deste autor, o de cair na poesia cientfica, e, por
deduo, na poesia didtica, alis inventada desde Lucrcio.

Ia-me
esquecendo uma bandeira hasteada por alguns, o realismo, a mais frgil de
todas, porque  a negao mesma do princpio da arte. Importa dizer que tal
doutrina  aqui defendida, menos como a doutrina que , do que como expresso
de certa nota violenta, por exemplo, os sonetos do Sr. Carvalho Jnior.
Todavia, creio que de todas as que possam atrair a nossa mocidade, esta  a que
menos subsistir, e com razo; no h nela nada que possa seduzir longamente
uma vocao potica. Neste ponto todas as escolas se congraam; e o sentimento
de Racine ser o mesmo de Sfocles. Um poeta, V. Hugo, dir que h um limite
intranscendvel entre a realidade, segundo a arte, e a realidade, segundo a
natureza. Um crtico, Taine, escrever que se a exata cpia das coisas fosse o
fim da arte, o melhor romance ou o melhor drama seria a reproduo taquigrfica
de um processo judicial. Creio que aquele no  clssico, nem este romntico.
Tal  o princpio so, superior s contendas e teorias particulares de todos os
tempos.



Do que
fica dito resulta que h uma inclinao nova nos espritos, um sentimento
diverso no dos primeiros e segundos romnticos, mas no h ainda uma feio
assaz caracterstica e definitiva do movimento potico. Esta concluso no
chega a ser agravo  nossa mocidade; eu sei que ela no pode por si mesma criar
o movimento e caracteriz-lo, mas sim receber o impulso estranho, como
aconteceu s geraes precedentes. A de 1840, por exemplo, s uma coisa no
recebeu diretamente do movimento europeu de 1830: foi a tentativa de poesia
americana ou inditica, tentativa excelente, se tinha de dar alguns produtos
literrios apenas, mas precria, e sem nenhum fundamento, se havia de
converter-se em escola, o que foi demonstrado pelos fatos. A atual gerao,
quaisquer que sejam os seus talentos, no pode esquivar-se s condies do
meio; afirmar-se- pela inspirao pessoal, pela caracterizao do produto, mas
o influxo externo  que determina a direo do movimento; no h por ora no
nosso ambiente a fora necessria  inveno de doutrinas novas. Creio que isto
chega a ser uma verdade de La Palisse.

E aqui
toco eu o ponto em que a definio do escritor, que prefaciou o opsculo do Sr.
Fontoura Xavier,  uma verdadeira objeo. Reina em certa regio da poesia nova
um reflexo muito direto de V. Hugo e Baudelaire;  verdade. V. Hugo produziu j
entre ns, principalmente no Norte, certo movimento de imitao, que comeou em
Pernambuco, a escola hugosta, como dizem alguns, ou a escola condoreira,
expresso que li h algumas semanas num artigo bibliogrfico do Sr. Capistrano
de Abreu, um dos nossos bons talentos modernos. Da vieram os versos dos Srs.
Castro Alves, Tobias Barreto, Castro Rebelo Jnior, Vitoriano Palhares e outros
engenhos mais ou menos vvidos. Esse movimento, porm, creio ter acabado com o
poeta das Vozes dfrica. Distinguia-o certa pompa, s vezes excessiva,
certo intumescimento de idia e de frase, um grande arrojo de metforas, coisas
todas que nunca jamais poderiam constituir virtudes de uma escola; por isso
mesmo  que o movimento acabou. Agora, a imitao de V. Hugo  antes da forma
conceituosa que da forma explosiva; o jeito axiomtico, a expresso antittica,
a imagem viva e rebuscada, o ar olmpico do adjetivo, enfim o contorno da
metrificao, so muita vez reproduzidos, e no sem felicidade. Contriburam
largamente para isso o Sr. Guerra Junqueiro e seus discpulos da moderna escola
portuguesa. Quanto a Baudelaire, no sei se diga que a imitao  mais
intencional do que feliz. O tom dos imitadores  demasiado cru; e alis no 
outra a tradio de Baudelaire entre ns. Tradio errnea. Satnico, v; mas
realista o autor de D. Juan aux enfers e da Tristesse de la lune!
Ora, essa reproduo, quase exclusiva, essa assimilao do sentir e da maneira
de dois engenhos, to originais, to soberanamente prprios, no diminuir a
pujana do talento, no ser obstculo a um desenvolvimento maior, no traz
principalmente o perigo de reproduzir os ademanes, no o esprito  a cara, no
a fisionomia? Mais: no chegar tambm a tentao de s reproduzir os defeitos,
e reproduzi-los exagerando-os, que  a tendncia de todo o discpulo
intransigente?

A
influncia francesa  ainda visvel na parte mtrica, na excluso ou decadncia
do verso solto, e no uso freqente ou constante do alexandrino.  excelente
este metro; e para empregar um smile musical, no ser to meldico, como
outros mais genuinamente nossos, mas  harmonioso como poucos. No  novo na
nossa lngua, nem ainda entre ns; desde Bocage algumas tentativas houve para
aclim-lo; Castilho o trabalhou com muita perfeio. A objeo que se possa
fazer  origem estrangeira do alexandrino  frouxa e sem valor; no somente as
teorias literrias cansam, mas tambm as formas literrias precisam ser
renovadas. Que fizeram nessa parte os romnticos de 1830 e 1840, seno ir
buscar e rejuvenescer algumas formas arcaicas?

Quanto 
decadncia do verso solto, no h dvida que  tambm um fato, e na nossa
lngua um fato importante. O verso solto, to longamente usado entre ns, to
vigoroso nas pginas de um Junqueira Freire e de um Gonalves Dias, entra em
evidente decadncia. No h neg-lo. Estamos bem longe do tempo em que Filinto proclamava galhardamente a sua adorao ao verso solto, adorao latina e
arcdica. Algum j disse que o verso solto ou branco era feito s para os
olhos. Blank verse seems to be verse only to the eye; e Johnson, que
menciona esse conceito, para condenar a escolha feita por Milton, pondera que
dos escritores italianos por este citados, e que baniram a rima de seus versos,
nenhum  popular: observao que me levou a ajuizar de nossas prprias coisas.
Sem diminuir o alto merecimento de Gonzaga, o nosso grande lrico,  evidente
que Jos Baslio da Gama era ainda maior poeta. Gonzaga tinha decerto a graa,
a sensibilidade, a melodia do verso, a perfeio de estilo; ainda nos punha em Minas Gerais as pastorinhas do Tejo e as ovelhas acadmicas. Bem diversa  a obra capital de
Baslio da Gama. No lhe falta, tambm a ele, nem sensibilidade nem estilo, que
em alto grau possui; a imaginao  grandemente superior  de Gonzaga, e quanto
 versificao nenhum outro, em nossa lngua, a possui mais harmoniosa e pura.
Se Johnson o pudesse ter lido, emendaria certamente o conceito de seu ingenious
critic. Pois bem, no obstante tais mritos, a popularidade de Baslio da
Gama  muito inferior  Gonzaga; ou antes, Baslio da Gama no  absolutamente
popular. Ningum, desde o que se preza de literato at ao que mais alheio for
s coisas de poesia, ningum deixa de ter lido, ao menos uma vez, o livro do
Inconfidente; muitos de seus versos correm de cor. A reputao de Baslio da
Gama, entretanto,  quase exclusivamente literria. A razo principal deste
fenmeno  decerto mais elevada que da simples forma mtrica, mas o reparo do
crtico ingls tem aqui muita cabida. No ser tambm certo que a popularidade
de Gonalves Dias acha razes mais profundas nas suas belas estncias rimadas
do que nas que o no so, e que  maior o nmero dos que conhece a Cano do
Exlio e o Gigante de Pedra, do que os que lem os quatro cantos dos
Timbiras?

Mas 
tempo de irmos diretamente aos poetas. Vimos que h uma tendncia nova, oriunda
do fastio deixado pelo abuso do subjetivismo e do desenvolvimento das modernas
teorias cientficas; vimos tambm que essa tendncia no est ainda
perfeitamente caracterizada, e que os prprios escritores novos tentam
achar-lhe uma definio e um credo; vimos enfim que esse movimento 
determinado por influncia de literaturas ultramarinas. Vejamos agora sumria e
individualmente os novos poetas, no todos, porque os no pude coligir a todos,
mas certo nmero deles,  os que bastam pelo talento e pela ndole do talento
para dar uma idia dos elementos que compem a atual gerao. Vamos l-los com
afeio, com serenidade, e com esta disciplina de esprito que convm
exemplificar aos rapazes.

II

No
formam os novos poetas um grupo compacto: h deles ainda fiis s tradies
ltimas do romantismo,  mas de uma fidelidade mitigada, j rebelde, como o Sr.
Lcio de Mendona, por exemplo, ou como o Sr. Tefilo Dias, em algumas pginas
dos Cantos Tropicais. O Sr. Afonso Celso Jnior, que balbuciou naquela
lngua as suas primeiras composies, fala agora outro idioma:  j notvel a
diferena entre os Devaneios e as Telas Sonantes: o prprio
ttulo o indica. Outros h que no tiveram essa gradao, ou no coligi
documento que positivamente a manifeste. No faltar tambm, s vezes, algum
raro vestgio de Castro Alves. Tudo isso como eu j disse, indica um movimento
de transio, desigualmente expresso, movimento que vai das estrofes ltimas do
Sr. Tefilo Dias aos sonetos do Sr. Carvalho Jnior.

