CRTICA, Revista Dramtica, 1860

Revista Dramtica

Texto-Fonte:

Obra Completa de Machado de Assis,

Rio
  de Janeiro: Nova Aguilar, vol. II, 1994.

Texto-Fonte:

Crtica Teatral, Machado de Assis,

Rio
  de Janeiro: W.M. Jackson, 1938.

Publicado
  originalmente de 29/03/1860 a 1879.

Sumrio: -- A crtica teatral. -- Me, de Jos de Alencar.

Escrever crtica e crtica de teatro no  s uma tarefa
  difcil,  tambm uma empresa arriscada.

A razo  simples. No dia em que a pena, fiel ao preceito
  de censura, toca um ponto negro e olvida por momentos a estrofe laudatria, as
  inimizades levantam-se de envolta com as calnias.

Ento, a crtica aplaudida ontem,  hoje ludibriada, o
  crtico vendeu-se, ou por outra, no passa de um ignorante a quem por compaixo
  se deu algumas migalhas de aplauso.

Esta perspectiva poderia fazer-me recuar ao tomar a pena
  do folhetim dramtico, se eu no colocasse acima dessas misrias humanas a
  minha conscincia e o meu dever. Sei que vou entrar em uma tarefa onerosa;
  sei-o, porque conheo o nosso teatro, porque o tenho estudado materialmente;
  mas se existe uma recompensa para a verdade, dou-me por pago das pedras que
  encontrar em meu caminho.

Protesto desde j uma severa imparcialidade,
  imparcialidade de que no pretendo afastar-me uma vrgula; simples revista sem
  pretenso a orculo, como ser este folhetim, dar-lhe-ei um carter digno das
  colunas em que o estampo. Nem azorrague, nem luva de pelica; mas a censura
  razovel, clara e franca, feita na altura da arte e da crtica.

Estes preceitos, que estabeleo como norma do meu
  proceder, so um resultado das minhas idias sobre a imprensa, e de h muito
  que condeno os ouropis da letra redonda, assim como as intrigas mesquinhas, em
  virtude de que muita gente subscreve juzos menos exatos e menos de acordo com
  a conscincia prpria.

Se faltar a esta condio que me imponho, no ser um
  atentado voluntrio contra a verdade, mas erro de apreciao.

As minhas opinies sobre o teatro so eclticas
  em absoluto. No
  subscrevo, em sua totalidade, as mximas da escola realista, nem aceito, em
  toda a sua plenitude, a escola das abstraes romnticas; admito e aplaudo o
  drama como forma absoluta do teatro, mas nem por isso condeno as cenas
  admirveis de Corneille e de Racine.

Tiro de cada coisa uma parte, e fao o meu ideal de arte,
  que abrao e defendo.

Entendo que o belo pode existir mais revelado em uma forma
  menos imperfeita, mas no  exclusivo de uma s forma dramtica. Encontro-o no
  verso valente da tragdia, como na frase ligeira e fcil com que a comdia nos
  fala ao esprito.

Com estas mximas em mo -- entro no teatro.  este o meu
  procedimento; no dia em que me puder conservar nessa altura, os leitores tero
  um folhetim de menos, e eu mais um argumento de que -- cometer empresas destas,
  no  uma tarefa para quem no tem o esprito de um temperamento superior.

Sirvam estas palavras de programa.

Se se quisesse avaliar a nossa existncia moral pelo
  movimento atual do teatro, perderamos no paralelo.

Ou influncia ou estao, ou causas estranhas, dessas que
  transformam as situaes para dar nova direo s coisas, o teatro tem
  caminhado por uma estrada difcil e escabrosa.

Quem escreve estas palavras tem um fundo de convico,
  resultado do estudo com que tem acompanhado o movimento do teatro; e tanto mais
  insuspeito, quanto que  um dos crentes mais srios e verdadeiros desse grande
  canal de propaganda.

Firme nos princpios que sempre adotou, o folhetinista que
  desponta d ao mundo, como um colega de alm-mar, o espetculo espantoso de um
  crtico de teatro que cr no teatro.

E cr: se h alguma coisa a esperar para a civilizao 
  desses meios que esto em contato com os grupos populares. Deus me absolva se
  h nesta convico uma utopia de imaginao clida.

Estudando, pois, o teatro, vejo que a atualidade dramtica
  no  uma realidade esplndida, como a desejava eu, como a desejam todos os que
  sentem em si uma alma e uma convico.

J disse, essa morbidez  o resultado de causas estranhas,
  inseparveis talvez -- que podem aproximar o teatro de uma poca mais feliz.

Estamos com dois teatros em ativo; uma nova companhia se
  organiza para abrir em pouco o teatro Variedades; e essa completar a trindade
  dramtica.

No meio das dificuldades com que caminha o teatro,
  anuncia-se no Ginsio um novo drama original brasileiro. A repetio dos
  anncios, o nome oculto do autor, as revelaes dbias de certos orculos, que
  os h por toda parte, prepararam a expectativa pblica para a nova produo
  nacional.

Veio ela enfim.

Se houve verdade nas conversaes de certos crculos, e na
  nsia com que era esperado o novo drama, foi que a pea estava acima do que se
  esperava.

Com efeito, desde que se levantou o pano o pblico comeou
  a ver que o esprito dramtico, entre ns, podia ser uma verdade. E, quando a
  frase final caiu esplndida no meio da platia, ela sentiu que a arte nacional
  entrou em um perodo mais avantajado de gosto e de aperfeioamento.

Esta pea intitula-se Me.

Revela-se  primeira vista que o autor do novo drama
  conhece o caminho mais curto do triunfo; que, dando todo o desenvolvimento 
  fibra da sensibilidade, praticou as regras e as prescries da arte sem
  dispensar as sutilezas de cor local.

A ao  altamente dramtica; as cenas sucedem-se sem
  esforo, com a natureza da verdade; os lances so preparados com essa lgica
  dramtica a que no podem atingir as vistas curtas.

Altamente dramtica  a ao, disse eu; mas no pra a; 
  tambm altamente simples.

Jorge  um estudante de medicina, que mora em um segundo
  andar com uma escrava apenas -- a quem trata carinhosamente e de quem recebe
  provas de um afeto inequvoco.

No primeiro andar, moram Gomes, empregado pblico, e sua
  filha Elisa. A intimidade da casa trouxe a intimidade dos dois vizinhos, Jorge
  e Elisa, cujas almas, ao comear o drama, ligam-se j por um fenmeno de
  simpatia.

Um dia, a doce paz, que fazia a ventura daquelas quatro
  existncias, foi toldada por um corvo negro, por um Peixoto, usurrio, que vem
  ameaar a probidade de Gomes, com a maquinao de um tramo diablico e muito
  comum, infelizmente, na humanidade.

Ameaado em sua honra, Gomes prepara um suicdio que no
  realiza; entretanto, envergonhado por pedir dinheiro, porque com dinheiro
  removia a tempestade iminente, deixa  sua filha o importante papel de salv-lo
  e salvar-se.

Elisa, confiada no afeto que a une a Jorge, vai expor-lhe
  a situao; este compreende a dificuldade, e, enquanto espera a quantia
  necessria do Dr. Lima, um carter nobre da pea, trata de vender, e ao mesmo
  Peixoto, a moblia de sua casa.

Joana, a escrava, compreende a situao, e, vendo que o
  usurrio no dava a quantia precisa pela moblia de Jorge, prope-se a uma
  hipoteca; Jorge repele a princpio o desejo de sua escrava, mas a operao tem
  lugar, mudando unicamente a forma de hipoteca para a de venda, venda nulificada
  desde que o dinheiro emprestado voltasse a Peixoto.

Volta a manh serena depois de tempestade procelosa; a
  probidade e a vida de Gomes esto salvas.

Joana, podendo escapar um minuto a seu senhor temporrio,
  vem na manh seguinte visitar Jorge.

Entretanto o Dr. Lima tem tirado as suas malas da
  alfndega e traz o dinheiro a Jorge. Tudo vai, por conseguinte, voltar ao seu
  estado normal.

Mas Peixoto, no encontrando Joana em casa, vem procur-la
   casa de Jorge, exigindo a escrava que havia comprado na vspera. O Dr. Lima
  no acreditou que se tratasse de Joana, mas Peixoto, forado a declarar o nome,
  pronuncia-o. Aqui a peripcia  natural, rpida e bem conduzida; o Dr. Lima
  ouve o nome, dirige-se para a direita por onde acaba de entrar Jorge.

-- Desgraado, vendeste tua me!

Eu conheo poucas frases de igual efeito. Sente-se uma
  contrao nervosa ao ouvir aquela revelao inesperada. O lance  calculado com
  mestria e revela pleno conhecimento da arte no autor.

Ao conhecer sua me, Jorge no a repudia; aceita-a em face
  da sociedade, com esse orgulho sublime que s a natureza estabelece e que faz
  do sangue um ttulo.

Mas Joana, que forcejava sempre por deixar corrido o vu
  do nascimento de Jorge, na hora, que este o sabe, aparece envenenada. A cena 
  dolorosa e tocante; a despedida para sempre de um filho, no momento em que
  acaba de conhecer sua me,  por si uma situao tormentosa e dramtica.

No  bem acabado este tipo de me, que sacrifica as
  carcias que poderia receber de seu filho, a um escrpulo de que a sua
  individualidade o fizesse corar?

Esse drama, essencialmente nosso, podia, se outro fosse o
  entusiasmo de nossa terra, ter a mesma nomeada que o romance de Harriete Stowe
  -- fundado no mesmo teatro da escravido.

Os tipos acham-se ali bem definidos, e a ligao das
  frases no pode ser mais completa.

O veneno que Joana bebe, para aperfeioar o quadro e
  completar o seu martrio tocante,  o mesmo que Elisa tomara das mos de seu
  pai, e que a escrava encontrou sobre uma meia em casa de Jorge, para onde a
  menina o levara.

H frases lindas e impregnadas de um sentimento doce e
  profundo; o dilogo  natural e brilhante, mas desse brilho que no exclui a
  simplicidade, e que no respira o torneado bombstico.

O autor soube haver-se com a ao, sem entrar
  em anlise. Descoberta
  a origem de Jorge, a sociedade d o ltimo arranco em face da natureza, pela
  boca de Gomes, que tenta recusar sua filha prometida a Jorge.

Repito-o; o drama  de um acabado perfeito, e foi uma
  agradvel surpresa para os descrentes da arte nacional.

Ainda oculto o autor, foi saudado por todos com a sua
  obra; feliz que , de no encontrar patos no seu Capitlio.

A Sra. Veluti e o Sr. Augusto disseram com felicidade os
  seus papis; a primeira, dando relevo ao papel de escrava com essa inteligncia
  e sutileza que completam os artistas; o segundo, sustentando a dignidade do Dr.
  Lima na altura em que a colocou o autor.

A Sra. Ludovina no discrepou no carter melanclico de
  Elisa; todavia, parecia-me que devia ter mais animao nas suas transies, que
   o que define o claro-escuro.

O Sr. Heler, pondo em cena o carter do empregado pblico,
  teve momentos felizes, apesar de lhe notar uma gravidade de porte, pouco
  natural, s vezes.

H um meirinho na pea desempenhado pelo Sr. Graa, que
  como bom ator cmico, agradou e foi aplaudido. O papel  insignificante, mas
  aqueles que tm visto o distinto artista adivinham o desenvolvimento que a sua
  veia cmica lhe podia dar.

Jorge foi desempenhado pelo Sr. Paiva que, trazendo o
  papel  altura de seu talento, fez-nos entrever uma figura singela e
  sentimental.

O Sr. Milito completa o quadro com o papel de Peixoto,
  onde nos deu um usurrio brutal e especulador.

A noite foi de regozijo para aqueles que, amando a
  civilizao ptria, estimam que se faa to bom uso da lngua que herdamos.
  Oxal que o exemplo se espalhe.

Na prxima revista tocarei no teatro de S. Pedro e no das
  Variedades, se j houver encetado a sua carreira.

Entretanto fecho estas pginas, e deixo que o leitor, para
  fugir ao rigor da estao, v descansar um pouco, no  sombra das faias, como
  Tytiro, mas entre os nevoeiros de Petrpolis, ou nas montanhas da velha Tijuca.

29 de maro de 1860.

Sumrio: -- Dalila. -- Espinhos e flores,
  de Camilo Castello Branco.

O maior feito de Csar no foi vencer Pompeu, mas
  atravessar o Rubicon.

Ns outros da histria moderna tambm temos o nosso
  Rubicon a atravessar; e se um ministro sua
    sangue e gua na discusso da lei do oramento, o folhetinista tambm sofre
  suas torturas com a apresentao do seu primeiro folhetim.

Ningum calcula as incertezas e as incertezas em que luta
  a alma de um folhetinista novel, depois de lanada nesse mar, que se chama
  pblico, a primeira caravela que a custo construiu no estaleiro das suas
  opinies.

 uma crise que dura pouco, mas que produz lutas atrozes.
  A dvida desaparece quando o primeiro, o segundo, o terceiro, o dcimo amigo
  veio com a mo aberta e o sorriso leal dizer-lhe uma palavra de animao.

Eu confesso que estive em uma situao idntica  que
  descrevi acima; por vezes intentei renegar a religio que abracei e vender a
  alma ao primeiro demnio que me aparecesse.

Vedou-me a audcia esse passo; e murmurou-me ao ouvido
  aquelas palavras que atiraram Napoleo s pirmides, e acabou por me dizer:
  caminha!

Ora, em conscincia, eu devia caminhar; tinha calado o
  coturno de crtico dramtico, e devia a todo custo seguir a rota que eu mesmo
  me tinha traado.

Caminhei, pois, e sem dar parte das torturas da viagem,
  tomo o brao ao leitor e vou mostrar-lhe os primeiros esforos de uma tentativa
  louvvel.

O teatro das Variedades abriu suas portas com o drama de
  Octave Feuillet -- Dalila.

Octave Feuillet,  imitao de muitos, escreveu a Dalila, como um romance em dilogos. 
  assim o Aldo de George Sand, e as
  cenas dramticas de Alfredo de Musset.

Antonio de Serpa leu a concepo do escritor francs,
  imitou, substituiu e fez um drama.

Evidentemente a obra primitiva merecia o trabalho do
  literato portugus;  uma das produes mais lindas da musa moderna.

Obra de imaginao, oscila entre os arabescos da fantasia
  e os relevos da arte, resultando desse embate uma composio de alto alcance
  filosfico. O amor lascivo que se ope ao amor casto e honesto para sufocar-lhe
  as aspiraes:  a histria de todos os dias.

Dalila, a princesa Falconieri,  uma mulher de mrmore sem
  a cabea e sem o champagne.  o ideal
  da vaidade com todos os seus caprichos, com todas as suas lascvias. No visa o
  ouro do opulento, mas arma s aspiraes leais de uma alma cndida e virginal;
  espera um adolescente  porta da vida para arrebat-lo a um mundo enervante e
  srdido que  o seu reino.

Corta ao pobre Sanso que lhe adormece nos braos -- as
  asas da aspirao e do futuro, para atir-lo inerme e desesperado s mos dos
  filisteus que o esperam na porta.

Ao p da princesa est a figura de Carnioli. Carnioli  um
  tipo especial:  um nobre opulento que se compraz em proteger as vocaes, que
  faz da arte o seu Deus e dos artistas os seus santos.

Um dia voltava da Turquia, costeando o Adritico, foi ter
   Dalmcia onde passou torturas a ouvir os sons rouquenhos da guzla, ele o mais
  fervente adorador das peras de S. Carlos. Era foroso partir, fugir quela
  melodia grotesca.

No caminho esperava-o um artista alvorecente, um pastor de
  cabras que j transportava a alma para as cordas de uma rabeca. Educou-o e
  cooperou para faz-lo um artista;  a sua obra, a melhor obra; mira-se nela com
  a vaidade de um Narciso e com o entusiasmo de uma paternidade feliz.

Carnioli no  nem Augusto nem Luiz XIV; -- a sua proteo
  no cai sobre os artistas com o sculo das convenincias reais; mas ao impulso
  de um entusiasmo expansivo que  a legitimidade dos seus afetos.

A sua obra  Andr Roswein -- a criana da rabeca; corao
  virgem e modesto que s v duas estrelas no futuro: a arte e Amlia Sertorius.

Amlia  uma menina simples e modesta, que uma intimidade
  de existncia une ao esperanoso artista.

Sertorius, o velho e sbio Sertorius, tem ainda o cunho de
  uma idealidade de que h mais de um exemplo no drama. Artista tradicional, conserva as formas do passado como uma
  religio para a arte atual, e ope s fantasias revolucionrias da esttica
  moderna, as regras puras das escolas clssicas. -- Respeita a escola dos
  antigos, diz ele a Roswein.

Com estas cinco figuras  que Octave Feuillet organizou o
  seu drama.

Roswein, discpulo favorito de Sertorius, e protegido de Carnioli,
  vai fazer representar uma pera. A ansiedade  comum; cada qual espera com um
  interesse prprio o resultado da primeira obra dramtica do antigo pastor de
  cabras.

Mas Roswein deve casar-se com Amlia. Ora,  exatamente o
  que no convm a Carnioli. Para o filsofo Carnioli -- o casamento do homem  o
  suicdio do artista, as ocupaes domsticas so por demais terrenas para
  satisfazerem as aspiraes do gnio. Andr no deve casar-se.

Cumpre opor um baluarte enrgico aos afetos do rapaz.
  Carnioli compreende que s uma fora de natureza idntica pode arredar daquela
  cabea ainda virgem a paixo que o arrasta para Amlia: ope o amor ao amor.

Mas esse amor deve absorver a afeio primitiva de Andr
  tornando impossvel e nula a idia do casamento. A princesa Falconieri 
  escolhida.

O amor da princesa devia produzir o desejado efeito: a
  princesa tem os encantos de uma beleza voluptuosa, e a magnificncia de uma
  vida de fidalga para surpreender o esprito adolescente de Andr.

Carnioli toma o caminho mais curto; fere a vaidade 
  princesa; depois, um leno cado com um ramalhete no palco, uma restituio no
  dia seguinte, uma cena de seduo, um beijo, a obra est completa; Amlia est
  rf de seu amor; Sanso est aos ps de Dalila.

O que se segue  atroz: o filtro do amor da princesa foi
  adormecer a pobre criana que nem pode ouvir os soluos do seu primeiro amor.

Carnioli arrepende-se do seu plano de ataque s tendncias
  matrimoniais de Andr, mas era tarde.

A princesa, fatigada do seu amante, quer um outro -- e a
  indiferena comea a acordar o pobre artista apaixonado.

Carnioli volta da Siclia; entre Palermo e Monreale entrou
  em uma casa de aspecto modesto onde viu um grupo de trs pessoas: Amlia,
  Sertorius e um mdico. O velho tocava para distrair a pobre louca que s a
  Alemanha podia curar. Amlia falava, acusava Andr, e repetia as palavras que
  ele lhe dissera em outros tempos.

-- Durante esse tempo, diz Carnioli a Andr, que se torce
  de remorsos, -- os dedos do velho, descansando sobre as cordas, tiravam de
  quando em quando sons... gemidos, que penetravam at o fundo d'alma. Ela
  acordou e disse: Meu pai, tenho dois favores a pedir-lhe... o primeiro  que me
  d um ar de riso. -- O velho tentou sorrir. -- Depois, continuou ela, que me
  toque o Cntico do Calvrio.

'No, no; disse o bom velho com dor pungente,
  querendo simular uma alegria; no dia do teu casamento. Ela sorriu e olhou-o
  fixamente; ele abaixou os olhos sem replicar. Com um gesto doloroso, sacudiu os
  cabelos brancos sobre a fronte, mais plida que o mrmore e pegou no arco...
  Ouvi ento o famoso Cntico do Calvrio...
  o cntico sublime!... Enquanto tocava, grossas lgrimas lhe caam, uma a uma,
  sobre as mos trmulas e inspiradas... Chorava! chorava o instrumento: choravam
  as cordas, o arco, a madeira, o cobre... tudo chorava... porque j no tinha
  lgrimas!'

A princesa tem partido com outro amante. Andr quer ainda
  v-la, desesperado pela traio, e corre a procur-la no caminho.

 a estrada que conduz de Npoles a Gaeta. Carnioli e
  Roswein esto ali; o mar est ao fundo. Dentro em pouco passa uma sege. -- 
  Sertorius, que conduz sua filha morta para a Alemanha. Toma-os por bandidos e
  vai caminho.

Mas Andr est perto da morte, tem deitado uma golfada de
  sangue: o amor e a desesperao tinham fatigado aquela organizao adolescente.

Expira. E enquanto, pobre artista sem futuro, morre no
  caminho, a Dalila, que perdera a razo, passa descuidosa em sua gndola
  acordando os ecos da praia com as canes que lhe inspiram as carcias do seu
  novo amante.

O contraste  frisante e a moralidade nasce da situao
  sem necessidade de comentrios. Toda a considerao tiraria um pouco de relevo
   idia que ressalta viva, do fato.

A ao se caminha s vezes por uma esfera de misticismo,
  define em geral um fato comum e cruelmente vulgar;  a vida real desenvolvida
  nas nuvens.

As duas vistas pintadas pelo Sr. Joo Caetano Ribeiro, no
  3 e 4 quadros, so de um belo efeito, sobretudo a primeira, onde, a par dos
  grupos de rvores, desenhados com habilidade, est o trao firme e preciso das
  formas arquitetnicas da galeria.

Temos agora um outro drama no teatro Ginsio.

Espinhos e Flores  uma produo do Sr. Camilo
  Castello Branco.

Camilo Castello Branco  um escritor portugus muito
  conhecido. Possui uma fecundidade e um talento que lhe do j um lugar distinto
  na literatura portuguesa.

Tem romances lindssimos, e conta na sua biblioteca
  algumas composies dramticas.

Espinhos e Flores  uma composio feliz, onde o
  autor mais de uma vez nos d amostra do seu estilo vigoroso e brilhante.

A ao  simples e velha, tanto no teatro como no romance.
  Mas as roupas novas que lhe emprestou o poeta do-lhe um aspecto fresco e
  louo.

Pedro de Oliveira volta a Portugal e vai procurar seu tio,
  um padre cho como a probidade, singelo como a religio de que  sacerdote.
  Encontra-o e com ele uma irm.

O drama no teria lugar, se essa irm, que no  casada,
  no apresentasse uma filha. Ferido em sua honra, Pedro de Oliveira quer
  apartar-se da casa em que foi encontrar o erro; mas as lgrimas podem mais que
  a rigidez romana do irmo ressentido.

A situao  bonita: Pedro toma nos braos a menina e
  quando Josefina, a culpada, procura-a desvairada, Oliveira responde com esta
  frase simples e tocante: -- No consentes que beije tua filha, minha irm?

Se a clera de Oliveira cede s lgrimas de Josefina, no
  cede o desejo legtimo de reparar um erro que lhe afeta a dignidade. Trata-se
  de dar uma soluo  situao excepcional em que um amor culpado colocou
  Josefina.

 em um banquete, que Oliveira, narrando a histria de sua
  irm, prepara o seu sedutor Luiz de Atade, a reparar o mal feito.

Luiz de Atade  um homem aborrecido de Si; esgotou todos
  os prazeres que lhe estavam ao alcance e caiu em um marasmo cruento. Assim,
  Oliveira toca-lhe facilmente a corda interna que uma srie de gozos fictcios
  adormecera por muito tempo. Aparece o arrependimento; e Atade lava com o
  matrimnio uma culpa do passado.

O padre Oliveira, alma bondosa, ocupa uma parte distinta
  no drama -- e constitui um exemplo tocante de piedade e de perdo.

13 de abril de 1860.

Os
  mineiros da desgraa

Drama de Quintino Bocaiva

O nome que firma estas linhas assinou algures este
  perodo, que ento considerava, e continua a considerar uma verdade sem
  contestao:

'O autor dramtico no  ainda, entre ns um
  sacerdote, mas um crente do momento, que tirou simplesmente o chapu ao passar
  pela porta do templo. Orou e foi caminho'.

Se, alm do mal enunciado, h algum demrito nestas
  palavras,  serem elas a repetio do que por mais de uma vez se tem dito a
  propsito deste assunto.

Os que assim se pronunciam acrescentam que  nossa
  mocidade no faltam nem talento nem disposio para o teatro. E d-se como
  causa da nossa pobreza, nessa parte das letras, a falta de estmulo e de
  animao.

Em minha opinio, os que assim se exprimem no fazem mais
  que reproduzir a realidade das coisas.