Detenhamo-nos
em frente do ltimo, que  finado. Poucos versos nos deixou ele, uma vintena de
sonetos, que um piedoso e talentoso amigo, o Sr. Artur Barreiros, coligiu com
outros trabalhos e deu h pouco num volume, como obsquio pstumo. O Sr.
Carvalho Jnior era literalmente o oposto do Sr. Tefilo Dias, era o
representante genuno de uma poesia sensual, a que, por inadvertncia, se
chamou e ainda se chama realismo. Nunca, em nenhum outro poeta nosso, apareceu
essa nota violenta, to exclusivamente carnal. Nem ele prprio o dissimula;
confessa-se desde a primeira estrofe da coleo:

Odeio as
virgens plidas, clorticas,

Belezas
de missal.

e no fim
do soneto:

Prefiro a
exuberncia dos contornos,

As
belezas da forma, seus adornos,

A sade,
a matria, a vida enfim.

A temos
o poeta, a o temos inteiro e franco. No lhe desagradam as virgens plidas; o
desagrado  uma sensao tbia; tem-lhes dio, que  o sentimento dos fortes.
Ao mesmo tempo d-nos ali o seu credo, e f-lo sem rebuo,  sem excluso do
nome idneo, sem excluso da matria, se a matria  necessria. Haver nisso
um sentimento sincero, ou o poeta carrega a mo, para efeitos puramente
literrios? Inclina-se a esta ltima hiptese o Sr. Artur Barreiros.
'Neste descompassado amor  carne (diz ele) certo deve de haver o seu
tanto ou quanto de artificial'. Quem l a composio que tem por ttulo Antropofagia
fica propenso a supor que  assim mesmo. No conheo em nossa lngua uma pgina
daquele tom;  a sensualidade levada efetivamente  antropofagia. Os desejos do
poeta so instintos canibais, que ele mesmo compara a jumentas lbricas:

Como um
bando voraz de lbricas jumentas;

e isso,
que parece muito, no  ainda tudo; a imagem no chegou ainda ao ponto mximo,
que  simplesmente a besta-fera:

Como a
besta feroz a dilatar as ventas

Mede a
presa infeliz por dar-lhe o bote a jeito

De meu
flgido olhar s chispas odientas

Envolvo-te,
e, convulso, ao seio meu t'estreito.

L esto,
naquela mesma pgina, as fomes bestiais, os vermes sensuais, as carnes febris.
Noutra parte os desejos so 'urubus em torno de carnia'. No
conhecia o Sr. Carvalho Jnior as atenuaes da forma, as surdinas do estilo;
aborrecia os tons mdios. Das tintas todas da palheta a que o seduzia era o
escarlate. Entre os vinte sonetos que deixou, raro  o que no comemore um
lance, um quadro, uma recordao de alcova; e eu compreendo a fidelidade do Sr
A. Barreiros, que, tratando de coligir os escritos esparsos do amigo, no quis
excluir nada, nenhum elemento que pudesse servir ao estudo do esprito
literrio de nosso tempo. Vai em trinta anos que lvares de Azevedo nos dava
naquele soneto, Plida  luz da lmpada sombria, uma mistura to
delicada da nudez das formas com a uno do sentimento. Trinta anos bastaram 
evoluo que excluiu o sentimento para s deixar as formas; que digo? para s
deixar as carnes. Formas parece que implicam certa idealidade, que o Sr.
Carvalho Jnior inteiramente bania de seus versos. E contudo era poeta esse
moo, era poeta e de raa. Crus em demasia so os seus quadros; mas no  comum
aquele vigor, no  vulgar aquele colorido. O Sr. A. Barreiros fala dos sonetos
como escritos ao jeito de Baudelaire, modificados ao mesmo tempo pelo
temperamento do poeta. Para compreender o acerto desta observao do Sr.
Barreiros, basta comparar a Profisso de F do Sr. Carvalho Jnior com
uma pgina das Flores do Mal.  positivo que o nosso poeta inspirou-se
do outro. 'Belezas de missal' diz aquele; 'beauts de
vignettes', escreve este; e se Baudelaire no fala de
'virgens clorticas'  porque se exprime de outra maneira: deixa-as a
Gavarni, 'pote de chloroses'. Agora, onde o
temperamento dos dois se manifesta, no  s em que o nosso poeta odeia
aquelas virgens, ao passo que o outro se contenta em dizer que elas lhe no
podem satisfazer o corao. Posto que isso baste a diferen-los, nada nos d
to positivamente a medida do contraste como os tercetos com que eles fecham a
respectiva composio. O Sr. Carvalho Jnior, segundo j vimos, prefere a
exuberncia de contornos, a sade, a matria. Vede Baudelaire:

Ce quiil
faut  ce coeur profond comme un abme,

C'est
vous, Lady Macbeth, me puissante au crime,

Rve
d'Eschyle clos au climat des autans.

Ou bien
toi, grande Nuit, fille de Michel-Ange,

Qui tors
paisiblement dans une pose trange

Tes appas
faonns aux bouches des Titans!

Assim
pois, o Sr. Carvalho Jnior, cedendo a si mesmo e carregando a mo
descautelosa, faz uma profisso de f exclusivamente carnal; no podia seguir o
seu modelo, alcunhado realista, que confessa um rouge idal e que o
encontra em Lady Macbeth, para lhe satisfazer o corao, profond
comme un abme. J ficamos muito longe da alcova. Entretanto, convenho que
Baudelaire fascinasse o Sr. Carvalho Jnior, e lhe inspirasse algumas das
composies; convenho que este buscasse segui-lo na viveza da pintura, na sonoridade
do vocbulo; mas a individualidade prpria do Sr. Carvalho Jnior l
transparece no livro, e com o tempo, acabaria por dominar de todo. Era poeta,
de uma poesia sempre violenta, s vezes repulsiva, priapesca, sem interesse;
mas em suma era poeta; no so de amador estes versos de Nemesis:

H nesse
olhar translcido e magntico

A mgica
atrao de um precipcio,

Bem como
no teu rir nervoso, cptico,

As
argentinas vibraes do vcio.



No andar,
no gesto mrbido, splentico,

Tens no
sei que de nobre e de patrcio,

E um som
de voz metlico, frentico,

Como o
tinir dos ferros de um suplcio.

Quereis
ver o oposto do Sr. Carvalho Jnior? Lede o Sr. Tefilo Dias. Os Cantos
Tropicais deste poeta datam dum ano; so o seu ltimo livro. A Lira dos
verdes anos que foi a estria, revelou desde logo as qualidades do Sr.
Tefilo Dias, mas no podia revel-lo todo, porque s mais tarde  que o
esprito do poeta comeou a manifestar vagamente uma tendncia nova. O autor
dos Cantos Tropicais  sobrinho de Gonalves Dias, circunstncia que no
tem s interesse biogrfico, mas tambm literrio; a poesia dele, a doura, o
torneio do verso lembram muita vez a maneira do cantor dOs Timbiras,
sem alis nada perder de sua originalidade;  como se dissssemos um ar de
famlia. Quem percorre os versos de ambos reconhece, entretanto, o que
positivamente os separa; a Gonalves Dias sobrava certo vigor, e, por vezes,
tal ou qual tumulto de sentimentos, que no so o caracterstico dos versos do
sobrinho. O tom principal do Sr. Tefilo Dias  a ternura melanclica. No 
que lhe falte, quando necessria, a nota viril; basta ler o Batismo do Fogo,
Cntico dos Bardos e mais duas ou trs composies; sente-se, porm, que
a o poeta  intencionalmente assim, que o pode ser tanto, que o poderia ser
ainda mais, se quisesse, mas que a corda principal da sua lira no  essa. Por
outro lado, h no Sr. Tefilo Dias certas audcias de estilo, que no se acham
no autor do I-Juca-Pirama, e so por assim dizer a marca do tempo.
Citarei, por exemplo, este princpio de um soneto, que  das melhores
composies dos Cantos Tropicais:

Na luz
que o teu olhar azul transpira,

H sons
espirituais;

estes
'sons espirituais',  aquele 'olhar azul',  aquele
'olhar que transpira', so atrevimentos poticos ainda mais desta
gerao que da outra; e se algum dos meus leitores,  dos velhos leitores, 
circunflexar as sobrancelhas, como fizeram os guardas do antigo Parnaso ao
surgir a lua do travesso Musset, no lhes citarei decerto este verso de um
recente compatriota de Racine:



Quelque
chose comme une odeur qui serait blonde,

porque
ele poder averb-lo de suspeio; vou  boa e velha prata de casa, vou ao
Porto-Alegre:

E derrama
no ar canoro lume.

Se a Lira
dos verdes anos no o revelou todo, deu contudo algumas de suas qualidades,
e  um documento valioso do talento do Sr. Tefilo Dias. Vrias composies
desse livro,  Cismas  beira-mar, por exemplo, podiam estar na segunda
coleo do poeta. Talvez o estilo dessa composio seja um pouco convencional;
nota-se-lhe, porm, sentimento potico, e, a espaos, muita felicidade de
expresso. Os Cantos Tropicais pagaram a promessa da Lira dos verdes
anos, o progresso  evidente; e, como disse, o esprito do autor parece
manifestar uma tendncia nova. Contudo, no  tal o contraste, que justifique a
declarao feita pelo poeta no primeiro livro, a saber, que quando comps
aqueles versos pensava diferentemente do que na data da publicao. Acredito
que sim; mas  o que se no deduz do livro. O poeta apura as suas boas
qualidades, forceja por variar o tom, lana os olhos em redor e ao longe; mas a
corda que domina  a das suas estrias.