No entrarei, por certo, na investigao do fato, nem
  procurarei demonstrar qual  esse estmulo que pe em desnimo as penas que
  mais habilitadas esto para o caso.

Uma coisa nos consola da deficincia de nossa literatura
  dramtica,  que, se as obras que possumos perdem na importncia numrica,
  ganham muito no valor literrio e moral.

Muito e medocre no , nunca foi riqueza. Pouco e bom,
  raro e superior, no sei que haja outra opulncia melhor, a no ser a que rene
  em alto grau as duas condies do nmero e do merecimento. Mas essa no 
  prpria de uma literatura, que, como a nossa, comea a formar-se.

Se h, portanto, razo para entristecer na pouca vida do
  teatro nacional, de outro lado h motivo de contentamento, quando se v que os
  frutos dessa pouca atividade so em grande parte bons e suculentos.

Um deles acaba de ser lanado  ansiedade pblica, nessa
  ceia sublime, em que, como diz um escritor, Shakespeare: d a comer e a beber a
  sua carne e o seu sangue.

O ltimo drama de Quintino Bocaiva, ao lado do mrito
  literrio, respira uma alta moralidade, duplo ponto de vista, em que deve ser
  considerado e em que mereceu os sinceros aplausos dos entendidos.

 sempre belo quando uma voz generosa se ergue, em nome da
  inteligncia e da probidade, para protestar contra as misrias sociais, com
  toda a energia de um carter e de uma convico.

E deve-se ter entusiasmo com a manifestao dessas
  convices e desses caracteres em um tempo, em que tudo o que  elevado se
  abate e desmorona.

O drama, de que se trata,  um desses protestos. Os mineiros da desgraa, os que
  fabricam,  custa das lgrimas e da fome, o castelo da sua prpria fortuna, os
  usurrios, enfim, so a disformidade social, que o autor ataca de frente, sem
  curar de saber at que ponto essas entidades so aceitas pela sociedade.

Aceitas pela sociedade? Parece absurdo. Mas no ; so
  aceitas, acatadas mesmo; o que o poeta diz no seu drama  a verdade, a verdade
  inteira; as comendas que lhes pe ao peito no so resultado de uma fantasia;
  eles so comendadores, porque neste pas maravilhoso, e neste tempo de
  milagres, remuneram-se todos os vcios, desde que todos os vcios pagam os
  pergaminhos das graas.

No encalo dessas entidades repulsivas vm outras, que,
  atravessando ligeiras o fundo do quadro, mal deixam sinais de si. Mas pertencem
  ainda ao nmero das que esto em oposio com a gente sria e honrada.

O autor teve largo campo para exercer a sua censura, e
  aproveitou-o bem. Retratou o tipo, apresentando duas figuras -- Vidal e
  Venncio. Vidal  o usurrio dramtico. Venncio  o usurrio cmico. Ambos so
  hediondos; o gesto feroz de um e o riso alvar de outro traduzem a mesma coisa.
  So o verso e o anverso da medalha; mas a medalha  a mesma. Eles seriam
  incompletos se no fossem hipcritas. Vidal e Venncio so hipcritas. Vidal
  finge-se o salvador de uma famlia para dar pasto  sua sensualidade. Vidal
  engana ao escolhido de sua futura mulher; ilude-a, a ela prpria. Venncio no
   menos fingido que seu scio. Em mais de uma ocasio d provas de saber em
  alto grau a arte exigida para ser de sua profisso.

Com tais predicados, estas duas criaturas acham-se
  moralmente unidas; o interesse comercial os liga mais, ligando-lhes as firmas.
  Trabalham de acordo para encher o mealheiro comum; e Deus sabe como se enche o
  mealheiro da usura. O da firma social de Vidal & Venncio enche-se pelo
  emprstimo, pelo penhor e pela moeda falsa.

A figura obrigada dos dramas modernos, conhecida
  geralmente pelo nome de Desgenais, tambm entra no drama. Essa  sempre a parte
  do autor;  pela boca sentenciosa do moralista que o dramaturgo moderno lana
  as censuras aos vcios da sociedade.

O Desgenais da pea  rude e grave, franco e digno. Diz
  aquilo que pensa, porque tem o tato dos homens com quem lida, e sabe que a
  dignidade no  o trao distintivo deles.

O moralista  sempre audaz, por isso mesmo que representa
  a minoria da sociedade.

Em minha opinio, o moralista nunca pode deixar de ser uma
  figura de conveno. Entre ns, pelo menos.  por isso que eu acho que no se
  deve exigir do autor as razes por que o fez orador ou no, e por que em tal
  ocasio no foi menos grave, e em tal outra, menos jovial. Ele  sentencioso, 
  quanto basta; ele censura, ele toca na chaga com a tranqilidade do mdico, com
  isso nos devemos contentar.

Paulo  o amante enternecido, que, intrigado por Vidal,
  torna-se, depois de um perodo de anos, o flagelo vivo do usurrio, desagravando
  a justia na entrega que faz de um ru.

Paulo  uma alma elevada e um nobre corao. Caixeiro de
  Joo Vieira, honrado negociante, estima-o como se pai lhe fora, isto nos dias
  da ventura como nos dias de infortnio. E s o deixa no dia em que a intriga de
  Vidal os separa para sempre.

Elvira, a filha de Joo Vieira,  uma figura de que o
  autor pouco tratou, mas que no deixa de contribuir com o seu quinho de
  bondade e virtude para o fundo do quadro sobre que ressaltam as duas figuras
  principais.

O peralvilho idiota e dissipador, o ministro infludo pelo
  deus Empenho, a mulher que se encarrega nos sales de aproximar as almas
  tristes e desconsoladas, l vero a sua prpria fotografia. O autor as copia e
  apresenta sem perturbar as aes do seu drama.

A ao  simples, e caminha facilmente. Tendo conseguido
  casar com a filha de Joo Vieira e realizar uma rpida fortuna, Vidal, que no
  se deteve no caminho das misrias, que sempre levou, v-se um dia diante de
  Paulo, a quem mais tarde devero a moralidade e a justia o seu desagravo.

Paulo, senhor do segredo da moeda falsa, correspondeu-se
  com Vidal na Europa, e um dia, havendo em mo tudo quanto  legalmente exigido,
  apresentou-se em casa de Vidal com os instrumentos da justia, que se apoderam
  dele.

Maurcio, o moralista, ofereceu um asilo  viva do usurrio, e tal  o desfecho do
  drama.

Tenho ouvido duas censuras. Versa uma sobre o desenlace,
  que se diz precipitado; a outra,  ainda sobre o desenlace, que deixa sobre o
  nome do filho de Elvira uma ndoa pela priso de seu pai.

No deixo de dar razo aos que acham que o autor
  precipitou o desfecho. O desfecho  tanto mais precipitado quanto que a ao s
  comea no terceiro ato, e os dois primeiros podem ser considerados o prlogo do
  drama.

Quanto  segunda censura, ho de me perdoar: no acho uma
  censura sria. O poeta dramtico tem o dever de copiar a parte da sociedade que
  escolhe, e ao lado dessa pintura pr os traos com que julga se deve corrigir o
  original. O corretivo existe no drama; o autor nada tem que ver com as conseqncias
  desse corretivo. So eles verossmeis? Do-se na vida real? Sem dvida que sim.
   quanto basta.

Os mineiros da desgraa, literariamente falando,  o que
  se pode chamar um belo livro: o estilo, fluente e brilhante; o dilogo, fcil e
  vivo; as cenas, bem dispostas e bem enredadas.

Como alcance moral,  um verdadeiro panfleto, onde muitas
  das excrescncias sociais podem encontrar uma linha que tratar a seu respeito.

O pblico, que o aplaudiu, mostrou estar agradado do modo
  por que se lhe falou.

Tocou-lhe no ntimo porque se lhe falou a verdade, e, como
  diz o mestre da stira moderna: rien
    n'est beau que le vrai.

Nutro um ardente desejo;  que o teatro nacional se
  enriquea de obras como esta, e que os que sentirem dentro de si a fibra
  dramtica, no a deixem palpitar
  em vo. O
  teatro  uma fora, fora como arte, fora
  como moral; no a inutilizem que  inutilizar o futuro.

 sociedade dramtica nacional devemos a exibio desta.
  Os seus diversos papis foram desempenhados com mais ou menos relevo.

24 de julho de 1861.

A
  morte de Joo Caetano

Est de luto a cena nacional.

Na idade de cinqenta e seis anos incompletos, depois de
  uma carreira de mais de trinta, faleceu o primeiro ator brasileiro, Joo
  Caetano dos Santos.

A vida de Joo Caetano era considerada como perdida, desde
  os primeiros meses da sua enfermidade.

Esperava-se a todo o momento que o esprito, quase despido
  do invlucro terreno, fugisse de todo a essas prises, para remontar  ptria
  da imortalidade.

Foi o que se verificou na segunda-feira passada.

 intil indicar o grau da perda que esta morte trouxe ao
  Brasil. Ningum que tenha visto o artista pode alegar ignorncia.

Dotado de talento superior e admirveis dotes, soube Joo
  Caetano, durante a longa carreira que percorreu, conquistar o lugar mais
  preeminente da cena brasileira, sem conflito de emulao.

Suas criaes foram em grande nmero. No drama e na
  tragdia no teve nunca quem o igualasse porque havia nele,  falta de
  preceitos, a intuio que do os talentos superiores.

Falta de preceitos, disse eu, e nisto uso para com o
  artista finado de um dos mais imprescritveis deveres. Seria fazer ato de
  deslealdade, nesta hora em que se lhe desvaneceram todas as iluses, ocultar os
  pontos negros do sol da sua glria. O que se deve fazer, por um sentimento de
  justia,  deixar firmado que a arte dramtica no Brasil sempre brilhou pela
  ausncia de ensino profissional. Todos os esforos individuais nada puderam
  plantar que subsistisse. Qualquer que fosse a latitude das suas eminentes
  faculdades, no era fcil a Joo Caetano resistir  atmosfera viciada que
  respira o teatro brasileiro.

Contriburam no seu tanto para esse deplorvel resultado
  as vitrias prematuras do palco. As platias soberanas, na distribuio dos
  sufrgios, no conhecem nem se empenham pela observncia estrita do catecismo
  da arte. O artista as comovia e exaltava, e o aplauso fervente, ruidoso,
  espontneo acolhia os rasgos de talento confiante de si.

De sucesso em sucesso, verde de anos, convencido da
  prpria capacidade, o artista deixou-se levar por essa onda, desassombrado de
  mulos, embebido no presente e descuidoso do porvir. Tal foi o seu erro ou a
  sua fatalidade. Estava s na altura
  em que Deus
  o pusera, via correr os seus dias
  marcados por ovaes, e, sem contradita nem competncia, no puderam as suas
  faculdades adquirir o sumo grau da necessria perfeio.

 justo dizer que muitas vezes os juzes severos tiveram
  ocasio de reconhecer-lhe certa aplicao do esprito ao estudo aprofundado dos
  caracteres e das paixes. Nessas ocasies o artista mostrava que podia tirar de
  seus prprios esforos alguma coisa daquilo que s o ensino organizado deve garantir.
  Desigual, embora, ele tinha muito de vitria certa e legtima em que a parte
  culta dos espectadores lhe dava, sem regateio, aplausos espontneos.

Dessa ordem de criaes citarei uma das ltimas, o Augusto
  do Cinna,
  em que Joo Caetano
  ,
  perfeitamente convencido da natureza da personagem que tinha a representar e da
  importncia do poema de Corneille, deu a ambos, no que lhe tocava, o cunho da
  verdade e da elevao, sem o qual ficava desrespeitada a obra do divino poeta.

J rendi a devida homenagem  superioridade do talento que
  se acaba de perder. No me cansarei de repeti-lo: mesmo imperfeito,
  destacava-se ele soberanamente do grupo dos demais talentos. Tinha por si, nas
  ocasies supremas, uma inspirao que em vo se procurar nos talentos de ordem
  inferior.

O nome de Joo Caetano ficar nos anais do teatro e
  chegar  memria dos vindouros. Mas  aqui o ponto de maior tristeza. O que 
  a venerao da posteridade pelos artistas de teatro? As cenas palpitantes, as
  paixes tumulturias, as lgrimas espontneas, os rasgos do gnio, a alma, a
  vida, o drama, tudo isso acaba com a ltima noite do ator, com as ltimas
  palmas do pblico. O que o torna superior acaba nos limites da vida; vai 
  posteridade o nome e o testemunho dos contemporneos, nada mais.

Sede poeta, escultor, pintor ou msico, ficai certo de que
  as mesmas sensaes, do mesmo entusiasmo que as vossas obras excitarem aos
  contemporneos, ho de fazer estremecer a posteridade. O poema, a esttua, a
  tela, a partitura, levaro aos olhos e ao corao dos vindouros a alma e o
  gnio de Tasso, Canova, Rafael ou Mozart. Esta metempsicose perpetua a poro
  superior de poeta e do artista, e a posteridade, em vez de um nome frio e mudo,
  recebe inteiro o artista e o poeta.

Mas o artista dramtico, esse, destinado s comoes
  passageiras de uma noite, no tem lauda ou pedra em que fixar a partcula
  divina que o anima. A sepultura o recebe todo, exceto o nome, isto , o que ele
  tem menos de sua alma. Permitam-me uma figura que, por gasta, no perde o
  cabimento:  este o caso daquela sombria e impetuosa corrida de Masepa atado ao
  corcel, o homem atado  vida, diferindo a realidade da fico potica, em
  acabar o homem com a vida, sem nada mais deixar  memria da humanidade do que
  um nome e uma legenda.

Roscius e Garrik sabe-se que eram os nomes de dois membros
  da famlia, a que pertencia Joo Caetano. Mas o entusiasmo que o povo de Roma e
  o povo de Londres sentiam quando essas duas criaturas inspiradas subiam ao
  tablado,  isso objeto da simples tradio; a fortuna adquirida pelo primeiro 
  custa de seus talentos, a honra obtida pelo segundo de ir, como Newton, para os
  jazigos de Westminster, no nos d o grau de entusiasmo, nem as sensaes
  experimentadas pelos respectivos contemporneos.  o que diro os vindouros a
  respeito de Joo Caetano, cujos triunfos ns celebramos muitas vezes com a
  exaltao mais febril.

Falemos agora do homem. Dizem que Joo Caetano morreu na
  plena contrio da conscincia. Avizinhando-se da morte, sentiu que carecia
  dessa purificao para ir ter com Deus. 'Estou, dizia ele, estudando um
  difcil papel, em que no sei se ganharei absolvio ou pateada'.

Destinado a mudar de paixes e de caracteres em todos os
  dias da sua vida, era-lhe de grande consolao achar em si,  beira da
  sepultura, o sentimento da prpria individualidade. No lhe foi difcil medir o
  valor das coisas perecveis da terra em comparao com as glrias perptuas da
  outra vida. Que lhe restava dos triunfos de uma to longa carreira? Nem as
  flores que duraram pouco mais que o estrpito das palmas e dos bravos. Tal foi
  o sentimento do moribundo. Fez-se um grande silncio em roda de si e ele olhou
  contrito e esperanoso para a grande estrada que ia percorrer. A inspirao e a
  contrio valem na vida de alm-tmulo: Joo Caetano chegou, a esta hora, ao
  termo da sua apoteose.

Enquanto ele vai e goza do ltimo descanso, c ficam os
  outros na labutao, caminhando de tentativa em tentativa, entre iluses e
  desiluses, para o mesmo termo comum.

E  pouco depois da morte de Joo Caetano que aparece, no
  um talento igual (quando o teremos?), mas uma obra e uma idia, isto , uma
  tentativa de trabalho srio e profcuo.

 deste modo que se escoam os dias e se prendem, um ao
  outro, o elo de ouro e o elo de ferro.

No se contrarie as disposies naturais da vida, e d-se
  a cada coisa o tom que lhe  devido, -- tristeza para os que so tristes, --
  alegrias para os que folgam.

Anuncia-se para hoje a reabertura do Ateneu Dramtico, com
  uma pea nova do teatro portugus e um quadro vivo, O Dilvio Universal.

O nosso pblico lembra-se do antigo Ateneu e das
  esperanas que aquela instituio fez conceber a toda a gente. Havia razes
  para isso, j pela composio do quadro da companhia, j pelo nome da pessoa
  que dirigia a instituio. Na verdade, quando um homem de letras dirige uma
  instituio dramtica (e nunca deviam ser outros) acumulam-se as probabilidades
  de uma direo sisuda e proveitosa.

Aquela o foi, e se no acompanhou maior proveito aos
  esforos, que ela empregou, deve-se isso a causas mltiplas e diversas que no
  desfiarei por mui sabidas.

No serviu a lio do passado, e com igual coragem os
  artistas que compunham o antigo Ateneu anunciam agora a reabertura do teatro.
  Liga-se  nova direo o nome do hbil cengrafo Joo Caetano Ribeiro.

As generosas tentativas devem sempre achar o apoio de
  todos:  dever dar-se-lhes, em falta de outra, a sustentao moral do aplauso.

Aplauda-se, portanto, mais esta e consagre-se o fato 
  espera da realizao.

Os nomes dos artistas reunidos na nova organizao, uns
  pelo que provaram, outros pelas esperanas que fazem conceber, tm direito 
  nossa confiana e  nossa expectativa.

Irei hoje assistir ao espetculo de abertura, e direi na
  prxima semana tudo quanto me sugerir o trabalho da nova empresa, com a
  benevolncia que os seus esforos merecem e a severidade indispensvel para a
  frutificao de todas as idias.

Tal  o trabalho dos que amam as artes, trabalho que, a
  despeito dos desenganos e malogros, deve amparar os artistas, at que a
  iniciativa oficial venha dar corpo e realidade ao desejo e  esperana de
  todos, criando um teatro de escola nacional.

No sentido de realizar este pensamento representou j ao
  governo a direo do Ateneu Dramtico. Que resultar desta tentativa? A
  magnitude da idia, a necessidade e a oportunidade esto respondendo em favor
  da arte.

Voltemos bruscamente os olhos para outro assunto.

Recebi de Buenos Aires uma ode escrita pelo poeta
  argentino Carlos Guido y Spano sobre a invaso do Mxico.  um ardente protesto
  de indignao contra o ato de Sua Majestade o Imperador dos Franceses, isto ,
  o recurso da justia contra a violao do direito em tempos que mais parecem de
  ferro que de luz.

Revolta-se a alma do homem e a musa do poeta contra a
  prepotncia armada e disfarada. Em casos tais no se escolhem expresses nem
  se dissimulam sentimentos: falia-se franca e rudemente como permitem a dor e a
  irritao. Tal  o carter da poesia de Carlos Guido.

Nem outro poderia ser o tom de uma poesia, que tratasse de
  tamanho infortnio. Como dirigir em certos casos o mpeto e alvoroo?  a
  comoo do momento que domina tudo, como no cntico dos hebreus, ao escaparem
  das hostes de Fara; a um tempo e tumultuariamente celebra Israel o poder do
  Senhor e a submerso do inimigo.

Quem de entre os heris  semelhante a ti, Senhor?

Estendeste a tua mo e o mar os devorou...

Ah! que no pudesse o poeta repetir as mesmas palavras de
  Israel! No se abriu o mar, antes cmplice da violao, deu livre caminho s
  naus dos invasores. Estas foram levar a uma nao fraca a morte e a desolao.
  Tinham os soldados da invaso o direito do nmero e do valor marcial, isto , o
  supremo direito nos conflitos, em que a conscincia no toma parte. Entraram,
  destruram, violentaram, arrasaram, e Puebla, l diz o poeta,

Podr
  no ser ciudad, mas ser templo.

Por esses feitos hericos, queima-se incenso nos altares
  do Deus da justia, e dizem que se aumentou o sol da glria francesa.

E esta glria  j diversa daquela do tempo de Salstio. --
  Inverteram-se os papis:  Roma quem combate por salvar-se e a antiga Glia
  quem manda ao longe as suas hostes -- para dominar.

 tempos...

1 de setembro, 1863.

Os primeiros amores de Bocage

Carta ao Sr. Conselheiro J. F. de Castilho

Mestre e senhor. -- Conversemos de um grande poeta e de uma
  excelente obra, de Bocage e dos Primeiros
    amores de Bocage. Tem V. Ex., mais do que nenhum outro, o direito de ver o
  seu nome no alto destas linhas: foi V. Ex. o primeiro que, depois de acurado
  estudo e prodigiosa investigao, nos deu uma excelente biografia do grande
  poeta, que serviu de fonte para outros trabalhos, e a que no duvidou recorrer
  o ilustre autor dos Primeiros amores.
  Tecer alguns aplausos a V. Ex. no meio dos aplausos ao autor da comdia, honrar
  a um tempo o bigrafo e o poeta, o historiador e o intrprete,  um dever de
  justia literria, de que eu me no podia esquecer neste momento.

Acresce ainda que, por uma coincidncia auspiciosa para as
  letras, na poca em que o Sr. Mendes Leal traava a sua comdia, V. Ex. entrava
  em novas investigaes acerca da vida de Bocage, e,  mesma hora, desenhava-se
  no pensamento do erudito e no pensamento do poeta a grande figura do autor da Pena de Talio.

 a V. Ex., portanto, que eu devo dar conta das minhas
  reflexes acerca dos Primeiros amores de
    Bocage.

O que eu admiro, depois do talento, no autor dos Primeiros amores  a dupla qualidade de
  fecundo e laborioso. De ordinrio, a poltica, quando rouba um homem s letras,
  no o restitui, ou o restitui tarde. O Sr. Mendes Leal, solicitado pela deusa
  do templo, nunca desertou do templo das musas, nem se filiou na igreja da poltica.
  Serviu  causa pblica, quando o voto da nao o chamou a isso, mas voltou
  sempre  terra natal da poesia, onde se lhe abriram os olhos, e donde encetou a
  carreira que tem percorrido at hoje. Um dia, resolveu o poeta afastar-se da
  poltica, e o voto popular aceitou a resoluo, retirando-lhe o diploma de
  deputado; mas de volta ao templo das musas, alcanou ele outro diploma de maior
  alcance, sem circular nem luta, -- escreveu esta, a melhor de todas as suas
  obras dramticas. Os trabalhos do ministro no cansaram o poeta; as musas que o
  esperavam, receberam-no amantes e dceis, e uma coroa de louros substituiu o
  chapu ministerial. A ptria de V. Ex. tinha menos um militante ativo da
  poltica, mas a nossa ptria potica contava mais um monumento.

O assunto de Bocage no era fcil.  coisa reconhecida que
  os homens de pensamento so difceis de transportar para o teatro, ao passo que
  a se do perfeitamente os homens de ao. Alm disso, a prpria figura de
  Bocage tem uma feio histrica com que a arte devia lutar. Mas de todas estas
  dificuldades poderia triunfar uma inteligncia esclarecida. Tudo estava no modo
  por que o autor encarasse o assunto. Se ele atendesse  lio clssica,
  marcando o limite que separa a arte e a histria; se, com a segunda vista da
  musa, soubesse tirar das entranhas do assunto e do tempo aquilo e to somente
  aquilo que  digno da arte, fazendo-se imaginoso e intrprete, a obra devia ser
  necessariamente boa e o assunto fecundo. Este foi o caminho seguido pelo Sr.
  Mendes Leal, e eis a porque, alm de uma excelente comdia, deu-nos tambm uma
  lio profcua.

A comdia  hoje um estudo descurado. Crismou-se de
  comdia uma forma sem sabor, sem dignidade, sem elevao; uma coisa que nem  a
  farsa nem a comdia, tirando um pouco ao inspido vaudeville, s vezes mais chulo, s vezes mais srio,  verdade,
  mas daquela seriedade que consiste em no contrair os msculos do rosto, e nada
  mais.

Alguns talentos de certa ordem, l como c, libertaram-se
  dessa dependncia de mau gosto, e vingaram um pouco os foros de Thalia, nestes
  ltimos tempos; mas alm de serem reduzidas em nmero, as obras que serviram de
  protesto no visavam to grande alcance que pudessem fazer uma revoluo.

Escrevendo os Primeiros
  amores de Bocage, o autor, segundo declara, quis abranger em uma s obra os
  trs gneros da comdia, a de caracteres, a de costumes, e a de enredo. Nenhuma
   fcil, e a primeira  sobremodo difcil. Precisava empregar para esses trs
  gneros, trs elementos principais: -- a inveno lhe forneceria a trama, a
  erudio o iniciaria na pintura do tempo, a observao lhe daria a anlise dos
  caracteres. A obra era de afrontar nimos acanhados; mas um talento de
  iniciativa, como o do autor, achava na grandeza do cometimento estmulo e
  fora.

Os caracteres, --  esse um dos principais mritos da obra,
  -- esto desenhados com suma perfeio. V. Ex. ter notado, sobretudo, a arte
  suprema com que o autor transportou Bocage para a cena. A opinio geral a
  respeito deste homem extraordinrio, como lhe chama Alexandre Herculano,  que
  era um devasso, dotado de um engenho que se afogava em genebra, cheio de vcios
  e defeitos. Bem sei que os bigrafos e os crticos esclarecidos, e  frente
  deles V. Ex., souberam ver em Bocage a parte nobre dos afetos e dos impulsos
  generosos; mas, a lei da biografia  imperiosa, e os desregramentos do poeta
  foram trazidos  luz, em toda a sua minuciosidade e plenitude. Uma coisa,
  porm,  a lei da biografia, e outra  a lei da comdia. Se a arte fosse a
  reproduo exata das coisas, dos homens e dos fatos, eu preferia ler Suetnio
  em casa, a ir ver
  em
    cena Corneille
  e Shakespeare.

O autor dos Primeiros
  amores tinha duas razes poderosas para pintar o Bocage que nos deu; a primeira
   a ordem particular, e refere-se  poca da comdia; ento o autor de
  'Leandro e Hero' entra na mocidade, ainda com o vio das primeiras
  iluses, transbordando de afetos, e j movido pela musa da indignao contra os
  vcios e os homens do seu tempo; a outra razo  de ordem geral, e tem
  aplicao  vida inteira do poeta. O autor, to consciencioso e to verdadeiro,
  compreendeu bem que as linhas smplices e caractersticas devem dominar os
  traos acidentais; o fundo do carter e da ndole de Bocage no eram os
  desregramentos referidos pela biografia e pela tradio oral. Se o autor
  fizesse deles a feio caracterstica e saliente do poeta, tanto na poca dos
  primeiros amores, como na dos ltimos, teria desconhecido a lei do teatro, e a
  sua obra ficaria condenada a uma morte prxima. Mas, o Sr. Mendes Leal sabe
  perfeitamente a distncia que h, entre os traos largos da pintura, e a
  implacvel minuciosidade do daguerretipo; no copiou a biografia,
  interpretou-a.

Assim que, veja V. Ex. como se houve ele no desenlace da
  comdia. Eu leio na biografia de Bocage, escrita por V. Ex., que a causa de
  ausentar-se de Lisboa o poeta foi o receio de que o conde de S. Vicente se
  vingasse dele por motivo de pasquins que se lhe atribuam, e que diziam
  respeito a uma morte praticada no beco da Espera. Nada disto se refere na
  comdia; a o motivo da partida do poeta para a ndia  um generoso sacrifcio
  de amor. Pois bem!  com ambas as mos que eu aplaudo este desenlace, to
  lgico e to digno de comdia e de Bocage me parece ele. Bocage amava
  estremecidamente na ocasio de deixar Portugal; os versos que ento escreveu
  do prova disso; era ele capaz de um sacrifcio? Era. E demais, retirando as
  suas pretenses  filha de D. Felcia, conservava ele a sua cara independncia,
  e abria diante de si horizontes novos e campo desconhecido. A est Bocage.

A mesma arte empregada na pintura de Bocage presidiu a dos
  outros caracteres; o comendador e o morgado so completos; um, empachado de
  erudio, astuto como um jesuta que , menos a roupeta; o outro, filaucioso,
  tolo, fanfarro; ambos ridculos e imorais; a morgada D. Felcia, Manoel
  Simes, Marialva, Mendes, D. Maria Joana, todos enfim, no primeiro, como no
  segundo plano, tm a feio histrica e a feio humana, procedem do tempo e
  falam a todos os tempos, condio essencial na arte. Todos esses grupos formam
  o quadro onde se destaca a figura de Bocage, e so igualmente o resumo da
  sociedade portuguesa, nos fins do sculo XVIII.

Dizendo que a comdia do Sr. Mendes Leal  uma boa comdia
  de costumes, eu no me refiro aos cales, aos mveis e ao pregoeiro do
  testamento da velha. Isso, que satisfaz os olhos dos curiosos, no  o estudo
  dos costumes do tempo, e do esprito da sociedade. Esse estudo, que tem mais
  valor aos olhos da crtica,  feito pelo Sr. Mendes Leal com raro discernimento
  e cuidado, e se outros mritos faltassem  pea, aquele a faria recomendvel no
  futuro.

No meio deste quadro, e para ligar os diversos caracteres
  que a se agitam, imaginou o autor uma ao simples e natural. Esta
  simplicidade  a parte que se considera mais fraca da pea; eu no condeno a
  simplicidade, nem reclamo as peripcias; nada mais simples que a ao do Misanthropo, e contudo eu dava todos os
  louros juntos do complexo Dumas e do complexo Scribe para ter escrito aquela
  obra-prima do engenho humano. O que eu reconheo, -- e  este o nico reparo que
  dirijo  comdia, --  que durante algum tempo, aquela mesma ao simples parece
  despir-se de interesse. Mas esse reparo no me saltou logo aos olhos, tanto
  sabe o autor interessar, mesmo quando a ao se recolhe aos bastidores.

Finalmente, para dar-lhe completa conta das impresses que
  recebi com a leitura e a representao dos Primeiros
    amores de Bocage, resta-me aplaudir o estilo da comdia, estilo elevado,
  brilhante, louo, cheio de imagens, no a rodo mas com aquela necessria
  economia potica, estilo verdadeiramente portugus, verdadeiramente de teatro:
  -- prosa to superior, que me consola de se haver proscrito os versos da cena,
  como antes me consolara a prosa do Cames,
  de Castilho Antnio, como ainda antes me consolara a prosa do Frei Luiz de Souza, de Garret.

Novas produes nos promete o autor dos Primeiros amores de Bocage. Conto que
  sejam dignas irms desta. E se a poltica for solicit-lo de novo, as musas
  agradecero ao poeta, se,  semelhana de Diocleciano, preferir a vida calma de
  Salona, s continuas agitaes do governo da repblica.

Desculpe V. Ex. o haver-lhe tomado tempo, e creia na
  sinceridade com que sou

Criado e admirador de V. Ex.

Machado de Assis.

15 de agosto de 1865.

O TEATRO NACIONAL

H UNS BONS trinta anos o Misantropo e o Tartufo faziam as delcias da sociedade fluminense; hoje seria difcil ressuscitar as duas imortais comdias. Querer isto dizer que, abandonando os modelos
  clssicos, a estima do pblico favorece a reforma romntica ou a reforma
  realista? Tambm no; Molire, Vtor Hugo, Dumas Filho, tudo passou de moda;
  no h preferncias nem simpatias. O que h  um resto de hbito que ainda
  rene nas platias alguns espectadores; nada mais; que os poetas dramticos, j
  desiludidos da cena, contemplam atentamente este fnebre espetculo; no os
  aconselhamos, mas  talvez agora que tinha cabimento a resoluo do autor das Asas de um Anjo quebrar a pena e fazer dos pedaos uma cruz.

Deduzir de semelhante estado a culpa do pblico, seria
  transformar o efeito
  em
    causa. O
  pblico no tem culpa nenhuma, nem do estado da
  arte, nem da sua indiferena por ela; uma prova disso  a solicitude com que
  corre a ver a primeira representao das peas nacionais, e os aplausos com que
  sempre recebe os autores e as obras, ainda as menos corretas. Graas a essa
  solicitude, mais claramente manifestada nestes ltimos anos, o teatro nacional
  pde enriquecer-se com algumas peas de vulto, frutos de uma natural emulao,
  que, alis, tambm amorteceu pelas mesmas causas que produziram a
  indiferena pblica. Entre a sociedade e o teatro, portanto, j no h liames
  nem simpatias; longe de educar o gosto, o teatro serve apenas para desenfastiar
  o esprito, nos dias de maior aborrecimento. No est longe a completa
  dissoluo da arte; alguns anos mais, e o templo ser um tmulo.

As testemunhas do tempo dizem que as comdias citadas
  acima acham sempre o pblico disposto e atencioso; era um sintoma excelente. 
  verdade que, depois do Tartufo, aparecia Pourcegnac e mais o
  cortejo dos boticrios e dos trues, no dia seguinte ao do Misantropo,
  ia-se ver o doutoramento do Doente Imaginrio. Neste ponto o teatro
  brasileiro de 1830 no podia andar adiante da Comdia Francesa, onde, segundo
  cremos, ainda se no dispensam os acessrios daquelas duas excelentes farsas,
  se  que se pode chamar farsa ao Doente Imaginrio.

Os diretores daquele tempo pareciam compreender que o
  gosto devia ser plantado a pouco e pouco, e para fazer aceitar o Molire do
  alto cmico, davam tambm o Molire do baixo cmico; inimitveis ambos.
  Fazia-se o que, em matria financeira, se chama dar curso forado s notas, com
  a diferena, porm, de que ali obrigava-se o curso do ouro de lei. Nem eram
  esses os nicos exemplos de preciosas exumaes; mas nem esses nem outros
  puderam subsistir; causas, em parte naturais, em parte desconhecidas, trouxeram
  ao teatro fluminense uma nova situao.

No  preciso dizer que a principal dessas causas foi a
  reforma romntica; desde que a nova escola, constituda sob a direo de Vtor
  Hugo pde atravessar os mares, e penetrar no Brasil, o teatro, como era
  natural, cedeu ao impulso e aceitou a idia triunfante. Mas como? Todos sabem
  que a bandeira do Romanticismo cobriu muita mercadoria deteriorada; a idia da
  reforma foi levada at aos ltimos limites, foi mesmo alm deles, e da nasceu
  essa coisa hbrida que ainda hoje se escreve, e que, por falta de mais decente
  designao, chama-se Ultra-romanticismo. A cena brasileira,  exceo de
  algumas peas excelentes, apresentou aos olhos do pblico uma longa srie de
  obras monstruosas, criaes informes, sem nexo, sem arte, sem gosto, nuvens
  negras que escureceram desde logo a aurora da revoluo romntica. Quanto mais
  o pblico as aplaudia, mais requintava a inventiva dos poetas; at que a arte,
  j trucidada pelos maus imitadores, foi empolgada por especuladores excelentes,
  que fizeram da extravagncia dramtica um meio de existncia. Tudo isso
  reproduziu a cena brasileira, e raro aparecia, no meio de tais monstruosidades,
  uma obra que trouxesse o cunho de verdadeiro talento.

Sem haver terminado o perodo romntico, mas apenas
  amortecido o primeiro entusiasmo, aportou s nossas plagas a reforma realista,
  cujas primeiras obras foram logo coroadas de aplausos; como anteriormente,
  veio-lhes no encalo a longa srie das imitaes e das exageraes; e o
  Ultra-realismo tomou o lugar do Ultra-romanticismo, o que no deixava de ser montono.
  Aconteceu o mesmo que com a reforma precedente; a teoria realista, como a
  teoria romntica, levadas at  exagerao, deram o golpe de misericrdia no
  esprito pblico. Salvaram-se felizmente os autores nacionais. A estas causas,
  que chamaremos histricas, juntam-se outras, circunstanciais ou fortuitas, e
  nem por isso menos poderosas; h, porm, uma que vence as demais, e que nos
  parece de carter grave: apont-la  mostrar a natureza do remdio aplicvel 
  doena.

Para que a literatura e a arte dramtica possam
  renovar-se, com garantias do futuro, torna-se indispensvel a criao de um
  teatro normal. Qualquer paliativo, neste caso, no adianta coisa nenhuma, antes
  atrasa, pois que  necessrio ainda muito tempo para colocar a arte dramtica
  nos seus verdadeiros eixos. A iniciativa desta medida s pode partir dos
  poderes do Estado; o Estado, que sustenta uma academia de pintura, arquitetura
  e estaturia, no achar razo plausvel para eximir-se de criar uma academia
  dramtica, uma cena-escola, onde as musas achem terreno digno delas, e que
  possa servir para a reforma necessria no gosto pblico.

Argumentar com o exemplo do estrangeiro seria, sobre
  prolixo, ocioso. Basta lembrar que a idia da criao de um teatro normal j
  entrou nas preocupaes do governo do Brasil. O Sr. Conselheiro Sousa Ramos,
  quando ministro do imprio, em 1862, nomeou uma comisso composta de pessoas
  competentes para propor as medidas tendentes ao melhoramento do teatro
  brasileiro. Essas pessoas eram os Srs. Conselheiro Jos de Alencar e Drs.
  Macedo e Meneses e Sousa. Alm disso, consta-nos de fonte insuspeita que S.
  Ex. escrevera  ao Sr. Porto Alegre pedindo igualmente o auxlio das suas
  luzes neste assunto e existe a resposta do autor do Colombo nos arquivos
  da secretaria de Estado. No podemos deixar de mencionar com louvor o nome do
  Sr. Conselheiro Sousa Ramos pelos passos que deu, e que, infelizmente, no
  tiveram resultado prtico.

A carta do Sr. Porto Alegre ocupa-se mais detidamente das
  condies arquitetnicas de um edifcio para servir simultaneamente de teatro
  dramtico e teatro lrico. Os pareceres da comisso  que tratam mais
  minuciosamente do assunto; dizemos os pareceres, por que o Sr. Dr. Macedo
  separou-se da opinio dos seus colegas, e deu voto individual. O parecer da
  maioria da comisso estabelece de uma maneira definitiva a necessidade da
  construo de um edifcio destinado  cena dramtica e  pera nacional. O novo
  teatro deve chamar-se, diz o parecer, Comdia Brasileira, e ser o teatro da
  alta comdia. Alm disso, o parecer mostra a necessidade de criar um
  conservatrio dramtico, de que seja presidente o inspetor-geral dos teatros, e
  que tenha por misso julgar da moralidade e das condies literrias das peas
  destinadas aos teatros subvencionados, e da moralidade, decncia, religio,
  ordem pblica, dos que pertencerem aos teatros de particulares. A Comdia
  Brasileira seria ocupada pela melhor companhia que se organizasse, com a qual o
  governo poderia contratar, e que receberia uma subveno, tirada, bem como o
  custo do teatro, dos fundos votados pelo corpo legislativo para a academia da
  msica. Os membros do conservatrio dramtico, nomeados pelo governo e
  substitudos trienalmente, perceberiam uma gratificao e teriam a seu cargo a
  inspeo interna de todos os teatros.

O parecer do Sr. Dr. Macedo, concordando, em certos
  pontos, com o da maioria da comisso, separa-se, entretanto, a outros
  respeitos, e tais so, por exemplo, o da construo de um teatro, que no julga
  indispensvel, e da organizao do conservatrio e da companhia normal. A
  maioria da comisso fez acompanhar o seu parecer de um projeto para a criao
  do novo conservatrio dramtico e providenciando acerca da construo de um
  teatro de Comdia Brasileira. O Sr. Dr. Macedo, alm do parecer, deu tambm um
  projeto para a organizao provisria do teatro normal, acompanhado de um
  oramento de despesa e receita.

Esta simples exposio basta para mostrar o zelo da comisso
  em desempenhar a incumbncia do governo, e neste sentido as vistas deste no
  podiam ser melhor auxiliadas. Dos dois pareceres o que nos agrada mais  o da
  maioria da comisso por ser o que nos parece abranger o interesse presente e o
  interesse futuro, dando  instituio um carter definitivo, do qual depende a
  sua realizao. No temos grande f numa organizao provisria; a necessidade
  das aulas para a educao de artistas novos e aperfeioamento dos atuais, pode
  ser preenchida mesmo com o projeto da maioria da comisso, e julgamos esse
  acrscimo indispensvel, porquanto  preciso legislar principalmente para o
  futuro. O governo do Brasil tem-se aplicado um pouco a este assunto, e era
  conveniente aproveitar-lhe os bons desejos  e propor logo uma organizao
  completa e definitiva. Fora sem dvida para desejar que a Comdia Brasileira
  ficasse exclusivamente a cargo do governo, que faria dela uma dependncia do
  ministrio do imprio, com oramento votado pelo corpo legislativo. Nisto no
  vemos s uma condio de solenidade, mas tambm uma razo de segurana futura.

Criando um conservatrio dramtico, assentado em bases
  largas e definidas, com carter pblico, a comisso atentou para uma
  necessidade indeclinvel, sobretudo quando exige para as peas da Comdia
  Brasileira o exame das condies literrias. Sem isso, a idia de um
  teatro-modelo ficaria burlada, e no raro veramos invadi-lo os brbaros da
  literatura. No regmen atual, a polcia tem a seu cargo o exame das peas no
  que respeita  moral e ordem pblica. No temos presente a lei, mas se ela no
  se exprime por outro modo,  difcil marear o limite da moralidade de uma pea,
  e nesse caso as atribuies da autoridade policial, sobre incompetentes, so
  vagas, o que no torna muito suave a posio dos escritores.

Sabemos que, alm da comisso nomeada pelo Sr. Conselheiro
  Sousa Ramos, foi posteriormente consultada pelo Sr. Marqus de Olinda uma
  pessoa muito competente nesta matria, que apresentou ao atual Sr. Presidente
  do Conselho um longo parecer. Temos razo para crer tambm que o Sr. Porto
  Alegre, consultado em 1862, j o tinha sido em 1853 e 1856. V-se, pois, que a
  criao do teatro normal entra h muito tempo nas preocupaes do governo. 
  urgncia da matria no se tirava o carter de importncia e assim pode-se
  explicar o escrpulo do governo em no pr mos  obra, sem estar perfeitamente
  esclarecido. Os nomes das pessoas consultadas, o desenvolvimento das diferentes
  idias emitidas, e sobretudo o estado precrio da literatura e da arte
  dramtica, tudo est dizendo que a Comdia Brasileira deve ser criada de uma
  maneira formal e definitiva.

Esta demora em executar uma obra to necessria ao pas
  pode ter causas diversas, mas seguramente que uma delas  a no permanncia dos
  estadistas no governo, e a natural alternativa da balana poltica; cremos,
  porm, que os interesses da arte entram naquela ordem de interesses perptuos
  da sociedade, que andam a cargo da entidade moral do governo, e constituem,
  nesse caso, um dever geral e comum. Se, depois de tantos anos de amarga
  experincia, e dolorosas decepes, no vier uma lei que ampare a arte e a
  literatura, lance as bases de uma firme aliana entre o pblico e o poeta, e
  faa renascer a j perdida noo do gosto, fechem-se as portas do templo, onde
  no h nem sacerdotes nem fiis.

Na esperana de que esta reforma se h de efetuar,
  aproveitaremos o tempo, enquanto ela no chega, para fazer um estudo dos nossos
  principais autores dramticos, sem nos impormos nenhuma ordem de sucesso, nem
  fixao de pocas, e conforme nos forem propcios o tempo e a disposio. Ser
  uma espcie de balano do passado: a Comdia Brasileira iniciar uma nova era
  para a literatura.

Terminaramos aqui, se um ilustre amigo no nos houvesse
  mimoseado com alguns versos inditos e recentes do poeta brasileiro, o Sr.
  Francisco Muniz Barreto. Todos sabem que o Sr. Muniz Barreto  celebrado por
  seu raro talento de repentista; os versos em questo foram improvisados em
  circunstncias singulares. Achava-se o poeta em casa do cnsul portugus na
  Bahia, onde igualmente estava Emlia das Neves, a talentosa artista, to
  aplaudida nos nossos teatros. Conversava-se, quando o poeta batendo aquelas
  palmas do costume, que no tempo de Bocage anunciavam os improvisos, comps de
  um jacto este belssimo soneto.

Por sbios e poetas sublimado,

Teu nome ilustre pelo orbe voa:

Outra Ristri a fama te apregoa,

Outra Raquel, no portugus tablado.

Ao teu poder magntico, prostrado,

O mais rude auditrio se agrilhoa;

Despir-te a fronte da imortal coroa

No pode o tempo, no consegue o fado.

De atriz o teu condo  sem segundo;

Na cena, a cada instante, uma vitria

Sabes das almas conquistar no fundo.

Impera, Emlia!  teu domnio -- a histria!

Teu slio -- o palco; tua corte -- o mundo;

Teu cetro o drama; teu diadema -- a glria.

Ouvindo estes versos to vigorosamente inspirados, Emlia
  das Neves cedeu a um movimento natural e correu a abraar o poeta,
  retribuindo-lhe a fineza, com a expresso mais agradvel a uma fronte anci,
  com um beijo. Foi o mesmo que abrir uma nova fonte de improviso; sem deter-se
  um minuto, o poeta produziu as seguintes quadras faceiras e graciosas:

Como, sendo tu das Neves,

Musa, que vieste aqui,

Assim queima o peito  gente

Um beijo dado por ti?!

O que na face me deste,

Que acendeu-me o corao,

No foi sculo de -- neves,

Foi um beijo de vulco.

Neves -- tenho eu na cabea,

Do tempo pelos vaivns;

Tu s s -- Neves -- no nome,

T nos lbios fogo tens.

Beijando, no s -- das Neves;

Do sol, Emlia, tu s

Como neves se derretem

Os coraes a teus ps.

O meu, que -- neve -- j era,

Ao toque do beijo teu,

Todo arder senti na chama,

Que da face lhe desceu.

Errou, quem o sobrenome

De -- Neves -- te ps, atriz.

Que s das lavas no das neves,

Minha alma, acesa,  me diz.

Chamem-te, embora, das Neves;

Vesvio te hei de eu chamar,

Enquanto a impresso do beijo,

Que me deste, conservar.

Oh! se de irm esse beijo

Produziu tamanho ardor,

Que incndio no promovera,

Se fora um beijo de amor! ...

No te chames mais das Neves,

Mulher que abrasas assim;

Chama-te antes das Luzes,

E no te esqueas de mim.

Se me prometes, Emlia,

De hora em hora um beijo igual,

Por sobre neves ou fogo

Dou comigo em Portugal.

Como dissemos, estes versos so ainda inditos; e cabe
  aqui aos leitores do Dirio do Rio o prazer de os receber em primeira
  mo.

Semana Literria, 13 de fevereiro, 1866.

O TEATRO DE GONALVES DE
  MAGALHES

O NOME do Sr. Dr. Magalhes, autor de Antnio Jos,
  est ligado  histria do teatro brasileiro; aos seus esforos deve-se a reforma
  da cena tocante  arte de declamao, e as suas tragdias foram realmente o
  primeiro passo firme da arte nacional. Foi na inteno de encaminhar o gosto
  pblico, que o Sr. Dr. Magalhes tentou aquela dupla reforma, e se mais tarde
  voltou  antiga situao, nem por isso se devem esquecer os intuitos do poeta e
  os resultados da sua benfica influncia.

Entretanto, o Sr. Dr. Magalhes s escreveu duas
  tragdias, traduziu outras, e algum tempo depois, encaminhado para funes
  diversas, deixou o teatro, onde lhe no faltaram aplausos. Teria ele
  reconhecido que no havia no seu talento as aptides prprias para a arte
  dramtica? Se tal foi o motivo que o levou a descalar o coturno de Melpneme,
  crtica sincera e amiga no pode deixar de aplaudi-lo e estim-lo. Poeta de
  elevado talento, mas puramente lrico, essencialmente elegaco, buscando casar
  o fervor potico  contemplao filosfica, o autor de Olgiato no  um
  talento dramtico na acepo restrita da expresso.

Quando a sua musa avista de longe a cidade eterna, ou pisa
  o gelo dos Alpes, ou atravessa o campo de Waterloo, v-se que tudo isso 
  domnio dela, e a linguagem em que exprime os seus sentimentos  uma linguagem
  prpria. O tom da elegia  natural e profundo nas  poucas pginas dos Mistrios,
  livro afinado pela lamentao de J e pela melancolia de Young. Mas a poesia
  dramtica no tem esses caracteres, nem essa linguagem; e o gnio potico do
  Sr. Dr. Magalhes, levado, por natureza e por estudo,  meditao expresso dos
  sentimentos pessoais, no pode afrontar tranqilamente as luzes da rampa.

Isto posto, simplifica-se a tarefa de quem examina as suas
  obras. O que se deve procurar ento nas tragdias do Sr. Dr. Magalhes no  o
  resultado de uma vocao, mas simplesmente o resultado de um esforo
  intelectual, empregado no trabalho de uma forma que no  a sua. Mesmo assim,
  no  possvel esquecer que o Sr. Dr. Magalhes  o fundador do teatro
  brasileiro, e nisto parece-nos que se pode resumir o seu maior elogio.