Poetas h
cuja tristeza  como um goivo colhido de inteno, e posto  guisa de
ornamento. A estrofe do Sr. Tefilo Dias, quando triste, sente-se que
corresponde ao sentimento do homem, e que no vem ali simplesmente para
enfeit-lo. O Sr. Tefilo Dias no  um desesperado, mas no estou longe de
crer que seja um desencantado; e quando no achssemos documento em seus
prprios versos, ach-lo-amos nos de alheia e peregrina composio,
transferida por ele ao nosso idioma. Abro mo da Harpa de Moore; mas os Mortos
de corao, do mesmo poeta, no parece que o Sr. Tefilo Dias os foi buscar
porque lhe falavam mais diretamente a ele? Melhor do que isso, porm, vejo eu
na escolha de uma pgina das Flores do Mal. O albatroz, essa
guia dos mares, que, apanhada no convs do navio perde o uso das asas e fica
sujeita ao escrnio da maruja, esse albatroz que Baudelaire compara ao
poeta, exposto  mofa da turba tolhido pelas prprias asas, estou que seduziu o
Sr. Tefilo Dias, menos por esprito de classe do que por um sentimento
pessoal; esse albatroz  ele prprio. No vejo o poeta, no que a fica,
um elogio; no  elogio nem censura;  simples observao da crtica. Quereis a
prova do reparo? Lede os versos que tm por ttulo Antema, curiosa
histria de um amor de poeta, amor casto e puro, cuja iluso se desfaz logo que
o objeto amado lhe fala cruamente a linguagem dos sentidos. Essa composio,
que termina por uma longnqua reminiscncia do Padre Vieira 
'Perdo-vos... e vingo-me!', essa composio  o corolrio do Albatroz
e explica o tom geral do livro. O poeta indigna-se, no tanto em nome da moral,
como no de seus prprios sentimentos;  o egosmo da iluso que solua, brada,
e por fim condena, e por fim sobrevive nestes quatro versos:

...Ao p
de vs, quando em delcias

s minhas
iluses sem d quebrveis,

Revestia-se
um anjo com os andrajos,

Dos
sonhos que rompeis.

No 
preciso mais para conhecer o poeta, com a melindrosa sensibilidade, com a
singeleza da puercia, com a iluso que forceja por arrancar o vo do cho;
essa  a nota principal do livro,  a do Getsemani e a do Pressentimento.
Pouco difere a da Poeira e lama, na qual parece haver um laivo de
pessimismo; e se, como na Andalusa, o poeta sonha com
'bacanais' e 'pulsaes lascivas', crede que no  sonho,
mas pesadelo e pesadelo curto; ele  outra coisa. J acima o disse: h nos Cantos
Tropicais algumas pginas em que o poeta parece querer despir as vestes
primeiras; poucas so, e nessas a nota  mais enrgica, intencionalmente
enrgica; o verso sai-lhe cheio e viril, como na Poesia Moderna, e o
pensamento tem a elevao do assunto. A nos aparece a justia de que falei na
primeira parte deste estudo; a vemos a musa moderna, irm da liberdade,
tomando nas mos a lana da justia e o escudo da razo. Certo, h alguma coisa
singular neste evocar a musa da razo pela boca de um poeta de sentimento; no
menos parecem destoar do autor do Solilquio as preocupaes polticas
da Poesia Moderna.

No  que
eu exclua os poetas de minha repblica; sou mais tolerante que Plato; mas
alguma coisa me diz que esses toques polticos do Sr. Tefilo Dias so de puro
emprstimo; talvez um reflexo do crculo de seus amigos. No obstante, h em
tais versos um esforo para fugir  exclusiva sentimentalidade dos primeiros
tempos, esforo que no ser baldado, porque entre as confidncias pessoais e
as aspiraes de renovao poltica, alarga-se um campo infinito em que se pode
exercer a inveno do poeta. Ele tem a inspirao, o calor, e o gosto; seu
estilo  decerto assaz flexvel para se acomodar a diferentes assuntos, para os
tratar com o apuro a que nos acostumou. A realidade h de fecundar-lhe o
engenho; seu verso to meldico e puro, saber cantar outros aspectos da vida.
'Tenho vinte anos e desprezo a vida', diz o Sr. Tefilo Dias em uma
das melhores pginas dos seus Cantos Tropicais. Ao que lhe respondo com
esta palavra de um moralista: Aimez la vie, la vie vous aimera.

Se o
poeta quer um exemplo, tem-no completo no Sr. Afonso Celso Jnior. O autor dos Devaneios
-o tambm das Telas Sonantes. No sei precisamente a sua idade; creio,
porm, que no conta ainda vinte anos. Pois bem, em 1876 a sua potica, estilo e linguagem eram ainda as de um lirismo extremamente pessoal, com a
estrutura e os ademanes prprios do gnero. Numa coleo de sonetos, em que o
verso alis corre fluente e no sem elegncia, ligados todos por um nico
ttulo, Me, falava o poeta de sua alma, 'mais triste do que
J', nas tribulaes da vida e no acerbo das lutas. Quantos h a,
romnticos provectos, que no empregaram tambm este mesmo estilo, nos seus
anos juvenis? Naquele mesmo livro dos Devaneios, antes balbuciado do que
escrito, ainda incorreto em partes, ali mesmo avulta alguma coisa menos
pessoal, sente-se que o poeta quer fugir a si mesmo; mas so apenas tentativas,
como tentativa  a obra. Nas Telas Sonantes temos a primeira afirmao
definitiva do poeta.

Um trao
h que distingue o Sr. Afonso Celso Jnior de muitos colegas da nova gerao; a
sua poesia no impreca, no exorta, no invectiva.  um livro de quadros o seu,
singelos ou tocantes, graciosos ou dramticos, mas verdadeiramente quadros,
certa impessoalidade caracterstica. Todos se lembram ainda agora do efeito
produzido, h oito anos, pelas Miniaturas do Sr. Crespo, um talentoso
patrcio nosso, cujo livro nos veio de Coimbra, quando menos espervamos. Nos
quadros do Sr. Crespo, que alis no eram a maior parte do livro, tambm
achamos aquela eliminao do poeta, com a diferena que eram obras de puro
artista, ao passo que nos do Sr. Afonso Celso Jnior entra sempre alguma coisa,
que no  a presena, mas a inteno do poeta. Entender-se- isto mais
claramente, comparando o A bordo do Sr. Crespo com o Esboo do
Sr. Afonso Celso Jnior. Ali  uma descrio graciosa, e creio que perfeita, de
um aspecto de bordo, durante uma calmaria; vemos os marinheiros
'recostados em rolos de cordame', o papagaio, uma inglesa, um
cozinho da inglesa, o fazendeiro que passeia, os trs velhos que jogam o
voltarete, e outros traos assim caractersticos; depois refresca o vento e l
vai a galera. O Esboo do Sr. Afonso Celso Jnior  uma volta de teatro;
tinha-se representado um drama pattico; uma jovem senhora, violentamente
comovida, trmula, nervosa, sai dali, entra no carro e torna  casa; acha 
porta o criado, ansioso e trmulo, porque lhe adoecera um filho com febre, e
para cumprir a sua obrigao servil, ali ficara toda a noite a esper-la. A
dama, diz o poeta,

A dama,
que do palco ao drama imaginrio,

Havia arfado tanto,

Soube reter o pranto

Perante o
drama vivo, honrado e solitrio.

Soltou um
ah! de gelo, e como a olhasse o velho,

Pedindo-lhe
talvez no transe algum conselho,

Disse com abandono,

De indiferena cheia,

Que podia
ir velar do filho o extremo sono;

Mas que
fosse primeiro  mesa pr a ceia.

Esse
contraste de efeitos entre a realidade e a fico potica explica a idia do
Sr. Afonso Celso Jnior. Notei a diferena entre ele e o Sr. Crespo; notarei
agora que o poeta das Miniaturas de algum modo influiu no dos Devaneios.
Digo expressamente no dos Devaneios, porque neste livro, e no no outro,
 que o olhar exercitado do leitor poder descobrir algum vestgio,  um quadro
como o do soneto Na fazenda,  ou a eleio de certas formas e
disposies mtricas; mas para conhecer que a influncia de um no diminuiu a
originalidade de outro, basta ler duas composies de ttulo quase idntico, 
duas histrias,  a de uma mulher que ria sempre, e a de outra que no ria
nunca. Aquela gerou talvez esta, mas a filiao, se a h, no passa de um
contraste no ttulo; no resto os dois poetas separam-se inteiramente. No
obstante, os Devaneios no tm o mesmo valor das Telas Sonantes;
eram uma promessa, no precisamente um livro.

Neste 
que est a feio dominante do Sr. Afonso Celso Jnior; a comoo e a graa.
Vimos o Esboo; a Flauta no  menos significativa.
Verdadeiramente no cabe a esta composio o nome de quadro, mas de poema, 
poema  moderna; h ali mais do que um momento e uma perspectiva; h uma
histria, uma ao. Um operrio vivo possua uma flauta, que lhe servia a esquecer
os males da vida e adormecer a filha que lhe ficara do matrimnio. Escasseia,
entretanto, o trabalho; entra em casa a penria e a fome; o operrio vai
empenhando, s ocultas, tudo o que possui, e o dinheiro que pode apurar
entrega-o  filha, como se fosse salrio; a flauta era a confidente nica de
suas privaes. Mas o mal cresce; tudo est empenhado; at que um dia, sem
nenhum outro recurso, sai o operrio e volta com um jantar. A filha, que a fome
abatera, recebe-o alegre e satisfaz a natureza; depois pede ao pai que lhe
toque a flauta, segundo costumava; o pai confessa-lhe soluando que a vendera
para lhe conservar a vida. Tal  esse poema singelo e dramtico, em que h boa
e verdadeira poesia. Nenhum outro  mais feliz do que esse. Assim como o Esboo
tem por assunto um amor de pai, a Cena Vulgar consagra a dor materna; e
seria to acabado como o outro, se fora mais curto. A idia  demasiado tnue,
e demasiado breve a ao, para as trs pginas que o poeta lhe deu; outrossim,
o desfecho, aquele tocador de realejo, que exige a paga, enquanto a me
convulsa abraa o filho defunto, esse desfecho teria mais fora, se fora mais
sbrio, mais simples, se no tivera nenhum qualificativo, nem a 'rudez
grosseira', nem 'os insolentes brados'; o simples contraste
daquele homem e daquela me era suficientemente cru.