Quando o Sr. Dr. Magalhes escreveu as suas duas
  tragdias, estava ainda em muita excitao a querela das escolas; o rudo da
  luta no continente europeu vinha ecoar no continente americano; alistavam-se
  aqui romnticos e clssicos; e todavia o autor de Antnio Jos no se
  filiou nem na igreja de Racine, nem na igreja de Vtor Hugo.

O poeta faz essa confisso nos prefcios que acompanham as
  suas duas peas, acrescentando que, no vendo verdade absoluta em nenhum dos
  sistemas, fazia as devidas concesses a ambos. Mas, apesar dessa confisso,
  v-se que o poeta queria principalmente protestar contra o caminho que levava a
  poesia dramtica, graas s exageraes da escola romntica, procurando
  infundir no esprito pblico melhor sentimento de arte. Poderia consegui-lo, se
  acaso exercesse uma ao mais eficaz mediante um trabalho mais ativo, e uma
  produo mais fecunda; o seu exemplo despertaria outros, e os talentos
  nacionais fariam uma cruzada civilizadora. Infelizmente no aconteceu assim.
  Apareceram,  verdade, depois das obras do poeta, outras obras dignas de
  ateno e cheias de talento; mas desses esforos isolados e intermitentes
  nenhuma eficcia podia resultar.

O assunto de Antnio Jos  tirado da histria
  brasileira. Todos conhecem hoje o infeliz poeta que morreu numa das hecatombes
  inquisitoriais, por cuja renovao ainda suspiram as almas beatas. Pouco se
  conhece da vida de Antnio Jos, e ainda menos se conhecia, antes da tragdia
  do Sr. Dr. Magalhes. Mas do silncio da histria, diz o autor, aproveita-se
  com vantagem a poesia. O autor criou, pois, um enredo: pediu duas personagens 
  histria, Antnio Jos e o Conde de Ericeira, e tirou trs de sua imaginao,
  Mariana, Frei Gil e Lcia. Com estes elementos escreveu a sua pea. Mesmo
  atendendo ao propsito do autor em no ser nem completamente clssico, nem
  completamente romntico, no se pode reconhecer no Antnio Jos o
  carter de uma tragdia. Seria imprprio exigir a excluso do elemento familiar
  na forma trgica ou a eterna repetio dos heris romanos. Essa no  a nossa
  inteno; mas buscando realizar a tragdia burguesa, O Sr. Dr.
  Magalhes, segundo nos parece, no deu bastante ateno ao elemento puramente
  trgico, que devia dominar a ao, e que realmente no existe seno no 5 ato.

A ao, geralmente familiar, s vezes cmica, no diremos
  nas situaes, mas no estilo, raras vezes desperta a comoo ou interessa a
  alma. O 5 ato a esse respeito no sofre censura; tem apenas duas cenas, mas
  cheias de interesse, e verdadeiramente dramticas; o monlogo de Antnio Jos
  inspira grande piedade; as interrogaes do judeu, condenado por uma
  instituio clerical a um brbaro suplcio, so cheias de filosofia e de
  pungente verdade; a cena entre Antnio Jos e Frei Gil  bem desenvolvida e bem
  terminada. A ltima fala do Poeta  alta,  sentida,  eloqente.

Ora, estes mritos que reconhecemos no 5 ato, no existem
  em tamanha soma no resto da tragdia. A prpria versificao e o prprio estilo
  so diferentes entre os primeiros atos e o ltimo. H sem dvida duas situaes
  dramticas, uma no 3 outra no 4, mas no so de natureza a compensar a frieza
  e ausncia de paixo do resto da pea.

Aproveitando-se do silncio da histria, o Sr. Dr.
  Magalhes imaginou uma fbula interessante, que, se fosse mais
  aprofundada,  poderia dar magnficos efeitos. O amor de um frade por
  Mariana, a luta resultante dessa situao, a denncia, a priso e o suplcio --
  eis um quadro vasto e fecundo.  verdade que o autor lutava, pelo que toca a Frei
  Gil, com a figura do imortal Tartufo; mas, sem pretender entrar em um confronto
  impossvel, a execuo do pensamento dramtico, o poeta podia assumir maior
  interesse, e, em alguns pontos, maior gravidade. No estranhar esta ltima
  expresso quem tiver presente  memria o expediente usado pelo poeta para que
  Frei Gil venha a saber do refgio de Antnio Jos, e bem assim as reflexes de
  Lcia, descendente em linha reta de Martine e Toinette.

No  nossa inteno entrar em anlise minuciosa; apenas
  exprimimos as nossas dvidas e impresses. Ser fcil cotejar este rpido juzo
  com a obra do poeta. Olgiato confirma as nossas impresses gerais acerca
  da tragdia do Sr. Dr. Magalhes; tm ambas os mesmos defeitos e as mesmas
  belezas; Olgiato  sem dvida mais dramtico: h cenas patticas,
  situaes interessantes e vivas; mas estas qualidades, que sobressaem sobretudo
  por comparao, no destroem a nossa apreciao acerca do talento potico do
  Sr. Magalhes. Quando o autor pe na boca dos seus personagens conceitos
  filosficos e reflexes morais, entra no seu gnero, e produz efeitos
  excelentes; mas desde que estabelece a luta dramtica e faz a pintura dos
  caracteres, sente-se que lhe falta a imaginao prpria e especial da cena.

O assunto de Olgiato foi bem escolhido, por suas
  condies dramticas; nesse ponto a histria oferecia elementos prprios ao
  poeta. Excluiu ele da tragdia o tirano Galeazzo, e explica o seu procedimento
  no prefcio que acompanha a obra: a razo de exclu-lo procede de ser Galeazzo
  um dos frios monstros da humanidade, diz o autor, e, alm disso, por no ser
  necessrio  ao da pea.

Destas duas razes, a segunda  legtima; mas a primeira
  no nos parece aceitvel. O autor tinha o direito de transportar para a cena o
  Galeazzo da histria, sem ofensa dos olhos do espectador, uma vez que
  conservasse a verdade ntima do carter. A poesia no tem o dever de copiar
  integralmente a histria sem cair no papel secundrio e passivo do cronista.

Prevendo esta objeo, o Sr. Dr. Magalhes diz que no
  podia alterar a realidade histrica, porque fazia uma tragdia, -- e no um
  drama. No compreendemos esta distino, e se ela exprime o que nos quer
  parecer, estamos em pleno desacordo com o poeta. Por que motivo haver duas
  leis especiais para fazer servir a histria  forma dramtica e  forma
  trgica? A tragdia, a comdia e o drama so trs formas distintas, de ndole
  diversa; mas quando o poeta, seja trgico, dramtico ou cmico, vai estudar no
  passado os modelos histricos, uma nica lei deve gui-lo, a mesma lei que o
  deve guiar no estudo da natureza e essa lei impe-lhe o dever de alterar,
  segundo os preceitos da boa arte, a realidade da natureza e da histria.
  Quando, h tempos apreciamos nesta folha a ltima produo do Sr. Mendes Leal,
  tivemos ocasio de desenvolver este pensamento, alis corrente e conhecido;
  aplaudimos na obra do poeta portugus a aplicao perfeita deste dever
  indispensvel, sem o qual, como escreve o escritor citado pelo Sr. Dr.
  Magalhes, Vtor Cousin, desce-se da classe dos artistas.

Mas isto nos levaria longe, o espao de que dispomos hoje
   em extremo acanhado. As duas tragdias do Sr. Dr. Magalhes merecem, apesar
  das imperfeies que nos parece haver nelas, uma apreciao mais detida e
  aprofundada. Em todo o caso, o nosso pensamento a fica expresso e claro,
  embora
  em resumo.
    Reconhecendo
  os servios do poeta em relao  arte
  dramtica, o bom exemplo que deu, a conscincia com que procurou haver-se no
  desempenho de uma misso toda voluntria, nem por isso lhe ocultaremos que, aos
  nossos olhos, as suas tendncias no so dramticas; isto posto, crescem de
  vulto as belezas das suas peas, do mesmo modo que lhe diminuem a imperfeies.

Abandonando o coturno de Melpmene o poeta consultou o
  interesse da sua glria. Que ele nos cante de novo os desesperos, as
  aspiraes, os sentimentos da alma, na forma essencialmente sua, com a lngua
  que lhe  prpria. O escritor, ainda novel e inexperiente, que assina estas
  linhas balbuciou a poesia, repetindo as pginas dos Suspiros e Saudades e
  as estrofes melanclicas dos Mistrios; para ele, o Sr. Dr. Magalhes no vale
  menos, sem Antnio Jos e Olgiato.

Semana Literria, 13 de fevereiro, 1866.

O TEATRO DE JOS DE ALENCAR
I

UMA GRANDE parte das nossas obras dramticas apareceu
  neste ltimo decnio, devendo contar-se entre elas as estrias de autores de
  talento e de reputao, tais como os Srs. Conselheiro Jos de Alencar, Quintino
  Bocaiva, Pinheiro Guimares e outros. O Sr. Dr. Macedo apresentou ao pblico,
  no mesmo perodo, novos dramas e comdias, e estava obrigado a faz-lo, como
  autor d'O Cego e do Cob. Desgraadamente, causas que os leitores
  no ignoram fizeram cessar  o entusiasmo de uma poca que deu muito, e prometia
  mais. Deveremos citar entre essas causas a seduo poltica? No h um, dos
  quatro nomes citados, que no tenha cedido aos requebros da deusa, uns na
  imprensa, outros na tribuna. Ora, a poltica que j nos absorveu, entre outros,
  trs brilhantes talentos poticos, o Sr. Conselheiro Otaviano, o Sr. Senador
  Firmino, o Sr. conselheiro Jos Maria do Amaral, ameaa fazer novos raptos na
  famlia das musas. Parece-nos, todavia, que se podem conciliar os interesses da
  causa pblica e da causa potica. Basta romper de uma vez com o preconceito de
  que no cabem na mesma fronte os louros da Fcion e os louros de Virglio. Por
  que razo o poema indito do Sr. Conselheiro Amaral e as poesias soltas do Sr.
  Conselheiro Otaviano no fariam boa figura ao lado dos seus despachos
  diplomticos e dos seus escritos polticos? At que ponto deve prevalecer um
  preconceito que condena espritos educados em boa escola literria ao cultivo
  clandestino das musas?

Felizmente, devemos reconhec-lo, vai-se rompendo a pouco
  e pouco com os velhos hbitos. O Sr. Dr. Macedo. que ocupa um lugar na poltica
  militante, publicou h tempos um romance; o Sr. Dr. Pedro Lus no hesita em
  compor uma ode, depois de proferir um discurso na Cmara; o Sr. Conselheiro
  Alencar que, apesar de retirado da cena poltica, ser mais tarde ou mais cedo
  chamado a ela, enriqueceu a lista dos seus ttulos literrios. Que nenhum deles
  esmorea nestes propsitos;  um servio que a posteridade lhes agradecer.

Desculpem-nos se h ingenuidade nestas reflexes; nem nos
  levem a mal se assumimos por este modo a promotoria do Parnaso, fazendo um
  libelo contra a repblica. Contra, no; mesmo que pregssemos o divrcio das
  musas e da poltica, ainda assim no conspirvamos em desfavor da sociedade; de
  qualquer modo  servi-la, e a histria nos mostra que, aps um longo perodo de
  sculos,  principalmente a musa de Homero que nos faz amar a ptria de
  Aristides.

Dos recentes poetas dramticos a que nos referimos no
  comeo deste artigo,  o Sr. Alencar um dos mais fecundos e laboriosos. Estreou
  em 1857, com uma comdia em dois atos, Verso e Reverso. A primeira
  representao foi anunciada sem nome de autor, e os aplausos com que foi
  recebida a obra animaram-lhe a vocao dramtica; da para c escreveu o autor
  uma srie de composies que, lhe criaram uma reputao verdadeiramente slida. Verso e Reverso foi o prenncio; no  decerto uma composio de longo
  flego;  uma simples miniatura, fina e elegante, uma coleo de episdios
  copiados da vida comum, ligados todos a uma verdadeira idia de poeta. Essa
  idia  simples; o efeito do amor no resultado das Impresses do homem. Aos
  olhos do protagonista, no curto intervalo de trs meses, o mesmo quadro aparece
  sob um ponto de vista diverso; comea por achar no Rio de Janeiro um inferno,
  acaba por ver nele um paraso; a influncia da mulher explica tudo. Dizer isto
   contar a comdia; a ao, de extrema simplicidade, no tem complicados
  enredos; mas o interesse mantm-se de princpio a fim, atravs de alguns
  episdios interessantes e de um dilogo, vivo e natural.

Verso e Reverso no se recomenda s por essas qualidades, mas tambm pela
  fiel pintura de alguns hbitos e tipos da poca; alguns deles tendem a
  desaparecer, outros desapareceram e arrastariam consigo  a obra do poeta,
  se ela no contivesse os elementos que guardam a vida, mesmo atravs das
  mudanas do tempo. Aquela comdia que encerra todo o autor d'As Asas de um
    Anjo, mas j se deixa ver ali a sua maneira, o seu estilo, o seu dilogo,
  tudo quanto representa a sua personalidade literria, extremamente original,
  extremamente prpria. H sobretudo um trao no talento dramtico do Sr.
  Alencar, que j ali aparece de uma maneira viva e distinta;  a observao das
  coisas, que vai at as menores minuciosidades da vida, e a virtude do autor
  resulta dos esforos que faz por no fazer cair em excesso aquela qualidade
  preciosa.  sem dvida necessrio que uma obra dramtica para ser do seu tempo
  e do seu pas, reflita uma certa parte dos hbitos externos, e das condies e
  usos peculiares da sociedade em que nasce; mas alm disto, quer a lei dramtica
  que o poeta aplique o valioso dom da observao a uma ordem de idias mais
  elevadas e  isso justamente o que no esqueceu o autor d'O Demnio Familiar.
  O quadro do Verso e Reverso era restrito demais para empregar
  rigorosamente esta condio da arte; e todavia a comdia h de merecer a
  ateno dos espectadores, ainda quando desapaream completamente da sociedade
  fluminense os elementos postos em jogo pelo autor; e isso graas a trs coisas:
  ao pensamento capital da pea, ao desenho feliz de alguns caracteres, e s
  excelentes qualidades do dilogo.

Verso e Reverso deveu o bom acolhimento que teve, no s aos seus
  merecimentos, seno tambm  novidade da forma. At ento a comdia brasileira
  no procurava os modelos mais estimados; as obras do finado Pena, cheias de
  talento e de boa veia cmica, prendiam-se intimamente s tradies da farsa
  portuguesa, o que no  desmerec-las, mas defini-las; se o autor d'O Novio vivesse, o seu talento, que era dos mais auspiciosos, teria acompanhado o
  tempo, e consorciaria os progressos da arte moderna s lies da arte clssica.

Verso e Reverso no era ainda a alta comdia, mas era a comdia elegante;
  era a sociedade polida que entrava no teatro, pela mo de um homem que reunia
  em si a fidalguia do talento e a fina cortesia do salo.

A alta comdia apareceu logo depois, com O Demnio
  Familiar. Essa  uma comdia de maior alento; o autor abraa a um quadro
  mais vasto. O demnio da comdia, o moleque Pedro,  o Fgaro
  brasileiro, menos as intenes filosficas e os vestgios polticos do outro. A
  introduo de Pedro em cena oferecia graves obstculos; era preciso
  escapar-lhes por meios hbeis e seguros. Depois, como apresentar ao esprito do
  espectador o carter do intrigante domstico, mola real da ao, sem faz-lo
  odioso e repugnante? At que ponto fazer rir com indulgncia e bom humor das
  intrigas do demnio familiar? Esta era a primeira dificuldade do carter e do
  assunto. Pelo resultado j sabem os leitores que o autor venceu a dificuldade,
  dando ao moleque Pedro as atenuantes do seu procedimento, at levant-lo mesmo
  ante a conscincia do pblico.

Primeiramente, Pedro  o mimo da famlia, o enfant gt,
  como diria a viajante Azevedo; e nisso pode-se ver desde logo um trao
  caracterstico da vida brasileira. Colocado em uma condio intermediria, que
  no  nem a do filho nem a do escravo, Pedro volta e abusa de todas as
  liberdades que lhe d a sua posio especial; depois, como abusa ele dessas
  liberdades? por que serve de portador s cartinhas amorosas de Alfredo? por que
  motivo compromete os amores de Eduardo por Henriqueta, e tenta abrir as
  relaes de seu senhor com uma viva rica? Uma simples aspirao de pajem e
  cocheiro; e aquilo que noutro repugnaria  conscincia dos espectadores,
  acha-se perfeitamente explicado no carter de Pedro. Com efeito, no se trata
  ali de dar um pequeno mvel a uma srie de aes reprovadas; os motivos do
  procedimento de Pedro so realmente poderosos se atendermos a que a posio
  sonhada pelo moleque, est de perfeito acordo com o crculo limitado das suas
  aspiraes, e da sua condio de escravo; acrescente-se a isto a ignorncia, a
  ausncia de nenhum sentimento do dever, e tem-se a razo da indulgncia com que
  recebemos as intrigas do Fgaro fluminense.

Parece-nos ter compreendido bem a significao do
  personagem principal d'O Demnio Familiar; esta foi, sem dvida, a srie
  de reflexes feitas pelo autor para transportar ao teatro aquele tipo
  eminentemente nosso. Ora, desde que entra em cena at o fim da pea, o carter
  de Pedro no se desmente nunca:  a mesma vivacidade, a mesma ardileza, a mesma
  ignorncia do alcance dos seus atos; se de certo ponto em diante, cedendo s
  admoestaes do senhor, emprega as mesmas armas da primeira intriga em uma nova
  intriga que desfaa aquela, esse novo trao  o complemento do tipo. Nem  s
  isso: delatando os clculos de Vasconcelos a respeito do pretendente de
  Henriqueta, Pedro usa do seu esprito enredador, sem grande conscincia nem do
  bem nem do mal que pratica; mas a circunstncia de desfazer um casamento que
  servia aos interesses de dois especuladores d aos olhos do espectador uma
  lio verdadeiramente de comdia.

O Demnio Familiar apresenta um quadro de famlia, com o verdadeiro cunho da
  famlia brasileira; reina ali um ar de convivncia e de paz domstica, que
  encanta desde logo; s as intrigas de Pedro transtornam aquela superfcie:
  corre a ao ligeira, interessante, comovente mesmo, atravs de quatro atos, bem
  deduzidos e bem terminados. No desfecho da pea, Eduardo d a liberdade ao
  escravo, fazendo-lhe ver a grave responsabilidade que desse dia em diante deve
  pesar sobre ele, a quem s a sociedade pedir contas. O trao  novo, a lio
  profunda. No supomos que o Sr. Alencar d s suas comdias um carter de
  demonstrao; outro  o destino da arte; mas a verdade  que as concluses d'O
    Demnio Familiar, como as concluses de Me, tm um carter social
  que consolam a conscincia; ambas, as peas, sem sarem das condies da arte,
  mas pela prpria pintura dos sentimentos e dos fatos, so um protesto contra a
  instituio do cativeiro.
Em Me  a escrava que se sacrifica  sociedade,
  por amor do filho; n'O Demnio Familiar,  a sociedade que se v
  obrigada a restituir a liberdade ao escravo delinqente.

A pea acaba, sem abalos nem grandes peripcias, com a
  volta da paz da famlia e da felicidade geral. All is
    well that ends well,

    como

      na comdia de Shakespeare.

No entramos nas mincias da pea; apenas atendemos para o
  que ela apresenta de mais geral e mais belo; e contudo no falta ainda que
  apreciar n'O Demnio Familiar, como, por exemplo, os tipos de Azevedo e
  de Vasconcelos, as duas amigas Henriqueta e Carlotinha, to brasileiras no
  esprito e na linguagem, e o carter de Eduardo, nobre, generoso, amante.
  Eduardo sonha a famlia, a mulher, os hbitos domsticos, pelo padro da
  famlia dele e dos costumes puros de sua casa. Mais de uma vez enuncia ele os
  seus desejos e aspiraes, e  para agradecer a insistncia com que o autor faz
  voltar, o esprito do personagem para esse assunto.

'A sociedade, diz Eduardo, isto , a vida exterior,
  ameaa destruir a famlia, isto , a vida interior.'

A esta frase acrescentaremos este perodo:

A mulher moderna, diz Madama d'Agout, vive em um centro,
  que no  nem o ar grave da matrona romana, nem a morada aberta e festiva da
  cortes grega, mas uma coisa intermediria que se chama sociedade, isto
  , a reunio sem objeto de espritos ociosos, sujeitos s prescries de uma
  moral que pretende em vo conciliar as diverses de galanteria com os deveres
  da famlia.

H, sem dvida, mais coisas a dizer sobre a excelente
  comdia do Sr. Jos de Alencar; no nos falta disposio, mas espao; nesta
  tarefa de apreciao literria h momentos de verdadeiro prazer;  quando se
  trata de um talento brilhante e de uma obra de gosto. Quando podemos achar uma
  dessas ocasies  s com extremo pesar que no a aproveitamos toda.

Guardamos para outro artigo a apreciao das demais obras
  do distinto autor d'O Demnio Familiar.

II

A reabilitao da mulher perdida, tal foi durante muito
  tempo a questo formulada e debatida no romance e no teatro. Negavam uns,
  afirmavam outros, dividiam-se os nimos, traavam-se campos opostos; e durante
  uma larga poro de tempo a herona do dia oscilou entre as gemnias e o
  Capitlio.

No tem conta a soma de talento empregado nesse debate, e
  realmente de invejar o esplendor de muitos nomes que figuraram nele. Mas,
  quaisquer que fossem os prodgios de inveno da parte dos poetas, no era
  possvel fugir ao menor dos inconvenientes do assunto, que era a monotonia.

Era o menor, porque a maior estava na coisa em si, na
  prpria escolha do assunto, na pintura da sociedade que se trasladava para a
  cena. Que a concluso fosse afirmativa ou negativa, pouco importa em matria de
  arte. O certo  que muitos espritos delicados no puderam fugir  tentao; e
  para atestar que a tentao era grande, basta lembrar dois nomes, um nosso,
  outro estranho: o autor do Casamento de Olmpia, e o autor d'As Asas
    de um Anjo. Nenhum deles concluiu pela afirmativa; as suas intenes morais
  eram boas, as suas idias ss; mas os costumes e os caracteres escolhidos como
  elementos das suas peas eram os mesmos que estavam em voga, e de qualquer
  modo, aplaudindo ou condenando, eram sempre os mesmos heris que figuravam na
  cena. S havia de mais o lustre de dois nomes estimados.

Depois de escrever O Demnio Familiar, comdia
  excelente, como estudo de costumes e de caracteres, quis o Sr. Conselheiro Jos
  de Alencar dizer a sua palavra no debate do dia. Nisto, o autor d'As Asas de
    um Anjo no cedia somente  seduo do momento, formulava tambm uma
  opinio;  arriscado estar em desacordo com uma inteligncia to esclarecida,
  porque  arriscar-se a estar em erro; no foi, porm, sem detido exame que
  adotamos uma opinio contrria  do ilustre escritor. A nossa divergncia  de
  ponto de vista; pode a verdade no estar da parte dele; mas, qualquer que seja
  a maneira por que encaremos a arte, h uma de encarar o talento do autor.

 evidente que a comdia As Asas de um Anjo no
  conclui pela afirmativa de tese to celebrada; e foi o que muita gente no quis
  ver. A idia da pea est contida em algumas palavras do personagem Meneses;
  Carolina exprime a punio dos pais, que descuraram a sua educao moral; do
  sedutor que a arrancou do seio da famlia, do segundo amante que a acabou de
  perder.

O eplogo da pea  o casamento de Carolina; mas quem v
  a sua reabilitao moral? Casamento quase clandestino, celebrado para proteger
  uma menina, filha dos erros de uma unio sem as douras de amor nem a dignidade
  de famlia,  isto acaso um ato de regenerao? No, o autor d'As Asas de um
    Anjo no quis restituir a Carolina os direitos morais que ela perdera. Mas
  isto, que  o desenlace de uma situao dada, no nos parece que justifique
  essa mesma situao. O que achamos reparvel na comdia As Asas de um Anjo no  o desenlace, que nos parece lgico,  a situao de que nasce o
  desenlace;  o assunto em si.

O que nos parece menos aceitvel  o que constitui o fundo
  e o quadro da comdia; no h dvida alguma de que a pea  cheia de interesses
  e de lances dramticos; a inveno  original, apesar do cansao do assunto;
  mas o que sentimos  precisamente isso;  uma soma to avultada de talento e de
  percia empregada em um assunto, que, segundo a nossa opinio, devia ser
  excludo, da cena.

A teoria aceita e que presidiu antes de tudo ao gnero de
  peas de que tratamos  que, pintando os costumes de uma classe parasita e
  especial, conseguir-se-ia melhor-la e influir-lhe o sentimento do dever. Pondo
  de parte esta questo da correo dos costumes por meio do teatro coisa
  duvidosa para muita gente, perguntaremos simplesmente se h quem acredite que
  as Mulheres de Mrmore, o Mundo do Equvoco, o Casamento de
    Olmpia e As Asas de um Anjo chegassem a corrigir uma das Marias e
  das Paulinas da atualidade. A nossa resposta  negativa; e se as obras no
  serviam ao fim proposto, serviriam acaso de aviso  sociedade honesta? Tambm
  no pela razo simples de que a pintura do vcio nessas peas (exceo feita d'As
    Asas de um Anjo)  feita com todas as cores brilhantes, que seduzem, que
  atenuam, que fazem quase do vcio um resvalamento reparvel. Isto, no ponto de
  vista dos chefes da escola, se h escola; mas que diremos ns, prevalecendo a
  doutrina contrria, a doutrina da arte pura, que isola o domnio da imaginao,
  e tira do poeta o carter de tribuno?

Vindo depois d'O Demnio Familiar, As Asas de um
  Anjo encerram muitas das qualidades do autor, revelando sobretudo as
  tendncias dramticas, to pronunciadas como as tendncias cmicas d'O
    Demnio Familiar e do Verso e Reverso. No empenho de no poupar
  nenhuma das angstias que devem acometer a mulher perdida da sua peca, o autor
  no hesitou em produzir a ltima cena do 4 ato. O efeito  terrvel, o
  contraste medonho; mas, consinta-nos o ilustre poeta uma declarao franca: a
  cena  demasiado violenta sem satisfazer os seus intuitos; aquele encontro do
  pai e da filha no altera em nada a situao desta, no lhe aumenta o horror,
  no lhe cava maior abismo; e contudo o corao do espectador sente-se abalado
  no pelo efeito que o autor teve em vista, mas por outro que resulta da
  inconvenincia do lance, e dos sentimentos que ele inspira.

Faremos ainda um reparo, e ser o ltimo. Carolina que,
  segundo a frase de Meneses exprime a punio dos pais e dos seus corruptores,
  se pune a estes com justia, aplica aos pais uma punio demasiado severa. Diz
  Meneses que eles no cuidaram da educao moral da filha; mas desta
  circunstncia no existe vestgio algum na pea a no ser a assero de
  Meneses; o primeiro ato apresenta um aspecto de paz domstica, de felicidade,
  de pureza, que contrasta vivamente com a fuga da moa, sem que aparea o menor
  indcio dessa atenuante, se pode haver atenuante para o ato de Carolina.

O Sr. Conselheiro Jos de Alencar, logo depois dos acontecimento
  que ocorreram por ocasio d'As Asas de um Anjo, declarou que quebrava a
  pena e fazia dos pedaos uma cruz. Declarao de poeta que um carinho da musa
  fez esquecer mais tarde. s As Asas de um Anjo sucedeu um drama, a que o
  autor intitulou Me. O contraste no podia ser maior; saamos de uma
  comdia que contrariava os nossos sentimentos e as nossas idias, e assistamos
  ao melhor de todos os dramas nacionais at hoje representados; estvamos diante
  de uma obra verdadeiramente dramtica, profundamente humana bem concebida, bem
  executada, bem concluda. Para quem estava acostumado a ver no Sr. Jos de
  Alencar o chefe da nossa literatura dramtica, a nova pea resgatava todas as
  divergncias anteriores.

Se ainda fosse preciso inspirar ao povo o horror pela
  instituio do cativeiro, cremos que a representao do novo drama do Sr. Jos
  de Alencar faria mais do que todos os discursos que se pudesse proferir no
  recinto do corpo legislativo, e isso sem que Me seja um drama
  demonstrativo e argumentador, mas pela simples impresso que produz no esprito
  do espectador, como convm a uma obra de arte. A maternidade na mulher escrava,
  a me cativa do prprio filho, eis a situao da pea. Achada a situao, era
  preciso saber apresent-la, conclu-la; tornava-se preciso tirar dela todos os
  efeitos, todas as conseqncias, todos os lances possveis; do contrrio, seria
  desvirgin-la sem fecund-la. O autor no s o compreendeu, como o executou com
  uma conscincia e uma inspirao que no nos cansamos de louvar.

Vejamos o que  essa me. Joana, estando ainda com o seu
  primeiro senhor, teve um filho que foi perfilhado por um homem que a comprou,
  apenas nascido o menino. Morreu esse, instituindo o rapaz como seu herdeiro;
  nada mais fcil a Joana do que descobrir ao moo Jorge o mistrio do seu
  nascimento. Mas ento onde estava a herona? Joana guarda religiosamente o
  segredo e encerra-se toda na obscuridade da sua abnegao, com receio de que
  Jorge venha desmerecer diante da sociedade, quando se conhecer a condio e a
  raa de sua me. Ela no indaga, nem discute a justia de semelhante
  preconceito; aceita-o calada e resignada, mais do que isso, feliz; porque o
  silncio assegura-lhe,  mais que tudo, a estima e a ventura de Jorge. At
  aqui j o sacrifcio era grande; mas cumpria que fosse imenso. Quando Jorge,
  para salvar o pai da noiva, precisa de uma certa soma de dinheiro, Joana rasga
  a carta de liberdade dada anteriormente por Jorge e oferece-se em holocausto a
  necessidade do moo;  hipotecada. Mas os acontecimentos precipitam-se; o Dr.
  Lima, nico que sabia do nascimento de Jorge, sabe da hipoteca de Joana, feita
  por um ttulo de venda simulada, e profere essa frase tremenda, que faz
  estremecer de espectadores: 'Desgraado, tu vendeste tua me!'

Descoberto o segredo, Joana no hesita sobre o que deve
  fazer; teme pelo filho, e no quer lanar a menor sombra na sua felicidade:
  escrpulo tocante, de que resulta o suicdio. Tal  a peripcia deste drama,
  onde o pattico nasce de uma situao pungente e verdadeira.

No diremos, uma por uma, todas as belas cenas deste drama
  to superior; demais, seria intil, pois que ele anda nas mos de todos. Uma
  dessas cenas  aquela
  em que
    Joana
  , para salvar o futuro sogro do filho, e portanto a
  felicidade dele, procura convencer ao usurrio Peixoto de que deve socorrer o
  moo, sobre a sua hipoteca pessoal. Nada mais pungente; sob aquele dilogo
  familiar, palpita o drama, aperta-se o corao, arrasam-se os olhos de
  lgrimas. Se Joana  a personagem mais importante da pea, nem por isso as
  outras deixam de inspirar verdadeiro interesse, sobretudo Jorge e Elisa,
  criatura frgil, e delicada, que produz inocentemente uma situao, como causa
  indireta do holocausto a que se oferece Joana.

No pode haver dvida de que  esta a pea capital do Sr.
  Jos de Alencar: paixo, interesse, originalidade, um estudo profundo do
  corao humano, mais do que isso, do corao materno, tudo se rene nesses
  quatro atos, tudo faz desta pea uma verdadeira criao. Desde ento os louros
  de poeta dramtico floresceram na fronte do autor entrelaados aos louros de
  poeta cmico. Villemain observa que a reunio dessas duas faces da arte teatral
  nos mesmos indivduos  um sintoma das pocas decadentes; se esta regra 
  verdadeira, no pode deixar de ser confirmada pela exceo; e a exceo 
  decerto nossa poca, no Brasil, poca que mal comea, mas j se ilustra com
  algumas obras de mrito e de futuro.

Resta-nos pouco para completar o estudo das obras teatrais
  do Sr. Jos de Alencar, cujo lugar nas letras dramticas estaria definido,
  mesmo que no houvesse dado O Demnio Familiar, isto , a alta expresso
  dos costumes domsticos, e Me, isto , a imagem augusta da maternidade.

III

A extinta companhia do Ateneu Dramtico representou
  durante algumas noites uma pea annima, intitulada O que  o Casamento? O
  autor, apesar de ser a obra bem recebida, no apareceu, nem ento, nem depois;
  mas o pblico, que  dotado de uma admirvel perspiccia, atribui a pea ao Sr.
  J. de Alencar, e a coisa passou
  em julgado. Ser
  temeridade da nossa parte repetir o
  juzo do pblico? O que  o Casamento? rene todos os caracteres do
  estilo e do sistema dramtico do autor d'As Asas de um Anjo; entre
  aquela pea e as outras do mesmo autor h uma semelhana fisionmica que no
  pode passar despercebida aos olhos da crtica. E atribuindo ao Sr. J. de
  Alencar a comdia em questo, no fazemos s um ato de justia, resolvemos
  naturalmente uma questo, que seria insolvel no caso de ser outro o autor da
  comdia, porque ento onde iramos buscar um Drmio de Atenas para opor a este
  Drmio de feso? Quem seria esse gmeo literrio to gmeo que pareceria, no
  outro homem, mas a metade deste, a sua parte complementar? O meio simples de
  resolver a dvida  dar a uma rf to bela um pai to distinto.

O que  o casamento? pergunta o autor, e a pea  a
  resposta desta interrogao. Para compreender bem o ttulo e cas-lo  pea, 
  preciso ter em vista que nem a pergunta nem a resposta podem ter carter
  absoluto. O casamento  a confiana recproca,  tal  a concluso de
  Miranda, em dilogo com Alves; e uma situao inesperada, uma situao fatal,
  que envolve a honra da esposa, embora inocente e pura, faz apagar no esprito
  do marido o mesmo sentimento em que, segundo ele, deve repousar a paz
  domstica. No  isto bastante para  indicar que o autor no quis tirar
  concluses gerais? O autor imaginou uma situao dramtica: desenvolveu-a,
  concluiu-a. H a uma parte que pertence  ao dos sentimentos, e outra que
  pertence um pouco  ao do acaso, mas desse acaso que , por assim dizer, o
  resultado de um grupo de circunstncias. A pea rola sobre um caso de adultrio
  suposto, adultrio que seria igualmente um fratricdio, pois que  o prprio
  irmo de Miranda quem levanta os olhos para a esposa dele. A pea convida desde
  princpio toda a ateno do espectador; Henrique vem despedir-se de Isabel,
  pedindo-lhe perdo do sentimento que alimentou, e que ainda o domina; intervm
  o marido, Henrique foge; o marido ouve as palavras de Isabel assaz ambguas
  para destruir todo o sentimento de conversa. Uma flor, que pouco antes estivera
  no peito de Sales,  encontrada pelo marido no cho; faz-lhe crer que  aquele
  gamenho ridculo o assassino da sua desonra. Miranda torna uma deciso extrema;
  quer matar a esposa. O grito da filha evita aquele crime.

Tal  o ponto de partida desta pea. Colocada entre o
  interesse da sua honra e o interesse do irmo do marido. Isabel sacrifica-se e
  aceita a situao criada por um erro que no  seu. Esta abnegao, que faz de
  Isabel uma verdadeira herona aumenta de muito o interesse da pea, torna mais
  profunda a comoo dramtica. A cada passo espera-se ouvir da esposa infeliz a
  narrao fiel dos fatos, mas ela mantm-se na sua sublime reserva. Demais, a
  situao agravou-se depois da entrevista fatal; Henrique, amado j por
  Clarinha, irm de Isabel, aparece casado. no 2 ato, e esse casamento foi menos
  por corresponder s aspiraes da moa, do que por achar um refgio ao prprio sofrimento.
  Mas estes dois casais vivem em perfeita separao de cnjuges; Isabel e Miranda
  so dois estranhos em casa, ligados apenas pelo vnculo de uma inocente menina;
  Henrique e Clarinha vivem igualmente separados, e se a mocidade, a alegria, a
  leviandade mesmo de Clarinha, consegue dar  sua situao um aspecto menos
  sombrio, nem por isso Henrique escapa aos remorsos que o pungiam, e o trazem
  sempre longe da esposa.

Precipitam-se os acontecimentos; Miranda, depois de
  ultimar os negcios de restituir os bens de Isabel, anuncia-lhe que vai partir
  para a Europa; lembra-lhe que ela precisa da sua reputao, se no para si, nem
  para o marido, ao menos para a filha, que no tem culpa no crime que ele lhe
  supe. Entretanto, como esta cena tem lugar em Petrpolis, Miranda anuncia que
  vem  corte; despede-se;  nesse intervalo que Henrique pode conversar algum
  tempo a ss com Isabel, a quem interroga sobre a frieza que nota h muito entre
  ela e o marido. Henrique faz ainda novos protestos de modo a salvar a honra de
  Isabel, que ele to desastradamente comprometera. Miranda, que tem voltado para
  vir buscar uma carta, ouve o dilogo. Perdoa a Henrique, e pede perdo 
  mulher.

Neste resumo, em que suprimimos muita coisa, alis
  incontveis belezas, pode ver-se a altura dramtica da ltima pea do Sr. J. de
  Alencar.  certo que o desenlace, que um acaso precipita, seria talvez melhor
  se nascesse do prprio remorso de Henrique uma vez sabida por ele a situao
  domstica de Isabel. O perdo de Miranda arrancado pela confisso sincera e
  ingnua do irmo, levantaria muito mais o carter do moo, alis simptico e
  humano. Mas fora deste reparo, que a estima pelo autor arranca  nossa pena, a
  pea do Sr. J. de Alencar  das mais dramticas e das mais bem concebidas do nosso
  teatro. O talento do autor, valente de si, robustecido pelo estudo, conseguiu
  conservar o mesmo interesse, a mesma vida, no meio de urna situao sempre
  igual, de uma crise domstica, abafada e oculta.

A cor local  uma das preocupaes do autor d'O Demnio
  Familiar e a habilidade dele est em distribuir as suas tintas de acordo
  com o resto do quadro evitando o sobrecarregado, o intil, o descabido. H
  nesta pea dois escravos, Joaquim e Rita; rompido os vnculos morais entre
  Miranda e Isabel, os dois escravos, educados na confiana e na intimidade de
  famlia, tornam-se os naturais confidentes de ambos, mas confidentes nulos,
  inspirando apenas uma meia confiana.  por eles que aquelas duas criaturas
  procuram saber das necessidades uma da outra, minorar quanto possam a desolao
  comum.

Bem estudado, isto  ainda um resto de amor da parte do
  marido, um sinal de estima da parte da mulher.

Henrique, entregue a punio do seu prprio
  arrependimento, acha-se mais tarde em situao igual  do irmo, o que
  acrescenta  pea um episdio interessante, intimamente ligado  pea, sendo
  mesmo um complemento dela. Clarinha, cortejada por Sales, aproveita um pedido
  de entrevista do gamenho, para reanimar a afeio de Henrique; este estratagema
  leviano produz uma cena violenta e uma situao trgica. A perspiccia do drama
  salva tudo.

Tanto quanto nos permite a estreiteza do espao, eis em
  resumo o drama do Sr. J. de Alencar, drama interessante, bem desenvolvido e
  lgico.  igualmente uma pintura da famlia, feita com aquela observao que o
  Sr. Alencar aplica sempre aos costumes privados. Caracteres sustentados,
  dilogo natural e vivo, estudo aplicado de sentimentos.

Alm das peas do autor, que temos apreciado at hoje, uma
  h, que subiu  cena no Ginsio, O Crdito. No tivemos ocasio de
  v-la, nem a comdia est impressa. O assunto, como indica o ttulo,  da mais
  alta importncia social; e o autor, pela reminiscncia que nos ficou dos
  artigos do tempo, soube tirar dele to-somente aquilo que entrava na esfera de
  uma comdia. Folgaramos de ver impressa a obra do ilustre autor d'As Asas
    de um Anjo. Limitamo-nos, porm, a mencion-la, e bem assim duas peas mais
  que nos consta existir na pasta, sempre cheia, do autor: O Jesuta e A
    Expiao.

Como dissemos  o Sr. J. Alencar um dos mais fecundos e
  brilhantes talentos da mocidade atual; possui sobretudo duas qualidades to
  raras quanto preciosas; o gosto e o discernimento,  duas qualidades que
  completavam o gnio de Garrett. Nem sempre estamos de acordo com o distinto
  escritor: j manifestamos as nossas divergncias pelo que diz respeito a As
    Asas de um Anjo; do mesmo modo dizemos que algumas vezes a fidelidade do
  autor na pintura dos costumes vai alm do limite que, em nossa opinio, deve
  estar sempre presente aos olhos do poeta; nisso segue o autor uma opinio
  diversa da nossa; mas, fora dessa divergncia de ponto de vista, os nossos
  aplausos ao autor da Me e d'O Demnio Familiar so completos e
  sem reserva. A posio que alcanou, como poeta dramtico, impe-lhe a
  obrigao de enriquecer com outras obras a literatura nacional.
Estamos certos de que o far; qualquer que seja a situao
  da cena brasileira; para os talentos conscienciosos, o trabalho  um dever; e
  quando a realidade do presente desanima, voltam-se os olhos para as esperanas
  do futuro. No autor d'O Demnio Familiar estas esperanas so legtimas.

Semana Literria, 06, 13 e 27 de maro de 1866.

O TEATRO DE JOAQUIM MANUEL DE MACEDO

I

O Cego e O Cob, do Sr. Dr. Macedo, apesar das belezas que
  lhe reconhecemos, no tiveram grande aplauso pblico. Mas Lusbela e Luxo
    e Vaidade compensaram largamente o poeta; representados por longo espao no
  Ginsio desta corte, foram levados  cena em alguns teatros de provncia, onde
  o vate fluminense encontrou um eco simptico e unnime. Se mencionamos este
  fato  para lembrar ao autor, que o bom caminho no  o da Lusbela e Luxo
    e Vaidade, mas o d'O Cego e d'O Cob. Estas duas peas,
  apesar dos reparos que lhes fizemos e dos graves defeitos que contm, exprimem
  um talento dramtico de certo vigor e originalidade; no assim as outras que
  caem inteiramente fora do caminho encetado pelo autor; essas no se recomendam,
  nem pela originalidade da concepo, nem pela correo dos caracteres, nem pela
  novidade das situaes. Quando parecia que os anos tinham dado ao talento
  dramtico do autor aqueles dotes que se no alcanam sem o tempo e o estudo,
  apareceram as duas peas do Sr. Dr. Macedo, manifestando, em vez do progresso
  esperado, um regresso imprevisto. Para os que amam as letras, esse regresso foi
  uma triste decepo. No nos pesa diz-lo ao autor d'A Nebulosa, pesar-nos-ia
  afirmar o contrrio, porque seria esconder-lhe a nossa convico profunda; e
  longe de servi-lo, contribuiramos para estas reincidncias fatais  boa fama
  do seu nome. O poeta Terncio faz uma observao exata quando lembra que a
  mentira faz amigos e a verdade adversrios; respeitamos a convico dos amigos
  do poeta, mas no temos a mesma convico; e  por no t-la que nos vemos obrigados
  a contrariar idias recebidas, mesmo com risco de sermos inscritos entre os
  adversrios do distinto escritor.

Luxo e Vaidade  anterior a Lusbela; como se v do ttulo, a pea
  tem por fim estigmatizar a vaidade e o luxo. O luxo tem sido constante objeto
  da indignao dos filsofos; e j nas cmaras francesas, no h muito, o
  Senador Dupin e o Deputado Pelletan fizeram ouvir as suas vozes contra essa
  chaga da sociedade; se aludimos a dois discursos tratando da pea do Sr. Dr.
  Macedo,  no s pela identidade do assunto, mas at pela semelhana da forma,
  entre os discursos e a pea. Luxo e Vaidade, se no tem movimento
  dramtico, tem movimento oratrio; o personagem Anastcio, como ele prprio
  confessa, adquiriu desde moo o gosto de fazer sermes, e se excetuarmos alguns
  mais familiares, o velho mineiro atravessa o drama em perptua preleo. Este
  carter cicernico da pea  a expresso de uma teoria dramtica do Sr. Dr.
  Macedo dissemos que o autor d'O Cego no professa escola alguma, e 
  verdade;  realista ou romntico sem preferncia, conforme se lhe oferece a
  ocasio; mas, independentemente deste ecletismo literrio, v-se que o autor
  tem uma teoria dramtica de que usa geralmente. Estamos convencido de que o
  teatro corrige os costumes, entende o autor, e no se acha isolado neste
  conceito, que a correo deve operar-se pelos meios oratrios e no pelos meios
  dramticos ou cmicos. A moral do teatro, mesmo admitindo a teoria da
  correo dos costumes, no  isso: os deveres e as paixes na poesia dramtica
  no se traduzem por demonstrao, mas por impresso. Quando o Sr. Jos de
  Alencar trouxe para a cena o grave assunto da escravido, no fez inserir na
  sua pea largos e folgados raciocnios contra essa fatalidade social; imaginou
  uma situao, fazendo atuar nela os elementos poticos que a natureza humana e
  o estado social lhe ofereciam; e concluiu esse drama comovente que toda a gente
  de gosto aplaudiu. Este e outros exemplos no devia esquec-los o autor de Luxo
    e Vaidade.

As duas peas de que tratamos, Luxo e Vaidade e Lusbela idnticas neste ponto, assemelham-se em tudo mais. Em ambas  uma inveno
  pobre, situaes gastas, lances forados, caracteres ilgicos e incorretos.
  Acrescentemos que a ao em ambas as peas  laboriosamente complicada,
  desenvolvendo-se com dificuldade no meio de cenas mal ligadas entre si.
  Finalmente, a qualidade to louvada no Sr. Dr. Macedo de saber pintar as
  paixes, se podia ser confirmada, com reservas, nos seus primeiros dois dramas,
  no pode s-lo nos ltimos; provavelmente os que assim julgam confundem, como
  dissemos, o sentimento e o vocabulrio; a reunio de algumas palavras enrgicas
  e sonoras, em perodos mais ou menos cheios, no supe um estudo das paixes
  humanas. O rudo no  a eloqncia.

Todos conhecem o Luxo e Vaidade;  intil
  referirmos a marcha da pea. A primeira coisa que lhe falta  a inveno; o
  assunto, j explorado em teatro, podia talvez oferecer efeitos e estudos novos,
  e s com esta condio que o poeta devia tratar dele. Que estudos, que efeitos,
  que combinaes achou no assunto? A novidade  s aquela que repugna  lgica
  dos caracteres; por exemplo, o dio de Fabiana, alimentado por vinte e cinco
  anos, antes, durante e depois do casamento, contra a pessoa de um primeiro
  namorado que a desprezou; Maurcio (o namorado) casou-se com Hortnsia, da qual
  tem uma filha; Fabiana, que tambm casou com um oficial do exrcito, tem
  igualmente uma filha; a pea comea quando as duas filhas j esto moas
  feitas; tudo est mudado, menos o dio de Fabiana, que, para vingar-se de
  Maurcio e de Hortnsia, escolhe a filha de ambos, e planeia um rapto, com o
  fim de infam-la e desvi-la de um casamento rico. Nesta conspirao entra o
  raptor e a prpria filha de Fabiana. Tal  o lado original da pea; supe-se um
  dio de vinte e cinco anos, impetuoso e feroz, como o amor de Media, numa
  criatura vulgar, sem expresso, mais cobiosa de dinheiro que de vingana.

Em geral os caracteres destas duas peas so carregados e
  exagerados a tal ponto, que deixam longe de si o padro humano. Parece que o
  autor preocupa-se sobretudo com os efeitos, sem atender para a natureza. Uma
  prova, entre muitas,  a cena entre Anastcio, Maurcio e Hortnsia, no
  terceiro ato; Maurcio  um homem bom, honesto, mas fraco; o seu crime  ceder
   mulher em tudo; mas a situao torna-se grave; esto arruinados; aparece
  Anastcio, pinta-lhes o presente e o futuro, clama e declama, chama-os  razo;
  os dois reconhecem a verdade das palavras do irmo, e curvam-se aterrados.
  anuncia-se, porm, um baro, e eis que os dois, fazendo ao pblico uma
  despedida cmica, correm a receber as visitas. Estas transies bruscas, estes
  contrastes forados, produzem sempre efeito seguro; mas para quem olha a arte
  um pouco acima das luzes da rampa so violncias estas que contrariam a verdade
  de um carter e condenam o futuro de uma obra.