Fiz um
reparo; por que no farei ainda outro? A Jia, alis to sbria, to
concisa, parece-me um pouco artificial. Ao filhinho, que diante de um mostrador
de joalheiro, lhe pede um camafeu, responde a me com um beijo, e acrescenta
que esta jia  melhor do que a outra; o filho entende-a, e diz-lhe que, se
est assim to rica de jias, lhe d um colar.  gracioso! mas no  a criana
que fala,  o poeta. No  provvel que a criana entendesse a figura; dado que
a entendesse,  improvvel que a aceitasse. A criana insistiria na primeira
jia; cet ge est sans piti. Entretanto, h ali mais de uma expresso
feliz, como, por exemplo, a me e o filho que 'lambem com o olhar' as
pedrarias do mostrador. O dilogo tem toda a singeleza da realidade. Podia
citar ainda outras pginas assim graciosas, tais como No ntimo, que se
compe apenas de dez versos: uma senhora, que depois de servir o jantar aos
filhos, serve tambm a um co; simples episdio caseiro, narrado com muita
propriedade. Podia citar ainda a Filha da Paz, poema de outras dimenses
e outro sentido, bem imaginado e bem exposto; podia citar alguns mais; seria,
porm, derramar a crtica.



Vejo que
o Sr. Afonso Celso Jnior procura a inspirao na realidade exterior, e acha-a
fecunda e nova. Tem o senso potico, tem os elementos do gosto e do estilo. A
lngua  vigorosa, conquanto no perfeita; o verso  fluente, se nem sempre
castigado. Alguma vez a fantasia parece ornar a realidade mais do que convm 
fico potica, como na pintura dos sentimentos do soldado, na Filha da Paz;
mas ali mesmo achamos a realidade transcrita com muita perspiccia e correo,
como na pintura da casa, com o seu tamborete manco, a mesa carunchosa, o
registro e o espelho pregados na parede. Os defeitos do poeta provm, creio eu,
de alguma impacincia juvenil. Quem pode o mais pode o menos. Um poeta
verdadeiro, como o Sr. Afonso Celso Jnior, tem obrigao de o ser acabado;
depende de si mesmo.

Sinto que
no possa dizer muito do Sr. Fontoura Xavier, um dos mais vvidos talentos da
gerao nova. Salvo um opsculo, este poeta no tem nenhuma coleo publicada;
os versos andam-lhe espalhados por jornais, e os que pude coligir no so
muitos; achei-os numa folha acadmica de So Paulo, redigida em 1877, por uma
pliade de rapazes de talento, folha republicana, como  o Sr. Fontoura Xavier.

Republicano
 talvez pouco. O Sr. Fontoura Xavier h de tomar  boa parte uma confisso que
lhe fao; creio que seus versos avermelham-se de um tal ou qual jacobinismo;
no  impossvel que a Conveno lhe desse lugar entre Hebert e Billaut. O
citado opsculo, que se denomina o Rgio Saltimbanco, confirma o que
digo; acrobata, truo, frascrio, Benoiton eqestre, deus de trampolim, tais
so os eptetos usados nessa composio. No so mais moderados os versos
avulsos. Se fossem somente verduras da idade, podamos aguardar que o tempo as
amadurecesse; se houvesse a apenas uma interpretao errnea dos males
pblicos e do nosso estado social, era lcito esperar que a experincia
retificasse os conceitos da precipitao. Mas h mais do que tudo isso; para o
Sr. Fontoura Xavier h uma questo literria: trata-se de sua prpria qualidade
de poeta.

No creio
que o Sr. Fontoura Xavier, por mais aferro que tenha s idias polticas que
professa, no creio que as anteponha asceticamente s suas ambies literrias.
Ele pede a eliminao de todas as coroas, rgias ou sacerdotais, mas 
implcito que excetua a de poeta, e est disposto a cingi-la. Ora,  justamente
desta que se trata. O Sr. Fontoura Xavier, moo de vivo talento, que dispe de
um verso cheio, vigoroso, e espontneo, est arriscando as suas qualidades
nativas, com um estilo, que  j a puda ornamentao de certa ordem de
discursos do Velho Mundo. Sem abrir mo das opinies polticas, era mais
propcio ao seu futuro potico, exprimi-las em estilo diferente,  to
enrgico, se lhe parecesse, mas diferente. O distinto escritor que lhe
prefaciou o opsculo cita Juvenal, para justificar o tom da stira, e o prprio
poeta nos fala de Roma; mas, francamente,  abusar dos termos. Onde est Roma,
isto , o declnio de um mundo, nesta escassa nao de ontem, sem fisionomia
acabada, sem nenhuma influncia no sculo, apenas com um prlogo de histria?
Para que reproduzir essas velharias enfticas? Inversamente, cai o Sr. Fontoura
Xavier no defeito daquela escola que, em estrofes inflamadas, nos proclamava
to grandes como os Andes,  a mais ftua e funesta das rimas. Ni
cet excs d'honneur, ni cette indignit.

No digo
ao Sr. Fontoura Xavier que rejeite as suas opinies polticas, por menos
arraigadas que lhas julgue, respeito-as. Digo-lhe que no deixe abafar as
qualidades poticas, que exera a imaginao, alteie e aprimore o estilo, e no
empregue o seu belo verso em dar vida nova a metforas caducas; fique isso aos
que no tiverem outro meio de convocar a ateno dos leitores.

No est
nesse caso o Sr. Fontoura Xavier. Entre os modernos  ele um dos que
melhormente trabalham o alexandrino; creio que s vezes sacrifica a
perspicuidade  harmonia, mas no  nico nesse defeito, e alis no  defeito
comum nos seus versos, nos poucos versos que me foi dado ler.

Isso que
a fica acerca do Sr. Fontoura Xavier, bem o posso aplicar, em parte, ao Sr. Valentim
Magalhes, poeta ainda assim menos exclusivo que o outro. Os Cantos e Lutas,
impressos h dois ou trs meses, creio serem o seu primeiro livro. No comeo
deste estudo citei o nome do Sr. Valentim Magalhes; sabemos j que na opinio
dele, a idia nova  o cu deserto, a oficina e a escola cantando alegres, o
mal sepultado, Deus na conscincia, o bem no corao, e prximas a liberdade e
a justia. No  s na primeira pgina que o poeta nos diz isto; repete-o no Prenncio
da aurora, No futuro, Mais um soldado;  sempre a mesma
idia, diferentemente redigida, com igual vocabulrio. Pode-se imaginar o tom e
as promessas de todas essas composies. Numa delas o poeta afiana alvio s
almas que padecem, po aos operrios, liberdade aos escravos, porque o reinado
da justia est prximo.

Noutra
parte, anunciando que pegou da espada e vem juntar-se aos combatentes, diz que
as legies do passado esto sendo dizimadas, e que o dogma, o privilgio, o
despotismo, a dor vacilam  voz da justia. Vemos que, no  s o po que o
operrio h de ter, a liberdade que h de ter o escravo;  a prpria dor que
tem de ceder  justia. Ao mesmo tempo, quando o poeta nos diz que fala do
futuro e no do passado, ouvimo-lo definir o heri medieval, contraposto e
sobreposto ao heri moderno, que  um rapaz plido, 'com horror  arma
branca'. Nessa contradio, que o poeta busca dissimular e explicar, h um
vestgio da incerteza que, a espaos, encontramos na gerao nova,  alguma
coisa que parece remota da conscincia e nitidez de um sentimento exclusivo. 
a feio desta quadra transitria.

No 
vulgar a comoo nos versos do Sr. Valentim Magalhes; creio at que seria
impossvel ach-la fora da pgina dedicada 'a um morto obscuro'.
Nessa pgina h na verdade uma nota do corao; a morte de um companheiro
ensinou-lhe a linguagem ingenuamente cordial, sem artifcio nem inteno
vistosa. H pequenos quadros, como o Contraste, em que o poeta nos
descreve um mendigo, ao domingo, no meio de uma populao que descansa e ri;
como o soneto em que nos d uma pobre velha esperando at de madrugada a volta
do filho crapuloso; como o Miservel, e outros; h desses quadros, digo,
que me parecem preferveis  Velha Histria, no obstante ser o assunto
desta perfeitamente verossmil e verdadeiro; o que a me agrada menos  a
execuo. O Sr. Valentim Magalhes deve atentar um pouco mais para a maneira de
representar os objetos e de exprimir as sensaes; h uma certa unidade e
equilbrio de estilo, que por vezes lhe falta. No Deus Mendigo, por
exemplo, o velho que pede esmola  porta da S,  excelente; os olhos
melanclicos do mendigo, dos quais diz o poeta:

H neles
o rancor silencioso,

A raivosa
humildade da desgraa

Que
blasfema e que esmola;

esses
olhos esto reproduzidos com muita felicidade; entretanto, pela composio
adiante achamos uns sobressaltos de estilo e de idias, que destoam e diminuem
o mrito da composio. Por que no h de o poeta empregar sempre a mesma arte
de que nos d exemplo na descrio dos ferreiros trabalhando, com o 'luar
sangneo dos carves a esbater-se-lhes no rosto bronzeado'?