A complicada intriga do Luxo e Vaidade desenvolve-se
  com auxlio de um personagem, que no vem citado na pea, o Acaso. Com efeito, o
  rapto de Leonina seria efetuado, se Henrique no estivesse escondido por trs
  de uns bambus, no Jardim Botnico, donde ouve a conversa dos conspiradores.
  Este meio de sair de uma dificuldade, escondendo um personagem,  usado tambm
  no 5. ato, quando Maurcio quer beber um copo de veneno; Anastcio, que se
  esconde alguns minutos antes, evita o crime. Voltemos ao rapto; Filipa, sua me
  Fabiana e o raptor Frederico tramam no jardim o rapto de Leonina; Fabiana e
  Frederico saem, e fica s
  em
    cena Filipa
  , que, em um breve monlogo, resolve frustrar o
  projeto de rapto, porque ele teria em resultado o casamento de Leonina com um
  rapaz bonito e elegante. Para isso precisa de um homem. . . 'Esse homem
  sou eu'' exclama Henrique, aparecendo de um lado com grande estranheza da
  moa e do espectador; porquanto, se nos lembrarmos que a moa estava em
  monlogo, veremos logo que a apario de Henrique  absurda. Mas o abismo atrai
  o abismo, o absurdo chama o absurdo;  simples declarao que lhe faz Henrique
  de que entra na vingana, por despeito contra Leonina, a moa, que no tem
  maior intimidade com ele, confia-lhe logo, sem exame, os seus projetos e aceita
  a sua cumplicidade.

Mas qual a inteno de Filipa? Ser salvar a Leonina
  contra os projetos de Fabiana? No; o que Filipa no quer  o casamento
  provvel de Leonina e do raptor; mas a desonra aparente da moa e o escndalo,
  isso pouco lhe importa. 'Um rapto que se malogra no momento de executar-se
   de sobra para desacreditar a mulher que se encontra nos braos do
  raptor.' Quem pronuncia estas palavras?  uma donzela?  uma hetaira? Ao
  menos, que motivo poderoso lana no esprito dessa moa a perverso e o mal?
  Uma inveja mesquinha: no quer ver a outra casada com um moo bonito e
  elegante! Com franqueza, leitor imparcial, achais que isto seja a cincia dos
  caracteres? Uma me, sem um trao nobre uma filha sem um trao virgem,
  conspirando friamente contra a honra de uma donzela, tal  a expresso da
  sociedade brasileira, tal  a intriga principal deste drama. Destas violncias
  morais, encontram-se a cada passo na Lusbela como no Luxo e Vaidade. Qual
   a inteno do autor imaginando estas figuras repugnantes, estas cenas
  impossveis? No sabemos, mas cumpre observar uma coisa, que agrava mais ainda
  a situao da pea: a cena
  em
    que Filipa
  aceita a cumplicidade de Henrique, tem contra si,
  alm do mais, a circunstncia de ser absolutamente desnecessria; parece, ao
  ver aquela cena, que realmente a moa chega a substituir o seu plano ao da me,
  vendo naturalmente depois substituir o seu pelo de Henrique que a ilude; nada
  disso : o rapto efetua-se at o ponto em que aparecem Henrique e Anastcio para
  impedir que Leonina seja levada para fora; v-se que era preciso para impedir a
  realizao do rapto, que Henrique soubesse dele e avisasse Anastcio; da vem a
  colocao do rapaz na moita dos bambus; mas a necessidade do contrato com
  Filipa, a necessidade do monlogo da moa, essa  que nunca se v. Cortada a
  cena, a pea continua sem alterao.

A cena do rapto, que no produz efeito algum, toma quase
  propores trgicas: Frederico, que  o raptor, vem armado de punhal e quer
  assassinar Anastcio, que busca impedir o rapto da moa. No se compreende bem
  que interesse possa ter Frederico, personagem insignificante, sem grandes
  impulsos, em cometer um assassinato, que agravaria a sua situao. Felizmente,
  aparece Henrique; o brao de Henrique e uma perorao de Anastcio pem em fuga
  o raptor e a cmplice. Este ato, que  o 4., passa-se em um baile de mscaras,
  dado por Maurcio, na vspera do dia em que deve se a sua honra em conseqncia
  das loucuras do luxo. Supe-se naturalmente que Henrique e Anastcio, depois de
  libertarem Leonina levam-na aos pais; estes reconheceriam no moo o salvador da
  filha, e no hesitariam em dar-lha por esposa. Longe disso, o tio e o sobrinho
  levam a moa para a casa de uma parenta, e o 5. ato abre-se no meio da
  desolao dos pais, que de um lado esto arruinados, e do outro choram a perda
  da filha que no podem encontrar. Mas a filha aparece depois trazida por
  Henrique. Felisberto, o irmo de Maurcio, desprezado por ele, aparece tambm,
  por inspirao tocante, e vem socorrer com as suas economias o irmo arruinado.
  Anastcio, porm, j tem prevenido o caso, tudo fica salvo e volta a paz
  domstica.

Mas o decoro da famlia fica salvo? Dissemos que era
  natural, uma vez salva a moa, ser levada pelos salvadores para dentro de casa
  e entregue aos pais. Realizando, ainda que sob outras vistas, o rapto
  projetado. Henrique e Anastcio, to austeros como so e to penetrantes como
  supomos que devem ser, no viram uma coisa simples, a saber: que a ausncia de
  Leonina de casa dos pais, durante uma noite e um dia, era bastante para dar 
  malignidade despeita de Fabiana e Frederico, campo vasto s conjeturas, as
  insinuaes e as calnias?

Deste modo no ficava a menina sujeita aos caprichos da
  opinio? Qual era a maneira digna e nobre que convinha a Henrique para
  conquistar Leonina? Desprezado por pobre, a sua vitria devia assinalar-se de
  modo que pusesse em relevo a sua nobreza moral; era uma conquista e no uma
  emboscada; que faria Maurcio, vendo entrar a filha raptada de brao com
  Henrique? Qualquer que fosse o aborrecimento que lhe inspirasse o rapaz, o
  decoro impunha-lhe o dever de ceder ao casamento. Realmente se a virtude no
  tem outros recursos para triunfar, no vale a pena sofrer-lhe as privaes. O
  mesmo argumento serve para Anastcio, autor e cmplice na histria do rapto; o
  desde que ele tem prvio conhecimento da tentativa de Fabiana, corre-lhe o
  dever de prevenir os pais de Leonina; mesmo corri a certeza de salvar a moa
  (salv-la!), a simples tentativa bastava para atrair a ateno pblica, e
  devassar o lar domstico. Francamente, se Anastcia previne os pais e impede a
  tentativa, teria praticado um ato que valeria por todos os seus discursos. O
  seu silncio produziu um resultado funesto, a saber: que os personagens
  honestos da pea utilizam-se dos meios empregados pelos personagens viciosos,
  inclusive a circunstncia do narctico, para praticar aquilo mesmo que lhes
  cumpria condenar.  aceitvel esta concluso?

Se a inveno  pobre, se os caracteres so violentos,
  contraditrios e incorretos, h ao menos nesta pea a habilidade dos meios
  cnicos e a beleza do estilo? Os meios cnicos j vimos quais eles so;
  movem-se as personagens e produzem-se as situaes sem nenhuma razo de ser,
  sem nenhum motivo alegado; h uma cena no baile de mscaras que produziu muito
  efeito no teatro;  aquela
  em que Anastcio
  , mascarado, quando todos esto sem
  mscaras, obtm o triunfo oratrio, definindo em termos indignados os
  personagens presentes; apesar de falar em voz natural ningum o conhece;
  Maurcio, como lhe impe o dever de dono da casa, quer arrancar-lhe a mscara;
  Anastcio lembra-lhe a hora em que, no dia seguinte, tem de achar-se diante da
  justia; Maurcio acalma-se e a nica satisfao que d aos convivas  obrigar
  Hortnsia a dar o brao a Anastcio. Temos acaso necessidade de lembrar tambm
  a cena do jardim, na noite do baile, em que os pais arrancam  filha o
  consentimento para casar com o Comendador Pereira? Tais so os meios cnicos do Luxo e Vaidade. Quanto ao estilo, no  o d'O Cob; a pressa com
  que o autor escreveu o drama revela-se at nisso;  um estilo sem inspirao
  nem graa, nem movimento. O autor, que poderia ao menos salvar a pea com uma
  boa prosa, descurou essa parte importante da composio.

A anlise de Luxo e Vaidade abrevia-nos a de Lusbela; como dissemos, os defeitos da primeira so comuns  segunda pea. Lusbela  um quadro do mundo equvoco; subsiste aqui a mesma objeo que fizemos a
  respeito do Luxo e Vaidade:entrando
  tambm no caminho encetado por outros poetas, que novos elementos pretendeu
  tirar o Sr. Macedo de um assunto j gasto? Lemos a pea, e no achamos
  resposta. A pea no oferece nada de novo, a no ser uns tons carregados e
  falsos, umas situaes violentas, nenhum conhecimento da lei imoral dos
  caracteres; e alm de tudo um estilo que requinta nos defeitos o estilo do Luxo
    e Vaidade. Quem estudar desprevenido a pea do Sr. Dr. Macedo ver que
  exprimimos a verdade; e quanto  convenincia de exprimi-la, o prprio poeta h
  de reconhec-lo quando quiser meditar sobre as suas obras, e compar-las com as
  exigncias da posteridade. A posteridade s recebe e aplaude aquilo que traz em
  si o cunho de belo; ao ler as peas do Sr. Dr. Macedo d vontade de perguntar
  se ele no tem em conta alguma as leis da arte e os modelos conhecidos, se
  observa com ateno a natureza e os seus caracteres, finalmente, se no est
  disposto a ser positivamente um artista e um poeta. Em matria dramtica, se
  fizermos uma Pequena exceo, a resposta  negativa.

Dispensamo-nos igualmente de narrar o enredo de Lusbela, que todos conhecem. Sofre-se este drama como um pesadelo e chega-se ao fim,
  no comovido mas aturdido; parece incrvel que o delicado autor d'A Nebulosa, achando-se no terreno spero em que entro no houvesse, graas  vara
  mgica da poesia, produzido uma obra de artista, em vez do drama que nos deu.
  Nesta, como no Luxo e Vaidade v-se um certo modo de pintar as
  personagem, que lhes tira todas as condies humanas. Produzir efeito parece
  ser a preocupao constante do autor de Lusbela; o nosso intuito deixa
  de parte aquilo que poderia conduzi-lo aos efeitos de arte, e no aos eleitos
  de cena, no sentido vulgar da frase. Deste princpio sente-se logo em que
  terreno se coloca o autor; uma moa pobre, a filha do jardineiro Pedro Nunes, 
  desonrada por um homem rico, o amo do pai. As simpatias gerais ficam seguras
  deste modo; a pea tem logo por si todos quantos abraam a fraqueza da vtima
  de um potentado; mas o resto? como sai o autor da situao em que se coloca?
  Damiana, desonrada por Lencio,  lanada fora da casa paterna, e depois de
  algumas peripcias narradas mais tarde, a moa aparece no 1. ato com o nome de
  Rosa Lusbela. Lusbela vem de Lusbel, o personagem dos Milagres de Santo
    Antnio, que ela aplaudiu um dia no teatro de S. Pedro de Alcntara. Rosa
  Lusbela  um tipo de mulher desenvolta libertina; a sociedade, que  sempre o
  bode emissrio destas desgraas, recebe de Lusbela algumas afrontas e
  apstrofes; no diremos que o tipo no seja em parte real, o que afirmamos 
  que naqueles abismos j se no encontram prolas; o amor puro de Lusbela por
  Leonel  simplesmente impossvel; argumenta-se com Margarida Gautier; no
  entramos agora no exame da pea de Dumas, apenas lembramos que entre Margarida
  Gautier e Lusbela a diferena  grande; Margarida Gautier pertence ao mundo de
  Lusbela, mas parece que h nesse mundo distines geogrficas, pois que o pas
  de uma no  o da outra. Margarida est longe da virtude, mas no est prxima
  de Lusbela; finalmente, lutando com a audcia da concepo, Dumas Filho
  procurou dar  sua herona umas cores poticas que no existem de modo algum na
  herona do drama brasileiro.

Lusbela pretende amar Leonel, e isto at certo ponto
  supe-lhe um pouco de sensibilidade; mas pode aceitar-se esta hiptese ?
  Lusbela sabendo que Leonel ama uma menina, e vai casar-se, atrai a pobre noiva
   sua casa, sob pretexto de dar-lhe costura, mas na inteno firme de
  pervert-la; arrepende-se em certa ocasio, mas a certeza de que no  amada
  volta-lhe o esprito para esse primeiro plano.

Por uma circunstncia imprevista, Cristina  sua prpria
  irm; essa, e no outra razo, salva a pobre menina de um abismo. Suprima-se
  esta circunstncia, qual seria a marcha da pea? No  difcil prev-la,
  Lusbela praticaria um ato de monstruosidade.

Todos se lembram que Leonel  primo de Lencio; esse,
  autor da desonra de Damiana, procura impedir o casamento do primo com Cristina,
  irm de Lusbela. Daqui vem a luta entre e Lencio, que faz uma parte da ao da
  pea. No tentaremos descrever essa luta, entremeada do episdio das notas
  falsas, e de algumas situaes mal preparadas para efeito.

O episdio das notas  mais uma prova do modo fcil com
  que o autor resolve as dificuldades um moedeiro falso prope a Lusbela entrar
  na associao a que ele pertence e ajud-lo na distribuio dos bilhetes.
  Lusbela resiste, mas a idia de fazer feliz a irm resolve-a a aceitar;
  Graciano (o moedeiro) leva-lhe uma caixinha com bilhetes; nesse ato, que  o
  3., j moram com Lusbela a irm e o pai. Quem compara a castidade de Cristina
  e a perversidade de Lusbela, ressente-se deste contacto odioso. Lusbela no
  quer receber a caixa, mas Graciano acha meio de deix-la sobre a mesa. No 
  possvel haver um moedeiro falso mais estouvado; comea por fazer uma proposta,
   queima-roupa, e acaba deixando a caixa fatal na casa de uma mulher que lhe
  no pode merecer confiana absoluta. A caixa das notas, que deve servir mais
  tarde de corpo de delito, tem uma chave; como fazer desaparecer as notas e a
  chave, e trazer suspenso o espectador at o fim da pea? Mediante um delrio de
  Pedro Nunes, que sai do quarto, abre automaticamente a caixa, queima os
  bilhetes e perde a chave, aparecendo depois a caixa fechada. Vai-se ao teatro
  buscar uma comoo, no se vai procurar uma surpresa; o poeta deve interessar o
  corao, no a curiosidade; condio indispensvel para ser poeta dramtico.

Falta-nos tempo e espao para maior anlise; limitamo-nos
  a estas consideraes; cremos que ningum haver que, depois de ler atenta e
  desprevenidamente as peas de que tratamos, no se convena de que exprimimos a
  verdade, com a franqueza digna do poeta e da crtica. Em outra ocasio veremos
  as comdias do Sr. Dr. Macedo e procuraremos usar da mesma imparcialidade e dos
  mesmos conselhos. Sentimos que a publicao destes escritos seja contempornea
  da dissidncia poltica que separa o Dirio do Rio do deputado
  fluminense; talvez haja quem veja na franqueza literria uma espcie de
  oposio poltica; tudo  possvel num pas onde h mais talento que modstia,
  mas nesta humilde posio, s duas coisas nos preocupam: o voto dos homens
  sinceros e a tranqilidade da nossa conscincia; nicas preocupaes de quem
  professa o culto da verdade.

II

O Sr. Dr. Macedo goza hoje da reputao de poeta cmico; 
  uma das mais belas ambies literrias. Mas at que ponto  legtima essa
  reputao? Sem contestar no Sr. Dr. Macedo o talento da comdia,  nosso dever
  defini-lo, e, se a palavra no  imodesta aconselh-lo. O autor da Torre em
    Concurso, arrastado por uma predileo do esprito, pode no atender para
  todas as condies que exige a Poesia cmica;  fora de dvida que lhe so
  familiares os grandes modelos da comdia; mas a verdade  que, possuindo
  valiosos recursos, o autor no os emprega em obras de superior quilate. At
  hoje no penetrou no domnio da alta comdia, da comdia do carter; nas obras
  que tem escrito, atendeu sempre para um gnero menos estimado: e, se lhe no
  faltam aplausos a essas obras, nem por isso assentou ele em bases
  seguras a reputao de verdadeiro poeta cmico.

Evitemos os circunlquios: o Sr. Dr.. Macedo emprega nas
  suas comdias dois elementos que explicam os aplausos das platias: a stira e
  o burlesco. Nem uma nem outra exprimem a comdia.

A Torre em Concurso define e resume perfeitamente as tendncias cmicas
  do Sr. Dr. Macedo; demais, o prprio autor limitou as suas aspiraes definindo
  essa pea como comdia burlesca. O Fantasma Branco, se no confessa as
  mesmas intenes, nem por isso exclui de si o carter da Torre
  em Concurso. Finalmente
  , o Novo Otelo vem em apoio da nossa
  apreciao. No Luxo e Vaidade houve um tentmen cmico: mas a mesmo,
  logo ao abrir do primeiro ato, entra em cena o burlesco debaixo da figura de um
  criado e de uma professora. Somos justos; o autor no pretende dar as suas
  peas como verdadeiras comdias; o burlesco  to franco, a stira to
  positiva, que bem se v a inteno do autor em reconhecer-lhes apenas o carter
  de satricas e burlescas. Ora,  exatamente essa inteno que nos parece
  condenvel. Dotado de talento estimado do pblico, o Sr. Dr. Macedo tem o dever
  de educar o gosto, mediante obras de estudo e de observao. Se no vssemos no
  autor do Fantasma Branco elementos prprios para cometimento desses,
  outra seria a nossa lngua mas o Sr. Dr. Macedo possui o talento cmico; no
  est patente nas suas obras, mas adivinha-se; pode, pois, se quiser, renunciar
  s fceis vitrias da stira e do burlesco, e entrar na larga vereda da comdia
  de costumes e de carter. Em relao aos costumes e aos vcios, que podem
  significar a Torre em Concurso e o Fantasma Branco? A primeira
  destas comdias foi representada h pouco tempo e est fresca na memria de
  todos;  um quadro burlesco, uma caricatura animada de costumes polticos.
  Confessando no frontispcio a natureza da composio, o autor abre  sua musa
  um caminho fcil aos triunfos do dia, mas impossvel s glrias durveis. Se o
  burlesco pudesse competir com o cmico, o Jodelet de Scarron estaria ao
  p Mulheres Letradas de Molire. Mas no acontece assim; a comdia 
  muito boa fidalga; repugnam-lhe estas alianas; pode transformar-se com os
  tempos, desnaturar-se  que no. Isto que todos reconhecem e o prprio Sr. Dr.
  Macedo compreende, devia produzir no nimo do autor da Torre em Concurso um
  efeito salutar.  certo que, nesse caso, o autor tinha de pedir ao tempo, ao
  estudo,  observao e  poesia, os materiais das suas obras; mas os resultados
  desse esforo no haviam de compens-lo?

O burlesco, embora suponha da parte de um autor certo
  esforo e certo talento,  todavia um meio fcil de fazer rir as platias. A
  prpria Torre em Concurso fornece-nos uma prova, desde que se levanta o
  pano, os espectadores riem logo s gargalhadas; assiste-se  leitura de um
  grande edital. Que haver de cmico em um edital? Nada que no seja esforo da
  imaginao do autor;  um edital burlesco, dirigido na inteno de produzir
  efeito nos espectadores; a fantasia do autor tinha campo vasto para redigi-lo
  como quisesse, para acumular as expresses mais curiosas, as clusulas mais
  burlescas. Se o autor quisesse cingir-se  verdade, levaria em conta que o
  escrivo Bonifcio, homem de bom senso e at certo ponto esclarecido, como se
  v no correr da comdia, no podia escrever aquele documento. Mas  intil
  apelar para a verdade tratando-se de uma obra que se confessa puramente
  burlesca. Assentado isto, o resto da pea desenvolve-se sob a ao da mesma
  lei; o autor declara-se e mantm-se nos vastos limites de uma perfeita
  inverossimilhana. Como exigir que as pretenses amorosas da velha Ana, os seus
  cimes e os seus furores, apaream ao pblico, no como uma caricatura, mas
  como um ridculo? Se pretendssemos isto, se exigssemos a naturalidade das
  situaes, a verdade das fisionomias, a observao dos costumes, o autor
  responder-nos-ia vitoriosamente que no pretendeu escrever uma comdia, mas uma
  pea burlesca. Duvidarmos, porm, que possa responder com igual vantagem quando
  lhe perguntarmos por que motivo, poeta de talento e futuro, escreveu uma obra
  que no  de poeta nem acrescenta o menor lustre ao seu nome.

Aceitando a pea, como ela , no h negar que as
  intenes polticas da Torre em Concurso so de boa stira. Stira burlesca, 
  verdade. Nada menos cmico que aquela sucesso de cenas grotescas; mas, atravs
  de todas elas, no se perde a inteno satrica do autor; a luta dos partidos,
  a eleio, a fraude poltica, a interveno de Ana, tudo isso forma um quadro,
  onde,  mngua de cunho potico, sobram as tintas carregadas, acumuladas no
  intuito de criticar os costumes polticos. No  portanto a idia da pea que
  nos parece condenvel,  a forma. A mesma idia vazada em uma forma cmica
  produziria uma composio de merecimento. O juiz de paz Joo Fernandes, sem fora
  nem carter, levado alternativamente ora pela irm, ora pelas influncias
  eleitorais, tem um qu de cmico; mas, reduzido a estas propores, saa fora
  do crculo que o autor se traou, e no produziria o desejado efeito nas
  platias. Que fez pois o autor? Deu-lhe propores burlescas, e as cenas do
  edital escrito nas costas, do pleito dos partidos para possu-lo, da clusula
  do casamento, tudo isso retirou  figura do juiz de paz o cunho original e
  cmico. Esta comparao pode ser reproduzida em relao a uma parte dos
  personagens; mas basta uma para definir o nosso pensamento. No fazemos
  anlise, apreciamos em sua generalidade as comdias do Sr. Dr. Macedo. O Fantasma
    Branco no se confessa comdia burlesca, como a Torre em Concurso,
  mas a mesmo o burlesco  o elemento principal. Entretanto, sem que se
  prestasse a uma alta comdia, o Fantasma Branco podia fornecer tela para
  uma obra de mais alcance; o defeito e o mal est em que o autor cede geralmente
   tentao do burlesco, desnaturando e comprometendo situaes e caracteres. A
  covardia e a fanfarronice do Capito Tibrio, as rusgas de Galatia e Baslio,
  a rivalidade dos dois rapazes, as entre vistas furtivas de Maria e Jos, podiam
  dar observaes cmicas e cenas interessantes. Para fazer rir no precisa
  empregar o burlesco; o burlesco  o elemento menos culto do riso.

Se fosse preciso resumir por meio de uma comparao a
  profunda diferena que h entre o trao cmico e o trao burlesco, bastava
  aproximar um lance de mestre de um lance da Torre
  em Concurso. H
   nesta
    pea uma cena de boa observao poltica;  quando Batista, em virtude de uma
    descortesia de Pascoal, que  a bandeira do partido amarelo, passa para as
    fileiras do partido vermelho. 'Insolente, diz Batista, no respeita um dos
    chefes do seu partido!' Este dito e esta passagem tinham completo o trao;
    havia alguma coisa de cmico; mas Batista no s abandona as suas fileiras,
    seno que moraliza o ato: 'Fao o que muitos tm feito, arranjo a vida;
    estou passado'. Esta maneira de repisar a observao cmica tira-lhe a
    energia e o efeito; cai na stira; j no  o personagem,  o autor quem
    exprime por boca dele um juzo poltico. Ora, quando se encontra em uma comdia
    um desses traos felizes, o cuidado do poeta deve aplicar-se em no desnatur-lo.
    Vejamos como o grande mestre procedia em casos idnticos; Harpago acha-se um
    dia roubado; o cofre dos seus haveres desapareceu do lugar em que o avarento
    costumava guard-lo; todos sabem que cenas de desespero seguem a este sucesso;
    Harpago chama a justia; trata-se de saber onde pra o cofre; no  um cofre,
   a alma de Harpago, que se perdeu; o infeliz corre de um lado para outro, e,
    nessa labutao, repara que h na sala duas velas acesas; apaga maquinalmente
    uma delas. Movimento involuntrio, natural, cmico; mas feito isto, Harpago
    no diz palavra, porque a sua idia fixa  a perda da fortuna. Pelo sistema do
    autor do Fantasma Branco, Harpago no deixaria de dizer  parte:
  'Duas velas! que estrago!  demais!'

Citando o exemplo de Molire, no  nossa inteno exigir
  do Sr. Dr. Macedo arrojos impossveis; apenas apontamos ao distinto autor d'O
    Cego as lies da boa comdia, a maneira artstica de reproduzir as
  observaes cmicas, evitando anul-las por meio de torneios de frases e consideraes
  ociosas; procurando enfim excluir-se da cena, onde s devem ficar os
  personagens e a situao.

O autor do Fantasma Branco, como fica dito,
  sacrifica muitas vezes a verdade de um carter para produzir um efeito e uma
  situao; isto no drama, isto na comdia. Exemplo: os dois filhos do Capito
  Tibrio so rivais, de amor; pretendem ambos a mo da prima Mariquinhas. Daqui
  origina-se um duelo; mas ambos so to covardes como o pai; o provocador
  arrepende-se, o outro chega-se como para um patbulo; o duelo  marcado para a
  noite, na montanha do fantasma; ambos tm a idia simtrica de esconder-se no
  vo da escada.

 uma cena de apartes em que cada um deles mostra o receio
  de ser morto pelo outro; esbarram-se, caem, pedem desculpas mutuamente, e os espectadores
  riem s gargalhadas; mas o que torna esta cena forada, impossvel, sem cmico
  algum,  que ela destri inteiramente o carter dos rapazes. Se eram covardes,
  embora fossem obrigados a aceitar a idia do duelo, em vez de virem para o
  terreiro, era natural deixarem-se ficar em casa, at pela considerao de que a
  noite no  hora dos duelos. Um deles faz esta reflexo: 'Se ele no subir
  a montanha, nem eu; e amanh digo que o estive esperando toda a noite'.
  Ora, estas palavras so exatamente a crtica da cena. Para dar aquela desculpa,
  Francisco nem precisava sair de casa: um quarto era lugar mais seguro que o vo
  da escada. 'Estive quase no quase, diz Antnio, deixando-me ficar
  deitado; pois o malvado fratricida no podia matar-me sem me dar o incmodo de
  subir a montanha?'

No somente a cena  forada, seno que os prprios
  interlocutores incumbem-se de fazer-lhe a crtica.

A rivalidade de Galatia e Baslio, que podia fornecer
  algumas cenas cmicas, e alguns traos de costumes, degenera em uma troca de
  palavras grotescas, de apstrofes singulares, sem resultado algum. Do mesmo
  gnero  a cena em que, os dois rapazes fazem a declarao a Mariquinhas; o
  amor de Francisco reduzido a libelo acusatrio  uma idia que prima pelo
  burlesco, mas no pertence ao domnio da comdia. E, todavia, insistimos, o Sr.
  Dr. Macedo podia fazer daquela pea uma coisa melhor, mais sria, de mais digno
  alcance. Dizem-nos que o Fantasma Branco foi escrito sem a inteno da
  cena; isto poderia ser uma atenuante, se o autor no houvesse mostrado em
  outras peas quais so as suas predilees
  em teatro. A
  leitura
  refletida do Fantasma Branco e da Torre em Concurso basta para
  deixar ver que essas predilees merecem o justo reparo da crtica. Nada
  diremos do Novo Otelo que rene, em pequeno quadro, o gnero da
  comdia do Sr. Dr. Macedo, e bem assim a imitao do francs, denominado O
    Primo da Califrnia. Amor e Ptria  um ligeiro drama num ato; e
  quanto ao Sacrifcio de Isaac, quadro bblico, compe-se de alguns
  versos harmoniosos, sobre a lenda hebraica.

Tal  o teatro do Sr. Dr. Macedo, talento dramtico, que
  podendo encher a biblioteca nacional com obras de pulso e originalidade,
  abandonou a via dos primeiros instantes, em busca dos efeitos e dos aplausos do
  dia; talento cmico, no penetrou na esfera da comdia, e deixou-se levar pela
  seduo do burlesco e da stira teatral. A boa comdia, a nica que pode
  dar-lhe um nome, talvez menos ruidoso, mas com certeza mais seguro, essa no
  quis pratic-la o autor da Torre
  em Concurso. Foi
  o seu erro. Acompanhar as alternativas caprichosas da opinio, sacrificar a
  lei do gosto e a lio da arte,  esquecer a nobre misso das musas. Da parte
  de um intruso, seria coisa sem conseqncia; da parte de um poeta, 
  condenvel.

Atender o Sr. Dr. Macedo para estas reflexes que nos
  inspira o amor da arte e o sincero desejo de v-lo ocupar no teatro um lugar
  distinto? No lhe perdemos a esperana; o autor do Fantasma Branco chegou
   idade de cultivar a comdia; o estudo da vida e o estudo dos padres que o
  passado nos legou, lev-lo- sem dvida aos srios cometimentos; o drama, de
  que nos deu alguns lampejos, pode tambm receber das suas mos formas puras e
  corretas. Mas para atingir a tais resultados cumpre-lhe abandonar o antigo
  caminho e os meios usados at hoje. Se j escreveu pginas que realmente o
  honram, no fez ainda tudo quanto a nossa bela ptria tem direito de
  exigir-lhe. Nunca  tarde para produzir belas obras; foi aos cinqenta anos que
  o autor da Metromania comps esse livro admirvel, e o Sr. Dr. Macedo
  ainda est muito longe da idade de Piron. A Metromania salvou a
  reputao dramtica do poeta francs de um esquecimento inevitvel; exemplo
  histrico que deve estar presente  memria de todos os poetas.

Fomos francos e sinceros na anlise das obras do Sr. Dr.
  Macedo; assim como condenamos as suas comdias e uma parte dos seus dramas,
  assim aplaudiremos, em tempo conveniente, as obras realmente meritrias do
  autor d'A Moreninha; se em ambos os casos estamos em erro, 
  dever dos componentes guiar-nos  verdade.

Terminaremos hoje com duas notcias literrias. A primeira
  foi publicada no Correio Mercantil, em correspondncia de Florena:
  traduziu-se para o italiano o belo romance O guarani do Sr. J. de
  Alencar. O correspondente acrescenta que a obra do nosso compatriota teve
  grande aceitao no mundo literrio. Um escritor do pas, o Dr. Antnio
  Scalvini, tirou desse romance um poema para pera, que vai ser posto em msica
  pelo compositor brasileiro Carlos Gomes. A segunda notcia  que chegaram de
  Bruxelas as duas obras anunciadas nesta folha, Romances Histricos e Viagens
    a Venezuela, Nova Granada e Equador.  autor delas o Sr. Conselheiro Miguel
  Maria Lisboa, embaixador de Sua Majestade
  em Bruxelas. Ocupar-nos
  -emos
  dos dois livros em ocasio oportuna.

 Semana
  Literria, 1. e 08 de maio de 1866.

Rei
  morto, rei posto

Com este ttulo foi representada na Fnix Dramtica uma
  comdia-revista do ano de 1874.

Levado pelo prestgio do autor, que  o nosso distinto
  colega o Sr. Joaquim Serra, encheu o pblico toda a sala do teatro.

O nome de J. Serra afianava a obra; podia-se contar de
  antemo que ela estaria na altura da reputao do autor, granjeada por
  trabalhos que figuram entre os melhores escritos nacionais.

E assim foi. Aplicando o seu talento fcil e dctil ao
  gnero novo que ensaiava, J. Serra correspondeu  curiosidade pblica.

Original e engenhoso na forma que deu  revista, dividida
  em dois quadros e escrita em verso octosslabo, Joaquim Serra soube cativar o
  interesse sem complicao de enredo, e o pblico retribuiu o trabalho com boas
  risadas e palmas.

Nenhum dos principais sucessos do ano passado deixou de
  figurar na galeria do Rei morto, rei
    posto; e para todos tem o poeta aluses finas, sem ofensa, verdadeiramente
  literrias e dignas do seu nome. O que no conviria dizer claramente, f-lo por
  meio de uma alegoria engenhosa, que o pblico entendeu e aplaudiu. A exposio
  de D. Conferncia, da Moda e do cocheiro de tlburi, por exemplo, so
  excelentes.

O verso no precisa dizer que  fcil, gracioso e
  elegante; basta dizer que so do autor dos Quadros e do Corao de Mulher.

Estas revistas acabam sempre com a quadra em que nascem. A
  de J. Serra pode ser lida em qualquer tempo; acha-se-lhe o que falta geralmente
  nas outras revistas, o sabor literrio.

Nossos emboras ao poeta.

E no os damos s por esta composio, mas por outra de
  igual gnero, que est sendo representada no Vaudeville, com muitos e merecidos aplausos. Essa  escrita em
  prosa, mas a prosa de J. Serra  sempre viva e cintilante de esprito, e basta
  a circunstncia de serem duas composies do mesmo gnero, to diferentes entre
  si, para mostrar a fecundidade da imaginao do autor.

Vejam os nossos leitores ambas as peas, e tero mais uma
  ocasio de saudar o nome de J. Serra.

10 de janeiro, 1875.

O caso Ferrari

L-se no Secolo,
  de Milo:

Vamos comunicar aos nossos leitores importante notcia
  agora mesmo recebida de Npoles, graas ao zelo do nosso incansvel
  correspondente.

H cerca de trs meses, o irmo porteiro de um convento de
  mendicantes foi despertado alta noite, pelo toque aflitivo da sineta. No havia
  que admirar no caso; mais de uma vez os dignos cenobitas tm sido chamados a
  desoras, para o fim de prestar os socorros espirituais a moribundos. H quem
  fale contra os frades;  fcil; o que no  fcil  imitar o zelo e a piedade
  de homens, que se dedicam aos outros homens, sem esperana nem ambio de
  nenhuma terrestre recompensa.

Vestiu-se o irmo porteiro e correu a ver quem batia.
  Abriu desacauteladamente a porta, e no teve tempo de falar, porque um vulto de
  homem, precipitando-se para dentro, caiu ajoelhado aos ps do pio monge. Voltou
  este do assombro e perguntou:

-- Quem s? que me queres?

-- Sou um pescador; desejo a paz e o esquecimento, disse o
  desconhecido.

O irmo porteiro f-lo subir  sua cela. A luz da lmpada
  bateu ento, de chapa, no rosto do desconhecido, que j havia sacudido dos
  ombros a larga capa que o cobria. Era um homem de estatura me, cheio, olhar
  sombrio e desvairado.

-- Senta-te, irmo, e dize-me quem s e o que queres.

O desconhecido sentou-se numa pobre cadeira, nico
  ornamento da cela, e esteve ainda alguns minutos ofegante, e como sem saber de
  si. Quando pde falar fez esta extraordinria revelao:

-- Chamo-me Ferrari, empresrio de companhias lricas.
  Nunca o meu nome chegou decerto aos ouvidos de Vossa Paternidade, porque a esta
  solido santa e asctica vem morrer o eco das distraes mundanas. De tais
  distraes vivi eu, e viveria at morrer, se um funesto acontecimento me no
  viesse sangrar a alma de remorsos...

-- Que foi?

-- Estando no Rio de Janeiro, h alguns meses, contratei
  com os habitantes levar-lhes este ano uma companhia lrica, prometendo de minha
  parte a primazia de exibio e a excelncia do pessoal, e exigindo em troca a
  prvia assinatura do teatro e a entrada de uns tantos por cento. No imagina
  Vossa Paternidade o ardor com que os habitantes do Rio de Janeiro aceitaram a
  minha proposta e cumpriram pontualmente as clusulas que lhes diziam respeito.
  As assinaturas vieram; a porcentagem foi depositada em um banco, e eu embarquei
  para a Europa. Logo que aqui cheguei...

Ferrari no pde acabar a frase. Grossas lgrimas e fortes
  soluos lhe embargaram a voz. O monge afagou-o com muita ternura e o infeliz
  continuou:

-- Logo que cheguei, encontrei o diabo. No falo metaforicamente;
  encontrei o prprio inimigo do gnero humano, quando eu comeava a organizar a
  companhia, tendo j contratado a Volpini. Perguntou-me ele se queria ganhar, em
  um instante, glria, riqueza e poder; mais ou menos, a proposta que fizera ao
  Fausto. Recusei, e recusei obstinadamente; mas o astuto inimigo no se deu por
  vencido. Como espreitava a minha alma, apimentou mais a tentao, usando o seu
  prfido estilo do costume.

-- Dou o que quiseres; pede tudo; eu te darei tudo. O poder
   uma nobre ambio: ters o poder; a riqueza um benefcio legtimo: dar-te-ei
  cabedais de nababo. Se preferes a glria, ters a glria, seja a de Homero, a
  de Newton, a de Bonaparte ou a de Miguel ngelo. V l: banqueiro, poeta,
  artista, sbio ou general; escolhe.

A oferta deslumbrou-me; minha alma sentiu a vertigem do
  mal.

-- Que exiges em troca? disse eu.

-- A tua companhia lrica; eliminarei alguns cantores;
  copiarei a tua figura; irei a Buenos Aires.

-- Mas eu prometi ir primeiro ao Rio de Janeiro...

-- Por isso mesmo; lograremos o Rio de Janeiro.

No refleti nas terrveis condies do contrato que me
  propunha o gnio das trevas, e cedi. Ele tomou a minha forma, eliminou alguns
  cantores e partiu com os outros para Buenos Aires. Poucas horas depois... Ah!

-- Sossega; continua.

-- Poucas horas depois da partida, reconheci todo o horror
  da minha situao. Satans comprara a minha alma! Aterrado e curtido de
  remorsos, recusei as ofertas que de toda a parte me chegavam quase no mesmo
  instante: a neta de um raj da ndia, o ministrio bvaro e a coroa de
  Marrocos. Recusei; fugi de casa. Vaguei dias e dias, sem comer nem beber; trs
  vezes tentei matar-me, atirando-me  cratera do Vesvio. Enfim, h uma hora,
  atravessando a rua Chiaja, ouvi uma voz misteriosa, que me disse: 'Retira-te,
  retira-te!' Compreendi a intimao; corri ofegante a esta casa santa; e de
  joelhos imploro. Irmo, quero fazer-me frade!

-- Que ouo! clamou o irmo porteiro.

-- A verdade, retorquiu Ferrari; quero fugir ao mundo;
  quero purgar a minha fraqueza na solido de uma cela e nos trabalhos mais
  rduos da vida monstica. Abjuro os erros do passado, peo as guas da
  regenerao.

Imaginem facilmente os nossos leitores a alegria com que o
  digno monge ouviu estas palavras de Ferrari. Estendeu-lhe os braos; apertou-o
  ao corao; disse-lhe muitas palavras de brandura e amor. Era j sobre a
  madrugada; deu a Ferrari a sua pobre cama e velou at o nascer do sol.

Terminadas as matinas, o irmo porteiro referiu o
  extraordinrio caso ao Provincial, que no ficou menos assombrado nem menos
  jubiloso do que ele. A nova correu todo o convento; foi um alvoroo geral.
  Ferrari narrou perante a comunidade a histria de seus remorsos e o prodgio da
  sua vocao, e acabou pedindo o hbito.

-- T-lo-s, disse o Provincial; e com a brevidade que
  permitem antigos privilgios desta casa. Entretanto, so precisas duas coisas:
  a primeira, que saibas as letras cannicas...

-- Cursei outrora um seminrio, acudiu Ferrari.

-- Bem; a segunda,  que faas penitncia como um
  preparativo  tua completa regenerao.

-- Oh! tudo o que for necessrio!

Assentadas as coisas deste jeito, Ferrari comeou uma vida
  de cruis mortificaes. Cingiu aos ombros um cilcio, que lhe sangrava as
  carnes constantemente. As horas, que no dava s prticas e oraes do ritual
  ou aos servios da comunidade, empregava-as em penitncias e castigos de toda a
  espcie. Passava muitas noites, de bruos, nas pedras do claustro, ora mudo e
  como defunto, ora a pedir perdo de suas iniqidades. Outras vezes, passeava
  durante muitas horas, e das celas contguas ouviam-lhe estas palavras soltas e
  sem sentido aparente:

-- Assinaturas... comisso... Casteles... Volpini... Vinte
  por cento... Ohim!!!

Mais de uma vez foi visto, com os braos erguidos para o
  lado do ocidente, ficando longo tempo nessa posio, sem discrepar uma linha.

Noutras ocasies, a penitncia consistia em olhar para a
  ponta do nariz, como os bonzos. Tamanhas e to continuadas foram as mortificaes,
  que o Provincial, h cerca de um ms, lhe disse estar cumprida a segunda das
  condies impostas.

-- Para o meu erro, creio, disse o novio; mas os males que
  Satans h de semear naquelas terras...

-- No importa; professars daqui a uma semana.

Passada uma semana, durante a qual as penitncias do
  novio foram exemplares, marcou-se o dia da profisso. O nosso correspondente
  assistiu a essa cerimnia, e escreve-nos dizendo que a fisionomia do novo
  mendicante  a mais asctica e espiritual que se pode imaginar. A cerimnia foi
  a um tempo imponente e tocante.

No fim, cingido o hbito, e obtida a vnia do Provincial,
  frei Ferrari subiu ao plpito e fez uma breve e eloqente prtica a todos os
  circunstantes, tomando por tema este versculo de Habacuque, I, 15: 'Tudo
  levantou com o anzol e ajuntou na sua rede'. O exrdio foi uma obra-prima.
  Comparou o mundo a um grande lago, cujas guas so turvas e lodosas. As almas
  so os peixes que as habitam, uns grados, outros midos, e na maior parte
  fceis de pescar. Satans  o torvo pescador. Destro no ofcio, senta-se ele 
  margem e lana  agua o anzol do pecado, com a isca dos prazeres mundanos. A
  alma que passa nem sempre tem a fora de aceitar a fome temporria para ganhar
  a saciedade eterna. No! a alma  gulosa do pecado, como o ouvido  guloso da
  msica. Trinca a isca; o pescador puxa o anzol; o eterno suplcio a espera.

Outras vezes, nem  preciso anzol; basta a rede. A humana
  credulidade torna fcil a pesca. Pelas malhas da rede diablica penetram todos
  os peixes, ou sejam tubares ou sardinhas. H casos em que os tubares entram
  mais facilmente do que as sardinhas. Ento, o pescador arrasta a rede  praia,
  e com ela o fruto de uma hora de pacincia.

Quando aprendereis,  homens (clamou o pregador em um
  rapto de magnfica eloqncia), quando aprendereis a resistir  rede e ao
  anzol? Quando chegareis a conter a fome, antes do que morder um verme ilusrio?
  quando alcanareis nadar nas guas do mundo, sem penetrar as malhas da rede
  infernal? E que por elas entre a sardinhas e os camares, compreende-se; mas a
  vs falo,  tubares, a vs, que sois grados e espertos, -- por que vos deixais
  cair nas malhas cruentas do pecado? Sbio  o peixe que no desdenha a isca,
  mas quer primeiro examinar o anzol; sbio  o peixe que no move as barbatanas
  sem ver se tem diante de si uma rede ou simplesmente a gua livre.

Segundo o nosso correspondente, este plido resumo apenas
  pode dar idia do que foi o soberbo discurso do novo mendicante. A perorao
  tocou por vezes o sublime; e ainda mais sublime que tudo foi a humildade com
  que frei Ferrari, comeando a ouvir os festivos emboras que lhe mereceu to
  magnfica estria, deitou a fugir e foi encerrar-se na cela, donde s saiu no
  dia seguinte. Este exemplo de modstia conquistou de uma vez todos os coraes
  da cidade.

Npoles no conhece hoje outro assunto de conversa, e,
  diremos mais, de meditao. Como sempre acontece, a imaginao popular d
  maiores propores  realidade; e, contudo, esta  bastante para encher a todos
  de assombro. Raras vezes ter sucedido um caso to cheio de peripcias, to
  entremeado de misria e grandeza. Essa histria, que comea numa simples
  palestra no Rio de Janeiro e acaba com a entrada vertiginosa no convento dos
  mendicantes; o pacto com Satans, o arrependimento, o remorso, a recusa dos
  cabedais e do poder, h em tudo isso uma cor shakespeareana, uma feio
  trgica. No inspirar este assunto alguma coisa aos nossos poetas dramticos?
  J daqui imaginamos o efeito que h de tirar disto algum Shakespeare do futuro.
  Variedade do cenrio: Npoles, Rio de Janeiro, Buenos Aires; tarantelas e
  seguidilhas; modinhas e cantocho. Satans empresrio; um empresrio monge; o
  real e o sobrenatural. Ah! se o divino autor do Hamlet pudesse ler um
  caso assim na crnica da idade mdia!

Esta notcia no seria completa, se no tocssemos em dois
  pontos.

O primeiro  a misso que tomou em seus ombros o novo
  frade de converter todos os empresrios de teatro; sejam dramticos ou lricos,
  e no s os empresrios, seno tambm os prprios artistas e maestros. Insaniam
    insanium; esta expresso, de um grande doutor, entrou profundamente na alma
  do mendicante, que j comea a ver o resultado de seus esforos. Todos os
  teatros de Npoles esto fechados; a Volpini retirou-se a uma ermida nos
  confins da Bomia; Verdi fez-se escrivo de defuntos.

O segundo ponto  a situao em que vo achar-se dentro de
  poucas semanas os habitantes do Rio de Janeiro. Supondo que tm consigo o
  incansvel empresrio, que foi o revelador da Aida e do Bolis, tm
  simplesmente o esprito das trevas, que copiou a figura de Ferrari para melhor
  colh-los na sua rede.

To grave perigo precisa ser conjurado por todos os modos,
  e ns j nos havamos lembrado de aconselhar vrias frmulas e usos de
  exorcismo; entre estes, o uso de queimar arruda, que  poderoso contra ms
  tentaes.

Entretanto, o nosso correspondente, em carta escrita 
  ultima hora, e recebida quando este artigo j estava no fim, refere-nos a entrevista
  que tivera com o mendicante, a propsito da empresa do diabo.

-- No lhe parece, disse ele, que os habitantes do Rio de
  Janeiro vo correr grande perigo, se ali penetrar o novo empresrio, e que h
  da sua parte tal ou qual obrigao de lhes desviar a espada de sobre a cabea?

-- Penso que sim.

-- Que remdio lhe parece que...

-- Parece-me que o melhor de todos  a habilidade, a
  cautela.

-- Prend-lo para averiguaes?

-- No.

-- Deix-lo ficar?

-- Sim. Deix-lo acabar de encher a lista das assinaturas...

-- Mas no ir ao teatro?

-- Ir ao teatro; dar-lhe at enchentes; mostrar que se
  ignora a simulao; proceder com toda a cautela, at v-lo sair. Uma vez sado,
  resta ao povo fluminense o recurso do corvo:

Jurer,
  mais un peu tard, qu'on ne l'y prendra plus...

O Cruzeiro, 21 de maio, 1878.

Antonio
  Jos

Um dia destes, relembrando uma passagem da tragdia que
  Magalhes consagrou  memria de Antonio Jos, adverti na resposta dada pelo
  judeu ao conde de Ericeira, quando esse lhe recomenda que imite Molire; o
  judeu responde que Molire escrevia para franceses e ele no. Ser essa
  resposta a rigorosa expresso da verdade? Antonio Jos no se modelou,
  certamente, pelas obras do grande cmico, no cogitou jamais da simples pintura
  dos vcios e dos caracteres. Molire caminhou do Mdico Volante e dos Zelos de Barbouill  Escola das
    Mulheres e ao Tartufo; Antonio Jos no passou das Guerras do
      Alecrim e Manjerona, e dado que tentasse faz-lo,  certo que no poderia
  ir muito alm. No tinha centro apropriado, nem largas vistas; faltavam-lhe
  outros meios, outros intuitos; e, se porventura entrou em seu esprito reatar a
  tradio de Gil Vicente, levantando sobre os alicerces lanados por esse
  operrio do sculo XVI as paredes de um teatro regular, convinha justamente no
  imitar nada, nem ningum, no se fazer Molire, nem Plauto, ficar Antonio Jos;
   a condio das obras vivas.

Interpretada desse modo,  exata e verdadeira a resposta
  que Magalhes pe na boca do judeu; mas s desse modo. O Anfitrio prova que o nosso poeta alguma coisa imitou e
  transplantou de Molire, a tal ponto que forosamente o tinha diante de si, ou
  na banca de trabalho ou na memria; e, porque essa observao no haja sido
  feita, cuido que interessar, quando menos, a ttulo de curiosidade literria.
  Ao mesmo tempo, direi o que me parece do escritor e da sua obra.