Para
conhecer bem a origem das idias deste livro, melhor direi a atmosfera
intelectual do autor, basta ler os Dois edifcios.  quase meio-dia;
encostado ao gradil de uma cadeia est um velho assassino, a olhar para fora;
h uma escola defronte. Ao bater a sineta da escola saem as crianas alegres e
saltando confusamente; o velho assassino contempla-as e murmura com voz
amargurada: 'Eu nunca soube ler!' Quer o Sr. Valentim Magalhes que
lhe diga? Essa idia, a que emprestou alguns belos versos, no tem por si nem a
verdade nem a verossimilhana;  um lugar-comum, que j a escola hugosta nos
metrificava h muitos anos. Hoje est bastante desacreditada. No a aceita Littr,
como panacia infalvel e universal; Spencer reconhece na instruo um papel
concomitante na moralidade, e nada mais. Se no  rigorosamente verdadeira, 
de todo o ponto inverossmil a idia do poeta; a expresso final, a moralidade
do conto, no  do assassino, mas uma reflexo que o poeta lhe empresta. Quanto
 forma, nenhuma outra pgina deste livro manifesta melhor a influncia direta
de V. Hugo; l est a anttese constante,  'a luz em frente 
sombra';  'a fome em frente  esmola'; 'o deus da liberdade
em frente ao deus do mal'; e esta outra figura para exprimir de vez o
contraste da escola e da cadeia,

Vtor
Hugo fitando Incio de Loiola.

Tem o Sr.
Valentim Magalhes o verso fcil e flexvel; o estilo mostra por vezes certo
vigor, mas carece ainda de uma correo, que o poeta acabar por lhe dar. Creio
que cede, em excesso, a admiraes exclusivas. No  propriamente um livro este
dos Cantos e Lutas. As idias dele so geralmente de emprstimo; e o
poeta no as reala por um modo de ver prprio e novo. Crtica severa, mas
necessria, porque o Sr. Valentim Magalhes  dos que tm direito e obrigao
de a exigir.

No ilude
a ningum o Sr. Alberto de Oliveira. Ao seu livro de versos ps francamente um
ttulo condenado entre muitos de seus colegas; chamou-lhe Canes romnticas.
Na verdade,  audacioso. Agora, o que se no compreende bem  que, no obstante
o ttulo, o poeta nos d a Toilette lrica,  p. 43, uns versos em que
fala do lirismo condenado e dos trovadores. Dir-se- que h a alguma ironia
oculta? No; eu creio que o Sr. Alberto de Oliveira chega a um perodo
transitivo, como outros colegas seus; tem o lirismo pessoal, e busca uma alma
nova. Ele mesmo nos diz,  p. 93, num soneto ao Sr. Fontoura Xavier, que no l
somente a histria dos amantes, os ternos madrigais; no vive s de olhar para
o cu:

Tambm
sei me enlevar; se, em sacrossanta ira,

O Bem
calca com os ps os Vcios arrogantes,

Eu, como
tu, folheio a lenda dos gigantes,

E sei
lhes dar tambm uma cano na lira.

 preciosa
a confisso; e todavia apenas temos a confisso; o livro no traz nenhuma prova
da veracidade do poeta. A razo  que o livro estava feito; e no  s essa; h
outra e principal. O Sr. Alberto de Oliveira pode folhear a lenda dos gigantes;
mas no lhes d um canto, uma estrofe, um verso;  o conselho da crtica. Nem
todos cantam tudo; e o erro talvez da gerao nova ser querer modelar-se por
um s padro. O verso do Sr. Alberto de Oliveira tem a estatura mdia, o tom
brando, o colorido azul, enfim um ar gracioso e no pico. Os gigantes querem o
tom msculo. O autor da Luz Nova e do Primeiro Beijo tem muito
onde ir buscar a matria a seus versos.

Que lhe
importa o guerreiro que l vai  Palestina? Deixe-se ficar no castelo, com a
filha dele, no digo para dedilharem ambos um bandolim desafinado, mas para
lerem juntos alguma pgina da histria domstica. No  diminuir-se o poeta; 
ser o que lhe pede a natureza, Homero os Mosckos.

Por
exemplo, o Interior  uma das mais bonitas composies do livro. Pouco
mais de uma hora da madrugada, acorda um menino e assustado, com o escuro,
chora pela me; a me conchega-o ao peito e d-lhe de mamar. Isto s, nada mais
do que isto; mas contando com singeleza e comoo. Pois bem, eis a alguma
coisa que no  a agitao pessoal do autor, nem a soluo de rduos problemas,
nem a histria de grandes aes;  um campo intermdio e vasto. Que ele  poeta
o Sr. Alberto de Oliveira; dolo, Vaporosa, Na alameda, Torturas do ideal, so
composies de poeta. A fluncia e melodia de seu verso so dignas de nota;
farei todavia alguma restrio quanto ao estilo. Creio que o estilo precisa
obter da parte do autor um pouco mais de cuidado; no lhe falta movimento,
falta-lhe certa preciso indispensvel, h nele um qu de flutuante, de
indeciso e s vezes de obscuro. Para que o reparo seja completo devo dizer que
esse defeito resulta, talvez, de que a prpria concepo do poeta tem os seus
tons indecisos e flutuantes; as idias no se lhe formulam s vezes de um modo
positivo e lgico; so como os sonhos, que se interrompem e se reatam, com as
formas incoercveis dos sonhos.

Se o Sr.
Alberto de Oliveira no canta os gigantes, recebe todavia alguma influncia
externa, e de longe em longe busca fugir a si mesmo. J o disse: urge agora
explicar que, por enquanto, esse esforo transparece somente, e ao leve, na
forma. No  outra coisa o final do Interior, aqueles ces magros que
'uivam tristemente trotando o lamaal'. Entre esse incidente e a ao
interior no h nenhuma relao de perspectiva; o incidente vem ali por uma
preocupao de realismo; tanto valera contar igualmente que a chuva desgrudava
um cartaz ou que o vento balouava uma corda de andaime. O realismo no conhece
relaes necessrias, nem acessrias, sua esttica  o inventrio. Dir-se-,
entretanto, que o Sr. Alberto de Oliveira tende ao realismo? De nenhuma
maneira; dobra-se-lhe o esprito momentaneamente, a uma ou outra brisa, mas
retoma logo a atitude anterior. Assim, no basta ler estes versos:

Ver o
azul,  esse infinito,

Sobre
essa migalha,  a terra;

feitos
pelo processo destes do Sr. Guerra Junqueiro:

Digenes,
 essa lesma,

Na pipa,
 esse caracol,

que 
alis o mesmo de V. Hugo; no basta ler tais versos, digo, para crer que o
estilo do Sr. Alberto de Oliveira se modifique ao ponto de adquirir
exclusivamente as qualidades que distinguem o daquele poeta. So vestgios de
leitura esquecida; a natureza potica do Sr. Alberto de Oliveira parece-me
justamente rebelde  simetria do estilo do Sr. Guerra Junqueiro. Nem  propcia
 simetria, nem dada a medir a estatura dos gigantes;  um poeta domstico,
delicado, fino; apure as suas qualidades, adquira-as novas, se puder, mas no
opostas  ndole de seu talento; numa palavra, afirme-se.

Dizem-me
que  irmo deste poeta o Sr. Mariano de Oliveira, autor de um livrinho de cem
pginas, Versos, dados ao prelo em 1876. So irmos apenas pelo sangue;
na poesia so estranhos um ao outro. Pouco direi do Sr. Mariano de Oliveira; 
escasso o livro, e no pude coligir outras composies posteriores, que me
afirmam andar em jornais.  um livro incorreto aquele; o Sr. Mariano de
Oliveira no possui ainda o verso alexandrino, ou no o possua quando deu ao
prelo aquelas pginas; fato tanto mais lastimoso, quanto que o verso lhe sai
com muita espontaneidade e vida, e bastaria corrigi-los,  e bem assim o
estilo,  para os fazer completos.

Quereis
uma prova de que h certa fora potica no Sr. Mariano de Oliveira? Lede, por
exemplo, Na tenda do operrio. O poeta ia passando e viu aberta uma
porta, uma casa de operrio; era de noite,

A noite,
a sombra funda, o ermo grande e mudo;

Tudo
dentro era negro e negro em torno tudo;

pareceu-lhe
que l dentro da casa houvera algum atentado, ento sentou-se  porta,  espera
que voltasse o dono. O dono volta;  um operrio, o poeta adverte-o do descuido
que cometera: ao que o operrio responde que ningum lhe iria roubar o que no
tem. O poeta despede-se, segue, pra a distncia, e parece-lhe ento que
efetivamente se detivera sem necessidade, porque ali velava uma sentinela
firme:

O anjo da
misria a vigiar a porta.