E, antes de mais nada, ocorre ponderar que Antonio Jos
  goza de uma reputao sobre palavra. A fogueira de 18 de Outubro de 1739
  iluminou-lhe a figura de maneira que o puderam ver todos os olhos; a tragdia
  do Sr. Magalhes vulgarizou-o entre as nossas platias de h 40 anos; mas s os
  estudiosos o tero lido, e nem todos, porque a tarefa exige constncia e
  esforo, embora de certo modo os pague. Pode-se dizer, sem erro, que ele
  pertence  famlia dos poetas cmicos, qualquer que seja o grau de parentesco,
  -- com a circunstncia que era um desperdiado, -- trocava a boa moeda do cmico
  pelo cobre vulgar do burlesco. Mas, poeta cmico era-o, e de boa veia; -- mais
  de certo que Nicolau Luiz, que lhe sucedeu na estima das platias de Lisboa,
  mais ainda que Manuel de Figueiredo, cujas intenes literrias abafaram,
  talvez, a livre expanso do engenho, e que alis escrevia de si mesmo que --
  'havendo-se enganado consigo em nfimas coisas, nunca se preocupou de que
  tinha graa'. Acresce que o fim trgico do judeu comunica s suas pginas
  alegres e juvenis um reflexo de simptica melancolia, que ainda mais nos
  convida a percorr-las e estud-las. A piedade no  de certo razo
  determinativa em pontos de crtica, e tal poetastro haver que, sucumbindo a
  uma grande injustia social, somente inspire compaixo sem desafiar a anlise.

No  o caso de Antonio Jos; este mereceria por si s que
  o estudssemos, ainda despido das ocorrncias trgicas que lhe circundam o
  nome.

Nenhuma das comdias do judeu se pode dizer excelente e
  perfeita; h, porm, graus entre elas, e a todas sobreleva a das Guerras do
    Alecrim e Manjerona. Nesta, como nas demais, nota-se decerto muita
  espontaneidade, viveza de dilogo, graa de estilo, variedade de situaes, e
  certo conhecimento de cena, mas a alma de todas elas no  grande; vive-se ali
  de enredo e de aparato. Se ao poeta foi estranha a inveno dos caracteres e a
  pintura dos vcios, no menos o foi a transcrio dos costumes locais. Salvo o Alecrim
    e Manjerona, todas as suas peas so inteiramente alheias  sociedade e ao
  tempo; a Esopaida tem por base um assunto antigo; a Vida de D.
    Quixote pe em cena o personagem de Cervantes; as outras peas so todas
  mitolgicas. Podiam estas, no obstante o rtulo, conter a pintura dos costumes
  e da sociedade cujo produto eram; mas, conquanto em tais composies influa
  muito o moderno, no se descobre nelas nenhuma inteno daquela natureza.

Ao contrrio, a inteno quase exclusiva do poeta era a
  galhofa e tal galhofa que transcendia muita vez s raias da convenincia
  pblica. Nenhuma de suas peas, -- peras  o nome clssico -- nenhuma  isenta de expresses baixas e at obscenas, com
  que ele, segundo lhe argia um prelado, 'chafurdou na imundcie'.
  Tinha razo o prelado, mas no basta ter razo; cumpre saber t-la. Ora, a
  baixeza e a obscenidade das locues no eram novidade na cena portuguesa, nem
  na de outros pases; e, deixando de ir agora a exemplos estranhos  nossa
  lngua, basta lembrar que o Cioso, de
  Ferreira, do culto autor da Castro,
  foi dado por Figueiredo com a declarao de ter sido 'expurgado segundo o
  melindre dos ouvidos do nosso sculo'. Gil Vicente, sem embargo de se
  representarem suas peas na corte de D. Joo III e D. Manuel, adubava-as s
  vezes de espcies que nos parecem hoje bem pouco esquisitas. As peras do judeu
  eram dadas num teatro popular; no as ouvia a corte de D. Joo V, mas o povo e
  os burgueses de Lisboa, cujas orelhas no teriam ainda os melindres que mais
  tarde lhes atribuiu Figueiredo. A diferena entre Antonio Jos e os outros era
  afinal uma questo de quantidade; mas, se o tempo lh'o permitia e, com o tempo,
  a censura, que muito  que o poeta reincidisse? No  isto escus-lo, mas
  explic-lo. Deixemos os trocados e equvocos, que so um chiste de mau gosto,
  mcula de estilo, que o poeta exagerou at  puerilidade, cedendo a si mesmo e
  ao riso das platias. Outro defeito que se lhe argi,  o tom guindado e os
  arrebiques de conceito, que se notam em muitas falas de certos personagens, os
  deuses, prncipes e heris. Um de seus bigrafos, comparando o estilo de tais
  personagens com o dos criados e pessoas nfimas, que so simples e naturais, supe
  que houve no poeta inteno satrica, opinio que me parece carecer de
  fundamento, entre outras razes porque no h sempre aquela diferena de
  estilo, e no  raro falarem os principais personagens do mesmo modo natural e
  reto, que os de condio inferior. Guindam-se muita vez, mas era achaque do
  tempo e exagerao na maneira de empregar o estilo nobre, porque havia ento um
  estilo nobre; e, se o judeu teve alguma vez inteno satrica, arrebicando ou
  empolando a expresso, tal inteno foi somente literria e nenhuma outra. Que
  diremos dos anacronismos de linguagem? Esses so constantes e excessivos. Os
  dobres de Alcmena, a alcunha de alfacinha dada a Anfitrio, Juno crismada em Felizarda, um criado antigo 'de corpo 
  inglesa', outro com 'relgio de penduricalhos', deviam promover
  a gargalhada franca do povo. Esse fugir do meio e da ao para a realidade
  presente vai algumas vezes alm, como na Esopaida, em que o heri,
  falando de sua vida, diz que anda em livros pelo mundo -- 'e agora me dizem
  que se est representando no Bairro-Alto'. J na Vida de D. Quixote havia o poeta posto a mesma coisa na boca de Sancho, quando o cavaleiro, vendo
  um barco amarrado, pergunta ao escudeiro: "-- Sabes onde estamos? -- Sei bem. --
  Aonde? -- No Bairro-Alto'. O judeu podia responder que tal sestro foi o de
  Regnard e o de Boursault, por exemplo, que ps o seu Esopo a tomar caf e meteu
  com ele esposas de tabelies; podia citar muitos outros exemplos anteriores e
  contemporneos, e a crtica se incumbiria de apontar os que vieram depois dele;
  mas no vale a pena.

Venhamos ao Anfitrio.
  Um erudito escritor, o Sr. Tefilo Braga, supe que a inteno do poeta, nessa
  comdia, foi pintar em Jpiter a pessoa de D. Joo V, suposio que detidamente
  examinei e me parece inteiramente gratuita. Cuido que o crtico faz de uma
  coincidncia um propsito, e fundamenta a sua suspeita na possvel analogia das
  aventuras do deus pago e do rei cristo. A analogia podia ser um elemento de
  prova, mas desacompanhada de outras no faz chegar a nenhum resultado
  definitivo. Ora, basta ler o Anfitrio,
  basta comparar a situao do poeta e o tempo para varrer do esprito semelhante
  hiptese. Certo, no faltava audcia ao poeta; a est, como exemplo, a
  definio da justia, feita por Sancho, na Vida de D. Quixote; mas entre
  a generalidade desse trecho e a stira pessoal do Anfitrio vai um abismo. Ocorre-me que do Anfitrio de Molire tambm se disse ser aluso a Luiz XIV, com a
  diferena que em Frana no se atribuiu a Molire a inteno de ferir, mas de ser
  agradvel ao rei, que lhe havia encomendado aquela apoteose de suas prprias
  aventuras, opinio esta que foi de todo condenada. No, no h motivo para
  atribuir a Antonio Jos a inteno que lhe supe o Sr. Tefilo Braga; e, se tal
  inteno existisse, o desenlace da comdia, quando Jpiter se declara acima da
  lei, viria a ser de um sarcasmo to cru que no alcanaramos compreend-lo
  naquele sculo.

Evidentemente, o judeu achou na aventura pag o mesmo que
  lhe acharam Plauto, Molire e Cames, -- um assunto prestado s combinaes
  cnicas, e, demais, singularmente prprio para as chufas do Bairro-Alto.
  Desnecessrio  dizer os trmites dessa travessura de Jpiter, que, namorado de
  Alcmena, toma a figura do marido e vai  casa dela, acompanhada de Mercrio,
  que copia as feies de Ssias, criado de Anfitrio. O nosso poeta seguiu no
  principal a fbula que encontrou nos antecessores, fazendo-lhes todavia as
  alteraes suscitadas pelo gosto prprio e das platias. Assim, o Ssias de
  Plauto, de Molire e de Cames  na pea de Antonio Jos um Saramago. No lhe
  mudou ele o essencial; trocando-lhe o nome, obedeceu ao sistema de dar aos
  criados nomes burlescos. O de Jaso, nos Encantos de Media, chama-se
  Sacatrapos; h nas outras peras um Caranguejo, um Esfusiote, um Chichisbu.
  So nomes, no valem mais que nomes. Nem Molire chamou Dandin ao principal
  personagem de uma de suas comdias seno para o caracterizar desde logo de um
  modo jovial; no pretendeu outra coisa. Contudo, a observao em relao a
  Antonio Jos tem o valor de um rasgo significativo.

Cotejando o Anfitrio de Antonio Jos com os de seus antecessores, v-se o que ele imitou dos modelos
  e o que de sua casa introduziu. J disse que no principal os seguiu a todos;
  mas nem sempre soube escolher, e darei disso um exemplo claro. Cames, que no
  sendo poeta cmico, era todavia homem de tato e gosto, corrigiu, antes de
  Molire, o desenlace do Anfitrio de
  Plauto. Na comdia deste, logo depois de explicar Jpiter os equvocos da situao
  e de anunciar ao marido de Alcmena que o filho desta  seu, mostra-se Anfitrio
  inteiramente satisfeito e glorioso com o desenlace. Cames suprimiu to
  singular contentamento, e o mesmo fez Molire; em ambos os poetas Anfitrio
  ouve silencioso as declaraes do pai dos deuses, sem que Alcmena assista a
  elas. Antonio Jos no s no seguiu nessa parte os modelos recentes, mas at
  carregou a mo sobre o que imitou de Plauto. A alegria do seu Anfitrio e da
  sua Alcmena  to franca, tamanho  o alvoroo dos dois esposos, que realmente
  chega a ofender as leis da verossimilhana, ainda tratando-se de um caso
  divino. Neste ponto, Antonio Jos foi antes inadvertido do que obrigado do
  gosto pblico. Outro caso. Nas comdias anteriores no h nenhum lugar em que Alcmena
  veja ao mesmo tempo os dois Anfitries, e isto no s era necessrio para
  prolongar e justificar os equvocos, mas at o exigia a verossimilhana,
  porque, desde que Alcmena chegasse a ver juntos os dois exemplares exatos do
  marido, saa da boa f, que serve de fundamento  sua iluso, para cair no
  maravilhoso e no inextricvel. E  justamente o que acontece na comdia do
  judeu.

Vamos agora ao que o judeu imitou diretamente de Molire.
  H na comdia daquele um carter, o de Cornucpia, mulher de Saramago, que no
  tem equivalente na de Plauto, nem na de Cames, e que s na de Molire existe.
  'Molire ( observao de
  La
    Harpe
  ), fazendo de Cleanthis mulher de Ssias, inventou uma
  situao paralela  de Anfitrio e Alcmena, dando-lhe porm diferente aspecto;
  Cleanthis pertence ao nmero das esposas que, 'por serem honestas, cuidam
  ter o direito de ser insuportveis'. Ora bem, a situao e o carter de
  Cleanthis transportou-os o judeu para o seu Anfitrio, e no se pode dizer
  encontro fortuito, seno deliberado propsito. Basta cotej-los com esprito
  advertido; a diferena  de tom, de estilo; substancialmente, a inveno  a
  mesma; as prprias idias reproduzem-se s vezes na obra do judeu. Assim, logo
  na cena
  em que
    Mercrio
  transformado em Saramago (Ssias) encontra a mulher
  deste, achamos o trao comum aos dois poetas.

Na comdia de Molire:

CLEANTHIS

Regarde,
  tratre, Anfitrion;

Vois
  comme pour Alcmne il tale sa flame;

Et
  rougis l-dessus du peu de passion

Que
  tu tmoignes pour ta femme.

MERCURIO

H!
  mon Dieu! Clanthis, ils sont encore amants.

Il
  est certain ge o tout passe;

Et ce
  qui leur sied bien dans ces commencements,

En
  nous, vieux maris, aurait mauvaise grce.

Il
  nous ferait beau voir, attachs face  face,

A
  pousser les beaux sentiments!

CLEANTHIS

Mrites-tu,
  pendard, cet insigne bonheur

De te
  voir pour pouse une femme d'honneur?

MERCURIO

Mon
  Dieu! tu n'es que trop honnte;

Ce
  grand honneur ne me vaut rien.

Ne
  sois point si femme de bien,

Et me
  romps un peu moins la tte.

Agora Antonio Jos:

CORNUCPIA

Tambm nosso amo trazia bastante fome, e contudo est
  dizendo  nossa ama tanta coisa galantinha que faria derreter uma pedra.

MERCRIO

Com que  o mesmo nossos amos do que ns? Eles, casadinhos
  de um ano, e ns h um sculo? Eles, senhores e rapazes, e ns velhos e moos? Eles,
  dois jasmins, e ns dois lagartos? E finalmente eles com amor, e ns, ou pelo
  menos eu, sem nenhum?

...................................................................

CORNUCPIA

Ora, o certo  que pior  fazer festa a viles ruins; por
  certo, que se tu conheceras a mulher que tens, que outra coisa fora; talvez que
  se eu fora alguma dessas bonequinhas enfeitadas que me quiseras mais; porm a
  culpa tenho eu em no aceitar o que me davam nas tuas costas.

MERCRIO

Pois ainda ests em tempo.

Trata-se, como se v, de um carter e de uma situao
  integralmente transcritos, embora de outro jeito, cedendo o poeta aos seus
  hbitos literrios,  sua ndole e ao seu meio. Nem  somente na introduo do
  carter de Cornucpia, e na situao dos dois personagens, que Antonio Jos
  revela ter diante de si ou na memria a pea de Molire; h ainda outro
  vestgio; h uma idia na cena
  em que Jpiter
  se despede de Alcmena, -- idia que o
  judeu expressa deste modo:

ALCMENA

Este amor nasce da obrigao.

JPITER

Pois quisera que esta fineza nascera mais do teu amor que
  da tua obrigao.

ALCMENA

A obrigao de amar ao esposo supera toda a obrigao.

JPITER

Pois mais devera que me quiseras como a amante que como a
  esposo.

ALCMENA

No sei fazer esta diferena, pois no posso amar-te como
  a esposa, sem que te ame como a amante.

Na comdia de Molire:

JUPITER

En
  moi, bele et charmante Alcmne,

Vous
  voyez un mari, vous voyez un amant;

Mais
  l'amant seul me touche,  parler franchement,

Et je
  sens prs de vous que le mari me gne.

Cet
  amant, de vos voeux jaloux au dernier point,

Souhaite
  qu' lui seul votre amour s'abandonne.

...................................................................

ALCMENA

Je ne
  spare point ce qu'unissent les dieux;

Et
  l'poux et l'amant me sont fort prcieux.

Se, neste ponto, j se no trata de uma situao, de um carter
  novo, mas de uma idia entrelaada no dilogo, importa repetir que, ainda
  imitando ou recordando, o judeu se conserva fiel  sua fisionomia literria;
  pode ir buscar a especiaria alheia, mas h de ser para temper-la com o molho
  da sua fbrica. Dessa inclinao ao baixo cmico achamos outro exemplo na Esopaida,
  cujo assunto fora tratado, antes dele, por Boursault. O carter tradicional de
  Esopo era pouco apropriado  comdia:  um moralista, um autor de aplogos, mas
  Boursault trouxe-o assim mesmo para a cena, nico modo de lhe conservar a cor
  original. O Esopo de Antonio Jos parece antes um exemplar apurado daqueles
  lacaios argutos e atrevidos da comdia clssica; salvo dois ou trs lugares, 
  outro gnero de Sacatrapos ou Chichisbu; figura ali com agudezas e
  trocadilhos. H destes extremamente bufes, como o da bacia das almas, e disso
  e de pouco mais se compe a filosofia de Esopo. No obstante essa cor geral,
  notam-se ali toques de bom cmico, embora leve e a espaos. H tambm, e
  principalmente, a veia satrica, na cena que quase todos os seus bigrafos
  transcrevem, -- a das teses dos filsofos, cena extremamente chistosa, e que o
  prprio Diniz, com toda a sua veia do Hyssope e do Falso Herosmo,
  no sei se chegaria a fazer mais acabada. Compare-se essa cena com a da invaso
  do Parnaso pelos maus poetas, na Vida de D. Quixote, e ver-se- que
  havia no talento de Antonio Jos uma forte dose de stira, -- o que, de certa
  maneira, lhe diminua a fora cmica. Nessas duas peas , alis, sensvel a
  habilidade teatral do poeta, que no tinha propriamente uma ao em nenhuma
  delas, e, no obstante, logrou condensar a vida dos episdios, manter a unidade
  do interesse e angariar o aplauso pblico. Acresce que o seu D. Quixote no tem
  o defeito capital do seu Esopo; o poeta soube dar-lhe alguns toques da
  ingenuidade sublime, que caracteriza o tipo de Cervantes:  o que se v logo,
  na exposio, quando D. Quixote responde ao barbeiro acerca da armada que se
  prepara para combater o turco: "-- Para que se cansam com tantas mquinas? diz
  ele. Eu lhes dera um bom arbtrio com que, em menos de uma hora, venam quantas
  armadas e armadilhas o turco tiver'.  ocioso dizer que o arbtrio seria a
  cavalaria andante.

De todas as comdias, porm, a que goza as honras da
  primazia  a das Guerras do Alecrim e Manjerona, e com razo;  a mais
  acabada e a mais cmica. Tem o gosto do tempo, e at um ressaibo da maneira de
  Caldern, que de si mesmo escrevia:

Es
  comedia de Don Pedro

Caldern,
  donde ha de haber,

Por
  fuerza, amante escondido

Y
  rebozada mujer.

H ali com efeito mulheres rebuadas e amantes escondidos,
  e tanta vida como nas peas de Caldern.

No trato aqui do fato que poderia ter dado lugar  obra
  do judeu, nem das dvidas de Costa e Silva sobre se os dois ranchos do alecrim e da manjerona existiam antes da comdia, ou se esta os fez nascer; 
  investigao que no vale a pena de um minuto, e alis o texto do poeta 
  claro. Em tudo se avantaja o Alecrim e Manjerona, at na linguagem, que
   a muito menos obscena que nas outras, diferena que se pode atribuir ao
  progresso do talento, porquanto j no Labyrintho
    de Creta se d o mesmo fenmeno. No direi, como Garret, que essa pea
  teria hoje todo o valor de uma comdia histrica; mas assim mesmo, quem lhe v
  as figuras, a sculo e meio de distncia, parece contemplar uma gravura em que
  elas conservam as feies e o vesturio do tempo, -- os namorados pobres, o
  velho avarento, que arde por se ver livre das sobrinhas, e que, ao
  anunciarem-lhe a chegada do pretendente provinciano, manda deitar 'mais um
  ovo nos espinafres', D. Tibrcio, as duas damas, o Semicpio e a velha
  Fagundes, todo o pessoal da antiga farsa.

Superior s outras composies, como estilo e
  originalidade, no menos o  como viveza, graa e movimento; e, se a farsa
  domina, no  tanto que no aparea a comdia. Basta apontar, por exemplo, a
  cena da consulta mdica, por ocasio do desastre de D. Tibrcio, que  uma das
  melhores do teatro do judeu, e no ficaria vexada se a pusssemos ao lado das
  de Molire e Gil Vicente. Para no faltar nada, h tambm aforismos latinos, e
  at uma copla latina, digna de Molire. Podemos considerar o Alecrim e Manjerona como uma das melhores comdias do sculo XVIII.

Ler o Alecrim e Manjerona, o Anfitrio, a Esopaida, e
  o D. Quixote,  avaliar todo o poeta,
  com suas qualidades boas e ms, com o jeito do seu esprito e influncia do seu
  tempo. Nicolau Luiz, Figueiredo, Diniz e Garo, no mesmo sculo, tiveram
  talvez mais inteno cmica do que Antonio Jos, mas os meios deste eram maiores,
  possuam outra virtualidade, outra espontaneidade, outra abundncia. Dir-se-
  que, se a Inquisio o deixara viver, Antonio Jos produziria alguma obra de
  esfera superior? Repito: no creio que ele subisse muito acima do Alecrim e Manjerona; iria talvez ao
  ponto de fazer alguma coisa parecida com o Avaro, mas no faria todo o Avaro.

Agora, a sculo e meio de distncia, podemos afirmar que
  Antonio Jos foi um destino decapitado. Qualquer que fosse a natureza do seu
  engenho,  fora de dvida que o auto da f, em que ele pereceu, devorou com a
  mesma flama assaz de pginas alegres e vivazes. A prova de que o teatro poderia
  ainda esperar muito de Antonio Jos est, na comparao das obras dele com a
  vida dele. Era um cristo novo, como tal suspeitado e perseguido; aos vinte e
  um anos padeceu um primeiro processo, e sabe-se que terrveis eram os processos
  inquisitoriais; basta dizer que o delinqente revelou todos os seus cmplices
  em judasmo, com a maior franqueza e minuciosidade, o que se pode explicar pela
  tenra idade do poeta, mas tambm pelo terror que o tribunal infundia, no menos
  que pela exortao mansa com que os inquisidores extorquiam a confisso de
  todos os erros e a denncia de todos os cmplices, -- sem prejuzo, alis, do
  crcere e da pol. Pois bem, no obstante os vestgios e as lembranas desse
  primeiro ato da Inquisio, no obstante o espetculo do que padeciam os seus,
  as peras de Antonio Jos trazem o sabor de uma mocidade imperturbavelmente
  feliz, a faccia grossa e petulante, tal como lh'a pedia o paladar das
  platias, nenhum vislumbre do episdio trgico, salvo uns versos do Anfitrio que se crem (e, quanto a mim,
  sem outro fundamento alm da conjectura) como aplicveis a ele mesmo. Mas,
  ainda supondo que a conjectura tenha razo, admitindo mais que a alegoria da
  justia na Vida de D. Quixote seja o resumo das queixas pessoais do
  poeta (suposio to frgil como aquela), a verdade  que os sucessos da vida
  dele no influram, no diminuram a fora nativa do talento, nem lhe torceram
  a natureza, que estava muito longe da hipocondria. Molire, que, se nem sempre
  teve flores no caminho, no conheceu o nfimo dos padecimentos de Antonio Jos,
  foi o criador de Alceste; o nosso judeu, dado que tivesse a mesma intensidade
  de talento, no escolheria nunca o assunto do Misanthropo.

Nisto, menos que em nenhuma outra coisa, imitaria ele o
  grande mestre. No lhe fossem propor graves problemas, nem mximas profundas,
  nem os caracteres, nem as altas observaes que formam o argumento das comdias
  de outra esfera, nem sobretudo as melancolias de Molire e Shakespeare. O nosso
  judeu era a farsa, a genuna farsa, sem outras pretenses, sem mais remotas
  vistas que os limites do seu bairro e do seu tempo. Certo, eu posso hoje, a
  fina fora, arrancar alguma idia inicial das peras do judeu; por exemplo, ao
  ver nos Encantos de Media a dedicao da feiticeira de Colchos, que
  trai os deveres filiais e pe todas as suas artes ao servio de Jaso, ao ponto
  de lhe entregar o velocino, e ao ver que, apesar de tudo isto, o prncipe foge
  com Creusa, posso, digo eu, atribuir ao poeta a inteno de que o
  reconhecimento no  o caminho do amor e que um corao pode ser legitimamente
  ingrato. Seria lgico, seria bem deduzido da ao, mas no passaria de obra da
  crtica, inteiramente alheia  inteno do poeta, que achou no assunto uma
  farsa de tramias e ainda mais. Esta  a ltima concluso que rigorosamente se
  pode tirar do poeta. Ele no imitou, no chegaria a imitar Molire, ainda que
  repetisse as transcries que fez no Anfitrio; tinha originalidade,
  embora a influncia das peras italianas. Convenhamos que era um engenho sem
  disciplina, nem gosto, mas caracterstico e pessoal.

Revista Brasileira, I, 1879.