Nessa
pgina que no  nica,  e eu poderia citar outras como a Nau e o homem
e Me,  nessa pgina sente-se que palpita um poeta, mas as incorrees
vm sobremodo afe-la. J me no refiro s de forma mtrica; o poeta 
geralmente descurado. Poderia citar passagens obscuras, locues ambguas,
outras empregadas em sentido esprio, e at rimas que o no so; mas teria de
fazer uma crtica mida, totalmente sem interesse para o leitor, e s
relativamente interessante para o poeta. Prefiro dar a este um conselho;
lembre-se da deliciosa anedota que nos conta,  pgina 91, com o ttulo Cano.
Na mesma praa em que morava o poeta, morava uma certa Laura, que todos os dias
o esperava  janela; ele, porm, no ousava nunca cumpriment-la, por mais que
lho pedisse o corao; assim decorreram meses. Um dia Laura mudou-se; e foi s
ento, ao v-la partir, que o poeta chegou a saud-la. Era tarde. Pois a poesia
 a Laura daquela pgina; quando vem de si mesma esperar  janela, h de haver
grande inadvertncia em lhe dar apenas um olhar furtivo, em ir depressa, como
quem foge. Ela quer ser, no somente saudada, mas tambm conversada,
interrogada e adivinhada; -lhe precisa a confabulao diurna e noturna. No v
o poeta atentar na vizinha quando ela estiver a partir; muito difcil  que
atine depois com o nmero da casa nova. Por outro lado, no converta os mimos
em enfados, porque h tambm outra maneira de se fazer desadorar da poesia: 
mat-la com o contrrio excesso,  observao to intuitiva que j um nosso
clssico dizia que o muito mimo tolhe o desenvolvimento da planta. Nem descuido
nem artifcio: arte.

No direi
a mesma coisa ao Sr. Slvio Romero, e por especial motivo. O autor dos Cantos
do fim do sculo  um dos mais estudiosos representantes da gerao nova; 
laborioso e hbil. Os leitores desta Revista acompanham certamente com
interesse as apreciaes crticas espalhadas no estudo que, acerca da poesia
popular no Brasil, est publicando o Sr. Slvio Romero. Os artigos de crtica
parlamentar, dados h meses no Reprter, e atribudos a este escritor,
no eram todos justos, nem todos nem sempre variavam no mrito, mas continham
algumas observaes engenhosas e exatas. Faltava-lhes estilo, que  uma grande
lacuna nos escritos do Sr. Slvio Romero; no me refiro s flores de
ornamentao,  ginstica de palavras; refiro-me ao estilo, condio
indispensvel do escritor, indispensvel  prpria cincia  o estilo que
ilumina as pginas de Renan e de Spencer, e que Wallace admira como uma das
qualidades de Darwin. No obstante essa lacuna, que o Sr. Romero preencher com
o tempo, no obstante outros pontos acessveis  crtica, os trabalhos citados
so documentos louvveis de estudo e aplicao.

Os Cantos
do fim do sculo podem ser tambm documento de aplicao, mas no do a
conhecer um poeta; e para tudo dizer numa s palavra, o Sr. Romero no possui a
forma potica. Creio que o leitor no ser to inadvertido que suponha
referir-me a uma certa terminologia convencional; tambm no aludo
especialmente  metrificao. Falo de uma forma potica, em seu genuno sentido.
Um homem pode ter as mais elevadas idias, as comoes mais fortes, e
real-las todas por uma imaginao viva; dar com isso uma excelente pgina de
prosa, se souber escrev-la; um trecho de grande ou maviosa poesia, se for
poeta. O que  indispensvel  que possua a forma em que se exprimir. Que o Sr.
Romero tenha algumas idias de poeta no lho negar a crtica; mas logo que a
expresso no traduz as idias, tanto importa no as ter absolutamente. Estou
que muitas decepes literrias originam-se nesse contraste da concepo e da
forma; o esprito que formulou a idia, a seu modo, supe hav-la transmitido
nitidamente ao papel, e da um equvoco. No livro do Sr. Romero achamos essa
luta entre pensamento que busca romper do crebro, e a forma que no lhe acode
ou s lhe acode reversa e obscura: o que d a impresso de um estrangeiro que
apenas balbucia a lngua nacional.

Pertenceu
o Sr. Romero ao movimento hugosta, iniciado no Norte e propagado ao Sul, h de
haver alguns anos; movimento a que este escritor atribui uma importncia
infinitamente superior  realidade. Entretanto, no se lhe distinguem os versos
pelos caractersticos da escola, se escola lhe pudssemos chamar; pertenceu a
ela antes pela pessoa do que pelo estilo. Talvez o Sr. Romero, coligindo agora
os versos, entendeu cercear-lhes os tropos e as demasias,  vestgios do tempo.
Na verdade, uma de suas composies, a Revoluo,  includa em 1878,
nos Cantos do fim do sculo, no traz algumas imagens singularmente
arrojadas, que alis continha, quando eu a li, em 1871, no Dirio de
Pernambuco de domingo 23 de julho desse mesmo ano. Outras ficaram, outras
se ho de encontrar no decorrer do livro, mas no so to graves que o definam
e classifiquem entre os discpulos de Castro Alves e do Sr. Tobias Barreto;
coisa que eu melhor poderia demonstrar, se tivesse  mo todos os documentos
necessrios ao estudo daquele movimento potico, em que alis houve bons versos
e agitadores entusiastas.

Qualquer
que seja, entretanto, minha opinio acerca dos versos do Sr. Romero, lisamente
confesso que no esto no caso de merecer as crticas acerbssimas, menos ainda
as pginas insultuosas que o autor nos conta, em uma nota, haverem sido
escritas contra alguns deles. 'Injuriavam ao poeta (diz o Sr.
Romero) por causa de algumas duras verdades do crtico'. Pode ser
que assim fosse; mas, por isso mesmo, o autor nem deveria inserir aquela nota.
Realmente, criticados que se desforam de crticas literrias com improprios
do logo idia de uma imensa mediocridade,  ou de uma fatuidade sem freio, 
ou de ambas as coisas; e para lances tais  que o talento, quando verdadeiro e
modesto, deve reservar o silncio do desdm: Non ragionar de lor, ma guarda,
e passa.

No 
comum suportar a anlise literria; e rarssimo suport-la com gentileza. Da
vem a satisfao da crtica quando encontra essa qualidade em talentos que
apenas estriam. A crtica sai ento da turbamulta das vaidades irritadias,
das vocaes do anfiteatro, e entra na regio em que o puro amor da arte 
anteposto s ovaes da galeria. Dois nomes me esto agora no esprito,  o Sr.
Lcio de Mendona e o Sr. Francisco de Castro,  poetas, que me deram o gosto
de os apresentar ao pblico, por meio de prefcio em obras suas. No lhes
ocultei nem a um, nem a outro, nem ao pblico os senes e lacunas, que havia em
tais obras; e tanto o autor das Nvoas matutinas como o das Estrelas
errantes aceitaram francamente, graciosamente, os reparos que lhes fiz. No
era j isso dar prova de talento?

Um
daqueles poetas, o Sr. Francisco de Castro, estreou h um ano, com um livro de
pginas juvenis, muita vez incertas,  verdade, como de estreante que eram.
'No se envergonhe de imperfeies (dizia eu ao Sr. Francisco de Castro)
nem se vexe de as ver apontadas; agradea-o antes... H nos seus versos uma
espontaneidade de bom agouro, uma natural singeleza, que a arte guiar melhor e
a ao do tempo aperfeioar'. Depois notava-lhe que a poesia pessoal
cultivada por ele, estava exausta, e, visto que outras pginas havia, em que a
inspirao era mais desinteressada, aconselhava-o a poetar fora daquele campo.
Dizia-lhe isso em 4 de agosto de 1878. Pouco mais de um ano se h passado; no
 tempo ainda de desesperar do conselho. Pode-se, entretanto, julgar do que
far o Sr. Francisco de Castro, se se aplicar deveras  poesia, pelo que j nos
deu nas Estrelas errantes.

Neste
volume de 200 pginas, em que alguma coisa h frouxa e somenos, sente-se o
bafejo potico, o verso espontneo, a expresso feliz; h tambm por vezes
comoo sincera, como nestes lindos versos de Ao p do bero:

Deus
perfuma-te a face com um beijo,

E em sonhos te aparece,

Quando,
ao calor de uma asa que no veio

O corao te aquece.

s vezes,
quando dormes, eu me inclino

Sobre teu
bero, e busco do destino

Ler a
pgina em flor que nele existe;

De tua
fronte santa e curiosa

Docemente
aproximo, temerosa,

A minha
fronte pensativa e triste.

Como um
raio de luz do paraso,

Teu lbio
esmalta virginal sorriso...

Ao ver-te
assim, exttico me alegro

Bebo em
teu seio o hlito das fores,

Osis no
deserto dos amores,

Pgina
branca do meu livro negro.

A
paternidade inspirou tais estrofes. O amor inspira-lhe outras; outras so puras
obras de imaginao inquieta, e desejosa de fugir  realidade. Talvez esse
desejo se mostre por demais imperioso; a realidade  boa, o realismo  que no
presta para nada. Que o Sr. Francisco de Castro pode e deve fecundar a sua
inspirao, alargando-lhe os horizontes, coisa  para mim evidente. Tiradentes,
Ashaverus, Spartaco, so pginas em que o poeta revela possuir a nota
pujante e saber empreg-la. Nem todos os versos dessas composies so
irrepreensveis; mas h ali vida, fluncia, animao; e quando ouvimos o poeta
falar aos heris, nestes belos versos:

Vs que
dobrais do tempo o promontrio,

E, barra
dentro, a eternidade entrais,

mal
podemos lembrar que  o mesmo poeta que, algumas pginas antes, inclinara a
fronte pensativa sobre um bero de criana. Quem possui a faculdade de cantar
to opostas coisas, tem diante de si um campo largo e frtil. Certas demasias
h de perd-las com o tempo; a melhor lio crtica  a experincia prpria.
Confesso, entretanto, um receio. A cincia  m vizinha; e a cincia tem no Sr.
Francisco de Castro um cultor assduo e valente. Lembre-se todavia o poeta que
os antigos arranjaram perfeitamente estas coisas; fizeram de Apolo o deus da
poesia e da medicina. Goethe escreveu o Fausto e descobriu um osso no
homem  o que tudo persuade que a cincia e a poesia no so inconciliveis. O
autor das Estrelas errantes pode mostrar que so amigas.

O que eu
dizia em 1878 a este poeta, dizia-o em 1872 ao autor das Nvoas matutinas.
No dissimulei que havia na sua primavera mais folhas plidas que verdes; foram
as minhas prprias expresses; e argia-o dessa melancolia prematura e
exclusiva. J l vo sete anos. H quatro, em 1875, o poeta publicou outra
coleo, as Alvoradas; explicando o ttulo, no prlogo, diz que seus
versos no tm a luz nem as harmonias do amanhecer. Sero, acrescenta, como as
madrugadas chuvosas: desconsoladas, mudas e montonas. No se iluda o leitor;
no se refugie em casa com medo das intempries que o Sr. Lcio de Mendona lhe
anuncia; so requebros de poeta. A manh  clara; choveu talvez durante a
noite, porque as flores esto ainda midas de lgrimas; mas a manh  clara.

A
comparao entre os dois livros  vantajosa para o poeta; certas incertezas do
primeiro, certos tons mais vulgares que ali se notam, desapareceram no segundo.
Mas o esprito geral  ainda o mesmo. H, como nas Nvoas matutinas, uma
corrente pessoal e uma corrente poltica. A parte poltica tem as mesmas
aspiraes partidrias da gerao recente; e alis vinham j de 1872 e 1871.
Para conhecer bem o talento deste poeta, h mais de uma pgina de lindos
versos, como estes, Leno branco:

Lembras-te,
Aninha, prola roceira

Hoje
engastada no ouro da cidade,

Lembras-te
ainda,  bela companheira,

Dos
velhos tempos da primeira idade?

Longe
dessa botina azul celeste,

Folgava-te
o pezinho no tamanco...

Eras
roceira assim quando me deste,

Na hora
de partir, teu leno branco;

ou como
as deliciosas estrofes, Alice, que so das melhores composies que
temos em tal gnero; mas eu prefiro mostrar outra obra menos pessoal; prefiro
citar A famlia. Trata-se de um moo, celibatrio e prdigo, que sai a
matar-se, uma noite, em direo do mar; de repente, pra, olhando atravs dos
vidros de uma janela:

Era
elegante a sala, e quente e confortada.

 mesa,
junto  luz, estava a me sentada.

Cosia.
Mais alm, um casal de crianas,

Risonhas
e gentis como umas esperanas,

Olhavam
juntamente um livro de gravuras,

Inclinando
sobre ele as cabecinhas puras.

Num
gabinete, alm que entreaberto se via,

Um homem
 era o pai,  calmo e grave, escrevia.

Enfim uma
velhinha. Estava agora s

Porque
estava rezando. Era, decerto, a av.

E em tudo
aquilo havia uma paz, um conforto...

Oh! a
famlia! o lar! o bonanoso porto

No
tormentoso mar. Abrigo, amor, carinho.

O moo
esteve a olhar. E voltou do caminho.

Nada mais
simples do que a idia desta composio; mas a simplicidade da idia, a
sobriedade dos toques e a verdade da descrio, so aqui os elementos do efeito
potico, e produzem nada menos que uma excelente pgina. O Sr. Lcio de
Mendona possui o segredo da arte. Se nas Alvoradas no h outro quadro
daquele gnero, pode hav-los num terceiro livro, porque o poeta tem dado
recentemente na imprensa algumas composies em que a inspirao  menos
exclusiva, mas imbuda da realidade exterior. Li-as,  proporo que elas iam
aparecendo; mas no as coligi to completamente que possa analis-las com
alguma minuciosidade. Sei que tais versos formam segunda fase do Sr. Lcio de
Mendona; e  por ela que o poeta se prende mais intimamente  nova direo dos
espritos. O autor das Alvoradas tem a vantagem de entrar nesse terreno
novo com a forma j trabalhada e lcida.

A poesia
do Sr. Ezequiel Freire no tem s o lirismo pessoal,  traz uma nota de
humorismo e de stira; e  por essa ltima parte que o podemos ligar ao Sr. Artur
Azevedo. As Flores do Campo, volume de versos dado em 1874, tiveram a
boa fortuna de trazer um prefcio devido  pena delicada e fina de D. Narcisa
Amlia, essa jovem e bela poetisa, que h anos aguou a nossa curiosidade com
um livro de versos, e recolheu-se depois  turris eburnea da vida
domstica. Resende  a ptria de ambos; alm dessa afinidade, temos a da
poesia, que em suas partes mais ntimas e do corao,  a mesma. Naturalmente,
a simpatia da escritora vai de preferncia s composies que mais lhe quadram
 prpria ndole, e, no nosso caso, basta conhecer a que lhe arranca maior
aplauso, para adivinhar todas as delicadezas da mulher. Dona Narcisa Amlia
aprova sem reserva os Escravos no eito, pgina da roa, quadro em que o
poeta lana a piedade de seus versos sobre o padecimento dos cativos. No se
limita a aplaudi-lo, subscreve a composio. Eu, pela minha parte, subscrevo o
louvor; creio tambm que essa composio resume o quadro. A pintura  viva e
crua; o verso cheio e enrgico. A invectiva que forma a segunda parte seria,
porm, mais enrgica, se o poeta no-la desse menos extensa; mas h ali um
sentimento real de comiserao.

Notam-se
no livro do Sr. Ezequiel Freire outros quadros da roa. Na roa  o
prprio ttulo de uma das pginas mais interessantes;  uma descrio da casa
do poeta  beira do terreiro, entre moitas de pita, com seu teto de sap; fora,
o tico-tico remexe no farelo, e o gurundi salta na grumixama; nada falta, nem o
mugir do gado nem os jogos dos moleques:

O gado
muge no curral extenso;

Um grupo
de moleques doutra banda,

Brinca o
Tempo-ser; vm vindo as aves

Do
parapeito rente da varanda.

No
carreador de alm, que atalha a mata,

Ouvem-se
notas de cano magoada.

Ai! sorrisos
do cu  das roceirinhas!

Ai!
cantigas de amor  do camarada!

Nada
falta; ou falta s uma coisa, que  tudo; falta certa moa que um dia se foi
para a Corte. Essa ausncia completa to bem o quadro que mais parece inventada
para o efeito potico. E creio que sim. No se combinam to tristes saudades,
com o pico final:

 gentes
que morais a na corte,

Sabei que
vivo aqui como um lagarto.

 ventos
que passais, contai  moa

Que h
duas camas no meu pobre quarto...

Lcia, que se faz Lucola,
 tambm um quadro da roa, em que h toques menos felizes;  uma simples
histria narrada pelo poeta. Mais ainda que na outra, h nessa composio a
nota viva e gaiata, que nem sempre serve a temperar a melancolia do assunto. J
disse que o Sr. Ezequiel Freire tem a corda humorstica; a terceira parte 
toda uma coleo de poesia em que o humorismo traz a ponta aguada pela stira.
Gosto menos desta ltima parte que das duas primeiras; nem os assuntos so
interessantes, nem s vezes claros, o que de algum modo  explicado por esta
frase da poetisa resendense: 'A stira, sendo quase sempre alusiva, faz-se
obscura para os que no gozam a intimidade do poeta'. Em tal caso, devia o
poeta elimin-la. Tambm o estilo est longe de competir com o do resto
do volume, que alis no  perfeito. Certamente  correntio e bem trabalhado, o
Jos de Arimatia, por exemplo, anncio de um gato fugido; mas que
diferena entre essa pgina e a do Nevoeiro! No  que no haja lugar
para o riso, mormente em livro to pessoal s vezes; mas o melhor que h no
riso  a espontaneidade.

No sei
se escreveu mais versos o Sr. Ezequiel Freire;  de supor que sim, e  de
lastimar que no. Ignoro tambm que influncia ter tido nele o esprito que
parece animar a gerao a que pertence; mas no h temeridade em crer que o
autor das Flores do Campo siga o caminho dos Srs. Afonso Celso Jnior,
Lcio de Mendona, e Tefilo Dias, que tambm deram as suas primeiras flores.

Se no Sr.
Ezequiel Freire no h vestgio de tendncia nova, menos a iremos achar no Sr.
Artur Azevedo, que  puramente satrico. Conheo deste autor o Dia de
Finados, A Rua do Ouvidor e Sonetos; trs opsculos. No
darei nenhuma novidade ao autor, dizendo-lhe que o estilo de tais opsculos 
incorreto, que a versificao no tem o apuro necessrio, e alis cabido em
suas foras. Sente-se naquelas pginas o descuido voluntrio do poeta;
respira-se a aragem do improviso, descobre-se o inacabado do amador. Alm deste
reparo, que far relevar muita coisa, ocorre-me outro igualmente grave. No s
o desenho  incorreto, mas tambm a cor das tintas  demasiado crua, e os
objetos nem sempre poticos. Digo poticos, sem esquecer que se trata de um
satrico; stira ou epopia, importa que o assunto preencha certas condies da
arte. O Dia de Finados, por exemplo, contm episdios de tal natureza,
que deve cobrir por fora alguma realidade. A absoluta inveno daquilo seria,
na verdade, inoportuna. Pois ainda assim, cabe o reparo: nem todos esses
episdios ali deviam estar, e assim juntos destroem o efeito do todo, porque
uns aos outros fazem perder a verossimilhana. Diz-se que efetivamente a visita
de um dos nossos cemitrios, no dia em que se comemoram os defuntos,  um
quadro pouco edificante. Come-se no cemitrio em tal dia? Mas a refeio que o
poeta nos descreve  uma verdadeira patuscada de arrabalde, em que nada falta,
nem a embriaguez; e tanto menos se compreende isso, quanto a dor no parece
excluda da ocasio, o que o poeta nos indica bem, aludindo a uma das convivas:

Um
camaro a atrai;

Vai a
com-lo, e nele a lgrima lhe cai.

A viva
que repreende em altos brados o escravo, o credor que vai cobrar uma dvida, o rendez-vous
dos namorados, as chacotas, os risos, tudo isso no parece que excede a
realidade? Mas dado que seja a realidade pura, a fico potica no podia
admiti-la sem restrio. No fim, o poeta sobe at a vala, que fica acima da
plancie, e d-nos alguns versos tocantes; lastima a caridade peridica, a dor
que no di e o pranto que no queima.

Na Rua
do Ouvidor e nos Sonetos no h impresso do Dia de Finados,
naturalmente porque o contraste da stira  menor. O primeiro daqueles
opsculos  uma revista da nossa rua magna, uma revista alegre em que as
qualidades boas e ms do Sr. Azevedo claramente aparecem. O maior defeito de
tal stira  a extenso. Revistas dessas no comportam dimenses muito maiores
que as do Passeio, de Tolentino. Os sonetos so a melhor parte da obra
potica do Sr. A. Azevedo. Nem todos so perfeitos; e alguns h em que o
assunto excede o limite potico, como a Metamorfose; mas h outros em
que a idia  graciosa, e menos solto o estilo; tal, por exemplo, o que lhe
mereceu uma vizinha ralhadora,  soneto cujo fecho dar idia da versificao
do poeta quando ele a quer apurar:

Tu, que
s o co tinhoso em forma de senhora,

Oh!
ralha, ralha e ralha, e ralha mais e ralha...

Mas
deixa-me primeiro ir para sempre embora.

A obra do
Sr. Mcio Teixeira  j considervel: trs volumes de versos, e, segundo vejo
anunciado, um quarto volume, os Novos Ideais. Neste ltimo livro, j
pelo ttulo, j por algumas amostras que vi na imprensa diria,  que esto
definidas mais intimamente as relaes do poeta com o grosso do novo exrcito;
mas nada posso adiantar sobre ele. Nos outros, principalmente nas Sombras e
Clares, podemos ver as qualidades do poeta, as boas e as ms. Creio que
at agora o Sr. Mcio Teixeira cedeu principalmente ao influxo da chamada
escola hugosta. O Trono e a Igreja, Gutenberg, a Posteridade,
e outras composies do idia cabal dessa poesia, que buscava os efeitos em
certos meios puramente mecnicos. Vemos a o condor, aquele condor que  fora
de voar em tantas estrofes, h doze anos, acabou por cair no cho, onde foi
apanhado e empalhado; vemos as epopias, os Prometeus, os gigantes, as Babis,
todo esse vocabulrio de palavras grandes destinadas a preencher o vcuo das
idias justas. O Sr. Mcio Teixeira cedeu  torrente, como tantos outros; no
h que censur-lo; mas resiste afinal e o seu novo livro ser outro.

Talvez
seja o Sr. Mcio Teixeira o poeta de mais pronta inspirao, entre os novos;
sente-se que os versos lhe brotam fceis e rpidos. A qualidade  boa, mas o
uso deve ser discreto; e eu creio que o Sr. Mcio Teixeira no resiste a si
mesmo. H movimento em suas estrofes, mas h tambm demasias; o poeta no 
correto; falta-lhe limpidez e propriedade. Quando a comoo verdadeira domina o
poeta, tais defeitos desaparecem, ou diminuem; mas  rara a comoo nos versos
do Sr. Mcio Teixeira. No  impossvel que o autor das Sombras e Clares
prefira os assuntos que exigem certa altiloquia, h outros que se contentam do
vocabulrio mdio e do tom brando; e, contudo, creio que a musa dele se
exercer nestes com muito mais proveito. Os outros iludem muito. Se me no
escasseasse tanto o espao, mostraria, como exemplos, a diferena dos
resultados obtidos pelo Sr. Mcio Teixeira em uma e outra ordem de composies;
mostraria a superioridade da Noite de Vero, Desalento e Eu,
sobre a Voz proftica e os Fantasmas do porvir. Pode ser que haja
um qu de artificial no Desalento; mas o verso sai mais natural, a
expresso  mais idnea:  ele outro. E por que ser artificial aquela pgina?
O Sr. Mcio Teixeira tem s vezes a expresso da sinceridade; devem ser sinceros
estes versos, alis um pouco vulgares, com que fecha a dedicatria das Sombras
e Clares:

Se ainda
no descri de tudo neste mundo

Eu  que
o clix do fel sorvi at o fundo,

Chorando
no silncio, e rindo  multido;

 que
encontrei em vs as bnos e os carinhos

Que a
infncia tem no lar, e as aves tm nos ninhos...

Amigo de
meus pais! eu beijo a vossa mo.

No custa
muito fazer versos assim, naturais, verdadeiros, em que a expresso corresponde
 idia, e a idia  lmpida. Estou certo de que as qualidades boas do poeta
dominaro muito no novo livro; creio tambm que ele empregar melhor a
facilidade, que  um do seus dotes, e corresponder cabalmente s esperanas
que suas estrias legitimamente despertam. Se algum conselho lhe pode insinuar
a crtica  que d costas ao passado.

III

Qualquer
que seja o grau de impresso do leitor, fio que no ter exclusivamente benigna
nem exclusivamente severa, mas ambas as coisas a um tempo, que  o que convm 
nova gerao. Viu que h talentos, e talentos bons. Falta unidade ao movimento,
mas sobra confiana e brilho; e se as idias trazem s vezes um cunho de
vulgaridade uniforme, outras um aspecto de incoercvel fantasia, revela-se
todavia esforo para fazer alguma coisa que no seja continuar literalmente o
passado. Esta inteno  j um penhor de vitria. Aborrecer o passado ou
idolatr-lo vem a dar no mesmo vicio; vcio de uns que no descobrem a filiao
dos tempos, e datam de si mesmos a aurora humana, e de outros que imaginam que
o esprito do homem deixou as asas no caminho e entra a p num charco. Da
primeira opinio tm desculpa os moos, porque esto na ida em que a irreflexo
 condio de bravura; em que um pouco de injustia para com o passado 
essencial  conquista do futuro. Nem os novos poetas aborrecem o que foi;
limitam-se a procurar alguma coisa diferente.

No 
possvel determinar a extenso nem a persistncia do atual movimento potico.
Circunstncias externas podem aceler-lo e defini-lo; ele pode tambm acabar ou
transformar-se. Creio, ainda assim, que alguns poetas sairo deste movimento e
continuaro pelo tempo adiante a obra dos primeiros dias. Grande parte deles
ho de absorver-se em outras aplicaes mais concretas. Entre esses haver at
alguns que no sejam poetas, seno porque a idade o pede; extinta a musa
extinguir-se-lhes- a poesia. Isto que uns aceitam de boa mente, outros de m
cara, costuma, s vezes, ser causa secreta de ressentimentos; os que calaram
no chegam a compreender que o idioma no acabasse com eles. Se tal fato se
der, entre os moos atuais, aprendero os que prosseguirem na obra, qual a soma
e natureza de esforos que ela custa; vero juntar-se as dificuldades morais s
literrias.

A nova
gerao freqenta os escritores da cincia; no h a poeta digno desse nome
que no converse um pouco, ao menos, com os naturalistas e filsofos modernos.
Devem, todavia, acautelar-se de um mal: o pedantismo. Geralmente, a mocidade,
sobretudo a mocidade de um tempo de renovao cientfica e literria, no tem
outra preocupao mais do que mostrar s outras gentes que h uma poro de
coisas que estas ignoram; e da vem que os nomes ainda frescos na memria, a
terminologia apanhada pela rama, so logo transferidos ao papel, e quanto mais crespos
forem os nomes e as palavras, tanto melhor. Digo aos moos que a verdadeira
cincia no  a que se incrusta para ornato, mas a que se assimila para
nutrio; e que o modo eficaz de mostrar que se possui um processo cientfico,
no  proclam-lo a todos os instantes, mas aplic-lo oportunamente. Nisto o
melhor exemplo so os luminares da cincia: releiam os moos o seu Spencer e
seu Darwin. Fujam tambm a outro perigo: o esprito de seita, mais prprio das
geraes feitas e das instituies petrificadas. O esprito de seita tem fatal
marcha do odioso ao ridculo; e no ser para uma gerao que lana os olhos ao
largo e ao longe, que se comps este verso verdadeiramente galante:

Nul
naura de l'esprit, hors nous et nos amis.

Finalmente,
a gerao atual tem nas mos o futuro, contanto que lhe no afrouxe o
entusiasmo. Pode adquirir o que lhe falta, e perder o que a deslustra; pode
afirmar-se e seguir avante. Se no tem por ora uma expresso clara e
definitiva, h de alcan-la com o tempo; ho de alcan-la os idneos. Um
escritor de ultramar, Sainte-Beuve, disse um dia, que o talento pode
embrenhar-se num mau sistema, mas se for verdadeiro e original, depressa se
emancipar e achar a verdadeira potica. Estas palavras de um crtico que
tambm foi poeta, repete-as agora algum que, na crtica e na poesia, despendeu
alguns anos de trabalho, no fecundo nem grande mas assduo e sincero; algum
que para os recm-chegados h de ter sempre a advertncia amiga e o aplauso
oportuno.
